ARTIGO | Uma pena que o vinho não se possa acariciar

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O vinho, entre os bens de consumos, é aquele mais frequentemente
associado a elementos sociais e culturais diversos.

Hoje a representação do consumo do vinho pode estimular especialmente duas interpretações peculiares: uma explora a imagem tradicional e cultural do ato de beber, associando esta prática a momentos de relax, aos prazeres da mesa, da tradição;  a outra interpretação é ligada à imagem transgressiva de prazeres rebeldes, desinibidos, representando a diversão extrema, transgressiva e libertadora, jogando por terra as inibições e ultrapassando limites. Esta última leitura é naturalmente errada e extremada.

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Terreno comum para estas interpretações é a nossa cultura, uma cultura do ato de beber com raízes antigas, carregada de elementos místicos e misteriosos. E é dentro do âmbito cultural, lugar privilegiado para construção de mundos ideais, que temos a oportunidade de reorganizar experiências e definir eventos buscando uma estética do vinho que torne possível sua dimensão ideal.

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Retomando uma análise desenvolvida por importantes sociólogos, podemos afirmar que a perspectiva da estética entra em cena assim que o vinho é considerado não apenas uma “coisa” (um objeto da natureza, um produto químico), nem meramente um alimento, ou um remédio, ou uma mercadoria, mas um “objeto estético”, ou seja algo que possui valor estético.

O ato que visa colher e mensurar o valor estético do vinho é a pratica, o exercício da degustação, que consiste na avaliação das qualidades estéticas do vinho, mediante a análise das sensações visivas, olfativas, gustativas e tácteis que possa oferecer.

A partir da degustação, entendida como busca e fruição do valor estético, podemos destacar duas formas: uma emotiva, voltada para a gozo emocional, outra de juízo seletivo, com viés avaliativo, para reconhecer e atribuir o adequado valor, não necessariamente monetário, ao vinho objeto da degustação.

Naturalmente, não há necessidade de ser juiz para assumir o vinho como objeto estético. Um objeto estético deve deixar – se apreciar por suas próprias qualidades de limpidez, transparência, estrutura, equilíbrio, calor, harmonia, elegância e possibilidade de compartilhar.

Como de fato o vinho exibe esses valores, podemos defini-lo um objeto estético que espiritualmente cada um de nós tem a possibilidade virtual de “acariciar”.

Oficial Photo_ Dr. Roberto Rabachino_01.01.2018
Roberto Rabachino Dr. PhD. em Ciências da Alimentação e professor universitário em diversas universidades do mundo. Presidente da IWTO com sede em Nova York e da FISAR con sede em PISA. Presidente dos jornalistas italianos do setor agroalimentar (ASA) com sede em Milão. Diretor responsável da revista "Il Sommelier". Em 2016, recebeu pelo Associação Brasileira de Enologia o Troféu Vitis, o mais importante prêmio relacionado ao vinho no Brasil, durante 24ª Avaliação Nacional de Vinhos de Bento Gonçalves. Escreve sobre vinhos.

 

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