CERVEJA | Um diário íntimo da cerveja barata

Agora eu sou chato pra vinho, mas com o que eu já tomei de vinho ruim daria pra encher algumas pipas.”

Mais uma frase clássica do querido Roberto Meneghel, o tio Mene, enquanto terminava de jantar com um Luigi Bosca Cabernet Sauvignon. O mesmo que, quando alguém pediu café descafeinado, ofereceu bolacha desbolachada para acompanhar. Ele era um tipo que gostava de estar com pessoas e as pessoas gostavam de estar com ele. Normalmente, faltavam-lhe dias da semana para o número de jantas que tinha. Conversava com senadores no mesmo tom com que tratava um andarilho que o abordasse na rua. Enfim, era grande apreciador de vinhos, da culinária e entendia de gente como ninguém – ele apreciava gente.

Quando estou na companhia de pessoas maduras, inteligentes e queridas, faço uma reflexão parecida com a que ele fez com vinhos: já perdi tanto tempo com gente que não vale a pena que já teria me formado e pós-graduado no assunto. Não creio que seja algo particular meu, o volume de gente imbecil no mundo é tão grande que é um mal que acomete todos. Hordas de imbecis vagam sem rumo na esperança de conquistar o mundo – e conseguem. Há ícones de imbecilidade, alguns  transformam-se em ídolos pop. Assim como qualquer ser humano contemporâneo, eu também gasto muito tempo com ídolos pop.

Fui ao show de um deles no estádio Olímpico, há alguns anos. Sou gremista, mas nunca fui a um jogo do Grêmio no Olímpico – tampouco na Arena, ainda. Uma das razões era que eu não queria perder tempo com futebol. Nem tempo, nem dinheiro. Veja só, num só evento, gastei tempo e dinheiro suficientes para ir a muitos jogos do Grêmio (uns seis, no mínimo). Mas não estou aqui para escrever sobre vinho, nem sobre o tio Mene, nem sobre ídolos pop, nem sobre o Grêmio (ainda bem), meu compromisso é escrever sobre cervejas.

Há cervejas que não valem a pena – são uma perda de tempo. Só que, diferentemente do tio Mene, continuo a encher os meus barris com cervejas que, digamos assim, não são aclamadas pela crítica. As razões mudam: ou é um lugar com falta de opções, ou é o amigo que adora aquela cerveja, ou é falta de dinheiro – sempre há uma desculpa. Mas será que existe algum critério para comprar cervejas, por exemplo, abaixo de R$ 3,00? Segundo Fernando Pessoa, “tudo vale a pena se alma não é pequena”. Engrandeçamos, portanto, as nossas almas e olhemos com mais carinho para algumas dessas cervejas.

Stella Artois

O chope da Stella é relativamente comum em alguns bares que eu costumava frequentar e criei uma boa referência dessa marca. Quando foi lançada no Brasil, me empolguei; quando provei, a empolgação terminou. A versão brasileira é muito, mas muito mais leve que a europeia. Quero ser bem claro: isso não é ruim, nem bom, é só uma questão do gosto do bebedor. A Stella parece ser muito apreciada aqui no Brasil, tanto que é uma das cervejas frequentemente tratadas como premium por alguns consumidores. A diferença que tem para as outras de sua categoria é um aroma um pouco mais lupulado.

Heineken

A Heineken é a minha cerveja barata oficial. Dificilmente minha geladeira fica sem pelo menos uma garrafinha. Além de ser uma das poucas puro malte, que lhe dá mais corpo, o lúpulo usado, ao contrário da Stella Artois, é amargo. Particularmente, gosto bastante daquele pontinho amargo. Normalmente, bebo Heineken tocando bateria ou comendo pipoca.

Budweiser

A querida Bud tem feito um grande trabalho para conquistar os brasileiros e, para alguns, ganhou o status de cerveja premium a preço popular. Dado que a comparação é feita com a Heineken, normalmente, quem não gosta de amargor e prefere aroma mais discreto fica com a tradicional marca americana. Ao contrário da maioria das cervejas, a Bud declara orgulhosamente as “suas fontes de amido não maltadas”, com destaque para o arroz. Aliás, tem algo no seu aroma que me faz lembrar saquê – talvez, eu esteja sugestionado pelos ingredientes.

Bohemia

A Bohemia é a marca de cerveja mais antiga do Brasil, registrada em 1853. Entre os mitos criados em torno deste fato e edições especiais que fazem valer a imagem – especialmente depois da aproximação com a Wäls – a Bohemia é uma das marcas mais bem posicionadas no imaginário do brasileiro. Sobre a cerveja, tem um estilo bastante parecido com a Stella, com a diferença de ser mais adocicada, portanto mais fácil de se beber.

Itaipava

Em geral, ouço falar da Itaipava com muito apreço. Talvez por ser de uma cervejaria menor que as gigantes, não sei. Mas é uma cerveja bastante razoável, sem defeitos, como a maioria das cervejas padrão.

Kaiser

Eu sei, o cara que leva Kaiser para o churrasco é aquele que queima o seu filme com a turma. Mas é preciso que você saiba que é um grande preconceito, o cidadão deveria ser tão odiado quanto aquele que leva Brahma, Skol ou Polar (essa última, só para quem mora no Rio Grande do Sul). Não quero dizer que seja uma grande cerveja, muito menos que seja melhor que outras citadas, só é do mesmo nível e a maioria das pessoas não é capaz de identificar a diferença – especialmente aqueles que bebem chope Kaiser, pensando que é Heineken.

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