CRÔNICA | Um pequeno Shakespeare que falava ao menino que existe dentro de nós

Ainda envolvida pela emoção provocada pela morte de Roberto Bolaños, minha irmã lembrou das inúmeras vezes em que nos sentamos para assistir Chaves.

Posso estar enganado, mas acho que me lembro da estreia, ou pelo menos das primeiras vezes em que a TVS começou a exibir o seriado por volta de 1984. Entre um período e outro de aulas, quando passava em casa para almoçar, meu pai me chamou para ver o programa novo. Como quase todo mundo que já viu, vejo até hoje.

É mágico, é irresistível. É simples e universal. Aquela vila com seus tipos simplórios, emotivos no nível da caricatura, reflete qualquer bairro pobre de qualquer lugar, principalmente para nós, latino-americanos.

A identificação com os personagens e suas emoções tão humanas, quase rasteiras porque de primeira necessidade, é imediata. Quem não era pobre como o Chaves, conhecia alguém que era. E esse alguém sempre morava em algum lugar ali por perto, não sabíamos onde. E agora descubro que Chavo, o nome do personagem original mexicano, significa “moleque”, como tantos meninos anônimos que não têm onde morar.

Tudo isso bastaria para estabelecer a identificação instantânea com o Brasil, mas isso não é tudo. O que provocava tamanha magia era a qualidade do texto e da interpretação de Bolaños. Mais tarde, descobri que ele era conhecido como Chespirito, “pequeno Shakespeare”, justamente pelo seu talento, um talento comum a muitos redatores, alguns também anônimos, de rádio e televisão, numa tradição herdada do circo que começou no mundo moderno com o inigualável Charlie Chaplin (a insistência no “Ch” inicial de seus personagens pode não ser à toa).

Em Chesperito, porém, esse talento extrapolou. O mais legal é que ele começou a fazer o Chapolin aos 41 anos (o Chaves é um ano mais novo). E fazia questão de lembrar disso às pessoas que diziam não ter oportunidades. “Oportunidades sempre existem”.

E agora percebo que o Chaves ia muito além do que parecia. Essa capacidade de nos encantar, de nos fazer rir mostrando como tudo pode ser mais simples, mesmo em meio às privações, é um dos principais legados desse outro Shakespeare, menor, é claro, mas tão ou mais importante para os meninos que ainda sonham dentro de nós.

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