CERVEJAS | Caxias do Sul: terra de blues e de cerveja

A antiga estação férrea de Caxias do Sul, na Serra Gaúcha, é um lugar simbólico, talvez o centro gravitacional da história da cidade. Na verdade, desde antes de ser uma cidade. Aquela antiga estação de trem, aonde chegariam os trilhos de trem que conduziram Caxias do Sul a um nível industrial extraordinário, foi construída sobre um antigo cemitério indígena. Índios que foram expulsos da região para a chegada dos imigrantes europeus, vindos para branquear o país. Na segunda guerra, os imigrantes não podiam falar o idioma de seus ancestrais e foi até aí pertinho que o busto de Dante Alighieri – exposto na praça matriz, que leva o seu nome – foi arrastado por ultranacionalistas. É nesse mesmo lugar que ocorre anualmente, desde 2008, o Mississippi Delta Blues Festival (MDBF).

Caxias do Sul é, muitas vezes, mal interpretada por quem lê a cidade através da coluna social. Por exemplo, a pérola das colônias é a cidade que mais tem CTG (Centros de Tradições Gaúchas) em todo estado, no país e no mundo. Na nossa cidade, além da espetacular Igreja de São Pelegrino, tem uma estátua de Ogum numa de suas praças. Segundo o IBGE, quase metade da população residente não nasceu em Caxias. Como toda cidade de imigrantes, essa cidade tem algo de cosmopolita. É, necessariamente, multiétnica e multicultural. É, antes de qualquer coisa, uma cidade de inovações, muito mais do que de tradições – para o bem e para o mal.

Há poucos meses, alguns depoimentos estupidamente racistas abriram uma reportagem no Fantástico. Os maiores músicos do MDBF são negros e ficariam surpresos ao saber do grande racismo que existe na nossa região. Na verdade, parece que aqui se desenvolveu certa fobia, direcionada a diferentes grupos étnicos ao longo de nossa história. Tenho certeza de que eles não entenderiam muito bem por que, justamente neste lugar, tentou-se calar diversas expressões culturais: dos índios, com a europeização; dos próprios descendentes de europeus, na ditadura Vargas; e da comunidade afro, initerruptamente.

Hoje, um dos maiores e melhores eventos culturais da Serra Gaúcha tem o tom e a cadência da cultura musical vinda da África. Há quem não goste muito da ampliação do público para além dos amantes de blues. Eu, como um ignorante musical, posso dizer que me diverti muito nos três dias. Assim como todos os outros não fanáticos, como os fanáticos e como os próprios músicos. O show de Robert “Bilbo” Walker no Front Porch Stage, o palco mais simples e, de longe, o mais animado, foi a melhor expressão do que quero dizer. Todos nós, branquelos, fomos à loucura com Bilbo solando a sua guitarra com uma só mão. Embalados por blues e por cerveja de verdade.

Eram cinco palcos externos (além do palco do Mississippi Delta Bar) e cinco barracas com cervejas de verdade. Tinha até cerveja importada de Santa Catarina, a Coruja. As gaúchas: Abadessa, de Pareci Novo; Prost Bier, de Estrela; Fassbier, produzida em Capela de Santana; cervejas da Guarnieri, de Farroupilha. Da mesma forma que os músicos caxienses deram show nos palcos, as cervejas da cidade também fizeram seu show nos copos do público: a Cervejaria Felsen fez o seu début lançando uma Witbier, Oktoberfest, Pílsen, APA e IPA – começaram bem, muito bem; a Ordeo também estava com a sua própria barraca, hidratando o público do palco principal; e a Schatz Blond estava disponível no estande da SeleziOne Beer Shop, ao lado do Magnolia Stage.

O MDBF 2014 foi um parque de diversões para toda a família (com direito a roda gigante): múltiplos estilos de blues, de várias origens; e grande variedade de cerveja de verdade. Definitivamente, Caxias do Sul não é só vinho, polenta e Festa de Uva.

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