CRÔNICA | Da arte (ou do porquê o mundo não basta)

CRONICA

Andei um bom bocado por aí e encontrei muita gente – tanta gente que nem lembro mais o nome, gente que nem sei bem de onde vem, gente que eu não reconheceria se cruzasse por mim na rua, gente que não sou capaz sequer de contar. Talvez, nem seja tanta gente assim; pode ser que minha memória não seja muito boa – na verdade, tenho certeza de que minha memória não é tão boa. Apesar disso, posso confiar nela para dizer que nunca, nunquinha mesmo, encontrei alguém que se manifestasse plenamente contente com o mundo como é – nem os amigos budistas escapam de dias de total decepção com o mundo.

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Outra coisa de que não lembro muito bem é de que tanto as pessoas reclamam. Aí, não é pela certeza de nunca ter ouvido, mas falta de capacidade de armazenar tanta informação. Uns reclamam do governo, outros da oposição; uns reclamam que o prefeito de Porto Alegre corta árvores demais, outros que corta de menos; uns reclamam do preço dos importados, outros reclamam da qualidade dos nacionais. Há aqueles que reclamam sempre: do frio e do calor; da chuva ou do sol; da solidão e do ficante; da programação da TV no domingo e da programação durante a semana.

O mundo é como é: pleno, cíclico e em constante mudança; nós, humanos, não somos como somos. Somos muito mais os nossos sonhos, somos extremamente aquilo que havemos de ser; somos tanto quem não somos; somos nossas músicas, nossos filmes preferidos e nossas adegas; somos quem amamos e quem odiamos; somos, mais que qualquer outra coisa, o que nos falta. Essa falta é que faz o mundo parecer às avessas e nos faz acreditar que o mundo seria tão melhor se estivéssemos em outra época, se pudéssemos beber sem ter ressaca, se caminhássemos na chuva sem nos molhar.

A nossa insatisfação é tão grande que esse mundo pleno, absoluto, não nos basta – nem mesmo o céu é suficiente. Então, fazemos qualquer coisa para o nosso mundo ideal seja. Guerreamos, buzinamos, edificamos cidades, destruímos cidades, reproduzimo-nos, amamos sem reprodução, brigamos, trabalhamos, compramos, vendemos, e cansamo-nos – então, reclamamos. Há quem pule diretamente para a parte da reclamação; prefiro aqueles que optam por quase não reclamar: os artistas.

Só a arte pode ir um pouco além e criar algo que relativize a plenitude desse mundo. Músicos, escritores, atores, pintores, cineastas, fotógrafos e todos os outros que não sei citar nos mostram que esse mundo não é tão absoluto. Eles abrem janelas que nos permitem espiar um pouco além dos muros desse mundo imperfeito e que nos ajudam a expiar tanta dureza.

* Pintura: Rafael Dambrós

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