ARTIGO | Seja a rainha da dança!

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Eu já disse muitas vezes “não nasci pra isso” ao tentar justificar minha falta de talento para alguma coisa. Até que ouvi, de um homem, “ninguém nasceu para nada”. Homens crescem com essa verdade muito concreta. São livres desde o berço. Talvez, por isso, para eles seja mais claro saber que ninguém nasceu pra nada. Nós, mulheres, precisamos de alguém para nos lembrar. Que nos repita todos os dias: “vai lá e faz!”. Não é uma questão de não entender, mas de um mundo que nos mostra o contrário.

Inspire-se na Meryl Streep e seja a rainha da dança!

Esses dias, enquanto esperava minha filha na escola, prestei atenção nas crianças que brincavam no pátio. Os meninos corriam e exploravam todos os cantos, enquanto as meninas se reuniam em grupos e falavam baixinho. Eles subiam na mesa de pingue-pongue, pulavam nos bancos, passavam correndo no meio das rodinhas formadas por crianças. As meninas observavam tudo de longe. Até que um menino decidiu incluir as meninas na brincadeira. Ele pegou na mão de uma delas a levou até o centro do pátio. A menina foi meio sem jeito, agarrando a amiga com a outra mão e assim todas foram, em fila. A cena durou poucos minutos. Logo, elas abandonaram a brincadeira e voltaram pro canto de novo.

Esse exemplo é um pequeno recorte da realidade macro. Quando eu separo o mundo em azul e rosa, crio caixas e digo para as pessoas que elas precisam entrar no “seu quadrado”. As meninas não se sentiam seguras em correr pela escola. Não era o mundo delas. Você pode dizer que meninos e meninas brincam de forma diferentes. Eu entendo, mas, nós mulheres, somos ensinadas desde cedo a nos comportar dentro de regras pré-determinadas.

Há uns dois anos eu escrevo histórias para minha filha Alice, de 6 anos. A ideia veio depois de uma discussão. Ela insistia que a rainha precisava de um rei e que a princesa precisava de um príncipe para ser salva do dragão. O argumento dela era de que todas as histórias infantis eram assim. E se na história era assim, na vida também seria.

Na minha primeira história, retratei ela como heroína. Mostrei que uma menina pode salvar seus amigos. Depois vieram outras . Sempre de meninas heroínas. Hoje, ela já entendeu a ideia, mas ainda se acha “incapaz”, por ser menina, de lutar por algumas coisas. É uma construção. Dia a dia, vou pavimentando essa estrada da libertação. Dela e minha. E tento quebrar as caixinhas que o mundo insiste em construir para ela entrar. E mostrar que ela é capaz e pode ser o que quiser!

Domingo, depois de ler a coluna da Martha Medeiros, fui ao cinema. Ela sugeria comemorar o Dia da Mulher assistindo o filme LOU. Eu sugiro o mesmo a você. Em Porto Alegre, está passando no Guion Cinemas. LOU (2017) conta a história de Lou Salomé, filósofa, poeta, romancista, psicanalista, a mãe do empoderamento. Como muitas outras mulheres a frente de seu tempo, foi perseguida por defender sua liberdade. Era uma apaixonada pela vida. Dona de sua vontade. Inspirou e trabalhou ao lado de homens conhecidos da história, Sigmund Freud, Friedrich Nietzsche, Rainer Maria Rilke e Paul Rée, mas não teve o reconhecimento que eles tiveram. Pouco se fala sobre ela. Pouco se encontra na literatura sobre Lou. Seu nome ficou na sombra.

A famosa foto do trio: Lou Salomé, Paulo Rée e Friedrich Nietzsche (de bigode).

A famosa foto do trio: Lou Salomé, Paul Rée e Friedrich Nietzsche (de bigode).

Nós podemos ser LOU, minha filha pode ser LOU, as coleguinhas dela também. Eu quero ser LOU. Toda mulher precisa ser LOU. Vamos lembrar, todo dia, uma mulher de que ela pode ser o que quiser. Que ela não nasceu programada. Que é a rainha da própria dança. Que a vida dela é uma página em branco esperando a próxima aventura. Deixo aqui um trecho de um poema de Lou Salomé. Faça dele um mantra na sua vida.

Ouse, ouse. Ouse tudo.
Não tenha necessidade de nada.
Não tente adequar sua vida a modelos,
nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.
Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
Se você quer uma vida, aprenda a roubá-la!
(Lou Salomé, escritora, psicanalista, filósofa, poeta, romancista, mulher)

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