CERVEJAS | A melhor cerveja do mundo

O Robert Parker é o crítico de vinhos mais respeitado e mais desrespeitado do mundo do vinho. Desrespeitado pelas suspeitas de fraudes ou pelas fraudes comprovadas; respeitado por todo o resto. “Todo o resto” começou com a maravilhosa façanha de fazer os americanos compreenderem minimamente uma das regiões produtoras de vinhos com mais altos e baixos do mundo: Bordeaux. De quebra, acabou com alguns mitos e valorizou algumas marcas desconhecidas. O interessante é como ele conseguiu tal façanha: dando notas numéricas aos vinhos, numa escala de zero a cem.

Robert Parker não tinha credencial alguma para ser respeitado no mundo do vinho antes de ser respeitado no mundo do vinho. A sua chegada triunfal foi a avaliação da safra de 1982 dos vinhos de Bordeaux, que deu credibilidade ao advogado estadunidense. Isso só aconteceu porque o seu público, por uma razão ou outra, concordou com as suas notas. As vinícolas bordalesas perceberam que vinhos bem avaliados pela sua revista vendiam mais e passaram a elaborar vinhos sob medida para atingirem maiores pontuações. O fenômeno foi tão intenso que ganhou um nome: parkerização. Para agradar o Bob, os vinhos de todo o mundo passaram a ser mais alcoólicos, com mais carvalho e consumidos mais jovens.

Bueno, dois parágrafos sobre vinhos numa coluna de cerveja é demais, mas, quem está subindo uma montanha íngreme tem muito a aprender com quem está descendo. A tal da parkerização é um termo pejorativo dado à padronização do padrão sobre o que é um bom vinho, anulando a diversidade. Ring a bell? As cervejas artesanais inundam o paladar de pessoas de todo o mundo, justamente contra o processo de padronização imposto pela grande indústria cervejeira ao longo do século XX. Agora que se começa a ter uma variedade minimente razoável, os consumidores se perdem um pouco e procuram guias, resultados de concursos, avaliações e gurus para ajudarem-nos nas suas escolhas. Um dos possíveis resultados, talvez, venha a ser algum tipo de “parkerização cervejeira”.

Sou um relativista – não acredito que haja verdades plenamente objetivas e absolutas. Todos os rankings, todas as notas, todos os concursos e todos os guias não merecem ser tomados como a palavra final sobre a qualidade das cervejas que avaliam. Não quero dizer que não sejam organizados com seriedade, em sua maioria, só quero dizer que não são absolutos. Quero dizer que são relativos, limitados, sujeitos a erros e imprecisões. Tenho várias razões para afirmar isso, mas uma delas já é suficiente para desacreditar qualquer foro que ranqueie cervejas: nenhum, absolutamente nenhum, tem acesso a todas as cervejas do mundo, nem do Brasil, nem do Rio Grande do Sul, nem de São Valentin da Segunda Légua – ok, de São Valentin da Segunda Légua, talvez.

Mas a razão maior é que qualquer degustação está sujeita a subjetividades. Mesmo aquelas degustações em salas brancas silenciosas, feitas por altos profissionais e com fichas técnicas precisas, estão sujeitas à dor de barriga de cada degustador. Se a pessoa transou alegremente na noite anterior ou se descobriu que foi traída; se a sua referência de cervejas vem de uma escola ou de outra; dentre tantos outros fatores. Em suma, pode-se dizer que toda degustação depende do contexto em que é feita.

Se isso é verdade, há um motivo simples pra não tratar um guia como bíblia: as degustações de avaliação nunca são feitas no mesmo contexto em que tu vais beber aquelas cervejas. A solução é simples, não é preciso ignorar notas, concursos, etc., mas procura experimentar alguma cerveja que esteja ao lado das premiadas nas prateleiras – a melhor cerveja do mundo pode estar ao teu lado esperando por ti.

  • Robert Parker

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