CERVEJAS | Ritos e mitos

Um copo de cerveja descansa sobre um porta-copos com uma frase engraçada: “cerveja, a razão de eu levantar todas as tardes”. Uma ode ao sonho da vida boêmia com certo escárnio à própria realidade dura de cada manhã. Sob o porta-copos, uma mesa metálica da Malt 90 – popularmente conhecida por Malte Nojenta – cuja qualidade fora tão profundamente notória que não sobreviveu à década de 1990. Ao redor da mesa, onze amigos contam histórias dos bons tempos das discotecas e de quando o xis do trailer que ficava naquele lugar era o melhor – na década de oitenta. Na falta da Malte Nojenta, tomam uma outra cerveja qualquer, mas, nas suas memórias saudosas, nenhuma cerveja produzida hoje é melhor que aquela que refrescava os embalos de domingo à noite, depois do futebol.

Ernesto sofreu um acidente de caminhão e não pode mais correr. Desfalcou o Faixa Azul, time sem título algum, mas que fora batizado assim por duas razões: homenagem à cerveja que não tinham condições de pagar à época e pela maior conquista da equipe – carimbar a faixa do campeão municipal de futebol amador de 1979. Com a aposentadoria do Capitão Ernesto, por invalidez, o Faixa azul se transformou numa espécie de confraria saudosista. Reúnem-se para beber cerveja no mesmo local onde comiam xis depois do futebol de domingo, bebendo cerveja barata. Ao contrário das confrarias da gurizada de hoje em dia, eles não querem saber de fazer suas próprias cervejas, nem de experimentar algo novo. Por outro lado, as suas discussões são mais profundas. No último domingo, em frente ao antigo Baita Kão, discutiram 8 ritos e mitos da cerveja:

Baita Kão - Caxias do Sul/RS - 1980

Baita Kão – Caxias do Sul/RS – 1980

 – Cerveja tem que ser servida com espuma

O Ivo não gosta que a sua cerveja seja servida com espuma. “Servia com espuma pra dar ao meu filho, quando tinha oito anos”. Para ele, espuma é para crianças, assim como cerveja preta é para mulheres – malzbier, claro. Na roda, alguém disse que leu em algum lugar que a espuma é obrigatória, para proteger a cerveja da oxidação e manter o gás enquanto se bebe. O Ivo nem olhou pra quem fez o comentário e respondeu: “bebo rápido, não preciso disso”.

– Cerveja dá barriga

Paulo é o mais barrigudo da turma e o que mais bebe cerveja. Por isso, declarou-se especialista na correlação cerveja e barriga. Segundo ele, cerveja não dá barriga, ao contrário, até ajuda a ter barriga tanquinho. Ele leu na semana passada, num portal de notícias. Falou de levedo de cerveja e de um monte de outras coisas que ninguém na mesa entendeu, e terminou dizendo que para não ter barriga, tem que se beber bem menos que ele e decretou: “Já não preciso caçar, uminha por mês com a nega velha tá mais que bom.”

 – Cerveja hidrata

A confraria nasceu das cervejinhas com xis depois do futebol, por isso, é chamada de Confraria da Hidratação. O Bira, que foi à nutricionista com a sua esposa na semana passada, resolveu tirar a dúvida: cerveja hidrata ou não hidrata? Ela citou um estudo espanhol de 2008, feito com corredores, que concluiu que a cerveja hidrata mais que água. Segundo ela, por ter sais, por isso, suco ou uma bebida isotônica hidrata mais que cerveja.

 – Vinho é mais saudável que cerveja

Roberto já teve dois enfartos, fez angioplastia e é um forte candidato a ter uma ponte de safena até o final do mês. Ele não bebe cerveja, só vinho – só tannat e só uruguaio. O Betão viu no Globo Repórter há alguns anos um cardiologista uruguaio receitando vinho para um paciente, tomou a receita para si e não bebe nem água. Os argumentos do seu próprio cardiologista dizendo que a cerveja tem polifenóis e antioxidantes por conta do lúpulo são solenemente ignorados. O próximo grande evento da confraria deve ser o seu velório.

– Cerveja é mais antiga que o vinho

João, atacante do Faixa Azul, mantem a postura de ir sempre para frente, por isso viaja muito. Nas suas últimas férias, foi ao Egito e ficou impressionado com os desenhos nas paredes das pirâmides com faraós bebendo vinho e cerveja. Lá, ele descobriu que a cultura cervejeira é ainda mais antiga que a egípcia e ficou impressionado com a sua riqueza. Os faraós tinham dezenas de estilos de cerveja à sua disposição. Quase apanhou quando perguntou aos seus confrades por que, em pleno século vinte e um, eles continuam bebendo sempre a mesma cerveja todo santo domingo.

– Os alemães tomam cerveja com limão e sal

O Antônio, que tem sobrenome alemão, diz que as cervejas alemãs são melhores, que a seleção alemã é a melhor, que as mulheres alemãs são mais bonitas, que os carros alemães são mais resistentes – resumindo, que a Alemanha é melhor em tudo. Um amigo dele viajou à Europa e disse que os alemães espremem limão na cerveja e botam sal. Ninguém acreditou, mas o paulista achou que faz sentido e disse que em São Paulo se toma cerveja com suco de limão salgado (o bolão, também chamado de cu de burro no Paraná).

– Cerveja não engorda, a espuma é que faz engordar

O Ivo inventou essa quando acabou o assunto na mesa, acrescentando que na espuma não tem álcool, razão de oferecer ao seu filho de 8 anos. Ninguém se deu o trabalho de negar, confirmar, discutir, nem de rir. Silêncio sepulcral – um coletivo para o velório do Betão.

– A Malt 90 era feita com repolho

Uma ofensa dessa ordem à marca de cerveja mais tradicional da confraria causou tanto impacto que nem se podia entender o que cada um dizia. Foi uma gritaria tão grande que a Dona Dirce, a vizinha fofoqueira que fica na janela escutando as conversas, ameaçou chamar a polícia. Todos se calaram com o seu grito e Santiago, ex-goleiro, químico e de fala mansa sentenciou: “Vocês são burros mesmo, repolho não tem açúcar suficiente, não valeria a pena. Eles usam milho ou outra fonte de amido mais barata.”

Já passavam das dez da noite e todos tinham que voltar para casa. Tomaram o último gole da cerveja, puseram as garrafas vazias no isopor, recolheram a sua mesa de sempre e partiram.

  • Baita Kão - Caxias do Sul/RS - 1980

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