CULTURA | Um festival afro

Bob Stroger

Trechos de uma escala de acordão. Uma levada de bateria, ainda tímida, vinda do Moon Stage. Trechos de solos de bateria vindas do Front Porch Stage. Um guindaste terminando uma estrutura metálica gigante, com finalidade misteriosa. Camionetes e furgões chegando e estacionando desorganizadamente. Barris de chope chegando sem parar. Gente falando ao celular. Correria. Sol. Rostos cansados e animados. Um baixo começa a dar um ritmo diferente à tarde de quinta-feira. O acordeão para. A bateria passa a acompanhar o baixo e ouve-se um solo de guitarra. As últimas horas antes do início do festival são cheias de tensão, que só começa a se dissipar com a chegada do blues. Parece um circo e foi quase isso.

Nos 12.000 metros quadrados do Mississipi Delta Blues Festival, foram sete palcos. Moon Stage, o palco principal, decorado com uma lua projetada ao fundo e referências ao filme A viagem à lua, Batman e outras de que não me lembro agora, além de uma programação com os principais bluseiros do evento, claro. O Magnolia Stage era dedicado às vozes femininas do blues, destaque para a Zora Young – a mais fofa do festival, segundo a escritora Natalia Borges Polesso – e Lola Delon – com linda voz e presença de palco. O Front Porch Stage é o meu preferido, é o mais simples e o mais simpático, se não precisasse sair de lá para buscar cerveja e whisky, teria passado os três dias lá, sentado nos trilhos.

Zora Young

Zora Young

Havia ainda o Folk Stage, um palco dedicado à música folk, como o nome dize com encerramento do Bando Celta, que anima qualquer público. O Mississipi Stage, com músicos brasileiros de diversos lugares e onde se sente o clima do festival de uma maneira especial, com a interação musical e o ambiente de amizade entre os músicos. Dois outros palcos ajudavam a manter o silêncio longe da antiga estação férrea, enquanto os outros palcos não tinham programação, um deles na praça de alimentação com opções que iam do sushi ao hambúrguer, passando pela divertida opção de culinária típica do sul dos EUA, oferecida pelos Voluntários Sem Fronteiras.

Esse espaço de expressão muito além do blues e mais amplo que a música acontece anualmente em Caxias do Sul e já está na sua oitava edição. De uma maneira ou de outra, há uma forma de participar para quase todo mundo. Quem tem empresas, expõe as suas marcas e divulga os seus produtos. Um número de dança com coreografia desenvolvida pela Cia Municipal de Dança de Caxias do Sul, especialmente para o festival, apresentava dançarinos suspensos por elásticos, transmitindo leveza com o seu número “Feet Off the Ground” – isso explica aquela estrutura misteriosa do primeiro parágrafo. E, para complementar, na plataforma da antiga estação, o Blues Art Station, um espaço dedicado às artes plásticas, com curadoria da caxiense Mona Carvalho.

Mas o que mais me chamou a atenção e me tocou de maneira especial, foi uma apresentação no meio do público. Se blues é música afro-americana, tivemos senegaleses, há pouco imigrados em Caxias do Sul, com seus tambores, trazendo um ritmo especial da África. A quem não conhece ou aos próprios caxienses, não canso de repetir, a Pérola da Colônias é terra de diversidade, basta olhar um pouco para fora das janelas das galeterias.

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