VIDA | O carro é o cigarro do século 21?

Já se disse que “o carro é o cigarro do século 21”. Há quem compare os danos à saúde humana e ao meio ambiente provocados pelo automóvel aos malefícios associados ao tabaco – em escala ainda maior. Para esses ativistas de um novo mundo “verde”, o automóvel está com seus dias contados. Mas, será mesmo?

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É verdade que, em São Paulo, por exemplo, os carros despejam 97% do monóxido de carbono que polui a atmosfera, e matam quase cinco mil pessoas por ano. A capital paulista emplaca cerca de 800 novos veículos por dia – contra 500 nascimentos de bebês. E já registrou engarrafamentos de mais de 300 quilômetros. Não se pode imaginar que, a longo – ou mesmo médio – prazo tal situação seja sustentável. Não é. Algo tem de ser feito. Urgentemente. Mas, o quê?

São Paulo estabeleceu o rodízio de carros. Deu certo? Os paulistanos que o digam…Londres instituiu pedágios caríssimos em seu perímetro central. Reduziu em cerca de 20% o tráfego de veículos particulares na região, mas o centro da capital inglesa ainda é uma confusão sobre rodas.

Nova York experimentou há algum tempo transformar a região de Times Square em um boulevard para pedestres, com canteiros de flores e cadeirinhas de praia. Resolveu o problema dos engarrafamentos na área? Claro que não.

Paris criou o sistema Vélib – bicicletas de aluguel espalhadas pela cidade, 24 horas por dia, sete dias por semana. É chique andar de bicicleta em Paris. Mas a bicicleta resolveu a confusão do trânsito parisiense? Tente contornar o Arco do Triunfo às seis da tarde… O Brasil copiou o Vélib, mas com menor sucesso ainda, principalmente pelo alto índice de depredação das bicicletas.

Sei não, mas acho que é meio tarde para a civilização ocidental pretender banir completamente o carro das cidades. Ao contrário do tabaco, o carro pode, sim, ser “domesticado” – mas que ele ainda vai permanecer muito tempo entre nós, não tenho dúvida.

Desde que o homem domesticou o cavalo e experimentou a liberdade proporcionada por um meio de transporte individual, qualquer modalidade de transporte coletivo, por melhor que seja, será sempre uma opção, não a única forma de deslocamento urbano. Ou alguém aí acredita, a sério, que poderemos despachar milhões de automóveis para Marte e, de um dia para o outro, transformar idosos, crianças, obesos, gestantes ou pessoas portadoras de necessidades especiais em ágeis ciclistas?

Ainda acho que a alternativa mais inteligente é buscar uma convivência pacífica com o automóvel. Carros pequenos, leves, elétricos, movidos a hidrogênio, recicláveis, compartilhados por amigos e vizinhos, com restrições para circulação em áreas centrais, podem melhorar bastante a vida nas metrópoles do planeta.

Ao mesmo tempo, é claro que os governos terão de investir muito, mas muito mesmo, em transporte coletivo de qualidade. Porque, do contrário, quem puder comprar o seu carrinho não vai se espremer como sardinha em ônibus e metrôs superlotados e sujos.

Agora, se nada disso contentar os inimigos do automóvel, então eles devem pensar seriamente em trocar as grandes cidades por ilhas paradisíacas ou regiões inacessíveis à roda. E viver a sua utopia regressiva com a mesma frugalidade de nossos ancestrais das cavernas.

Fotos artísticas Eduardo Scaravaglione

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