CERVEJA: Teria sido melhor ver o Pelé

“E mesmo os outros Homens Queimados temiam Timett, (…) ficaram tão aterrorizados pela sua escolha de um olho que imediatamente o nomearam Mão Vermelha, o que parecia ser algum tipo de chefe de guerra.”

Impressionante personagem de As Crônicas de Gelo e Fogo (Martin, George R. R., Editora: Leya Brasil). Aliás, a sua tribo inteira impressiona, já que o ritual de passagem para a vida adulta envolve a queima de alguma parte do corpo. Normalmente, os Homens Queimados queimam um dedo, um mamilo ou, os muito corajosos, uma orelha. O seu líder, como diz o trecho citado acima, um olho. Assim como eles, toda sociedade tem rituais de passagem que, em geral, envolvem algum sacrifício: maior o sacrifício, maior o reconhecimento.

Quando alguém entra na tribo das cervejas, há alguns degraus mais ou menos estabelecidos na evolução para ser considerado um expert. O primeiro deles é trocar as cervejas comuns por especiais. Normalmente, tal passo é dado com as cervejas de trigo – mais complexas, mas ainda bastante leves; em seguida, buscam-se cervejas com mais corpo, via de regra, maltadas – Pale Ales, Blond Ales e Red Ales são bons exemplos. Quando isso já não basta, vêm as cervejas com muito lúpulo, em geral, India Pale Ales (IPAs). No mundo dos vinhos é parecido: trocam-se os vinhos suaves por espumantes, passa-se por tintos leves e, quando se dá conta, o cidadão tá tomando um tannat uruguaio do ano passado na beira da piscina.

Dizer que se gosta de IPA é uma prova de que o entendido em cervejas já passou pelas provações e rituais de iniciação. Depois de entrar no nível IPA, começa a escalada do IBU – unidade que mede o amargor das cervejas. Quanto mais, melhor. As conversas parecem as de adolescentes medindo o tamanho de seus pintinhos – uma verdadeira competição pra ver quem o tem maior. Como nem todo mundo leva uma régua no bolso ou está disposto a fazer a medição, mentir faz parte do jogo. Nessa parte da mentira é que entram as cervejas com mais de 100 IBU.

Como é comum à gastronomia e bebidas, em geral, estamos mais interessados no mito do que na ciência. Com um pouco de ciência, os mitos caem. E é aí que as cervejas com mais de 100 IBU não me descem – não por não gostar de amargo; na minha infância, mastigava losna com meu avô para passar o tempo. Cerveja com mais de 110 IBU, simplesmente não existem, de acordo com The Oxford Companion to Beer. Primeiro, porque a saturação de iso-alfa-ácido (componente do lúpulo que dá origem ao amargor da cerveja) não pode passar de 110 ppm, teoricamente; na prática, não se consegue chegar nem mesmo aos 100. Segundo, porque as papilas gustativas humanas não têm capacidade de diferenciar concentrações muito maiores de 100 ppm.

Eu ia escrever sobre uma cerveja de 1.000 IBU. Nem cito a marca, para evitar confusões para o meu lado. Se alguém quiser uma cerveja bastante amarga, recomendo a Green Cow, da cervejaria Seasons – excelente cervejaria, vale a pena provar todas as suas cervejas. A Green Cow tem 60 IBU e é mais amarga que várias acima dos 100 IBU (declarados) que estão à venda por aí. Não só isso, tem excelente aroma advindo dos seus lúpulos selecionados e um grande equilíbrio em boca, apesar do grande amargor.

Sobre a cerveja de 1000 IBU? É maravilhosa. Mas é como aquela namorada, ou aquele namorado, formidável que mente e você descobre: dá até preguiça de tentar de novo. Poderia ser caso de fazer uma denúncia no Procon. Talvez o correto fosse fazer uma consulta ao Ministério da Agricultura ou ao Inmetro. Mas não. Honestamente, como diria o Chaves, “seria melhor ter ido ver o filme do Pelé”.

(The Mico)

(Timett: The Mico)

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