CUTELARIA | O brasileiro que encanta a realeza árabe

Caros leitores do portal As Boas Coisas da Vida, como temos feito desde 2014, convido-os a se entregarem a esta leitura sobre artistas brasileiros que vivem de arte afiada, ou seja, cuteleiros, que resgataram esta arte milenar, indispensável à humanidade, mesmo em tempos de tanta tecnologia.

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Sim, indispensável! Ou você conhece alguém que passe 24 horas sem usar uma faca, mesmo que seja para passar manteiga no pão ou aproximar o alimento do prato?Observem que não falamos em carne, certo?

Pois bem, neste episódio de nossa saga afiada com arte, convido-os a conhecerem a trajetória deste estupendo artista e maravilhoso ser humano, filho e neto de artista.

Nascido em 1978, filho do escultor e professor de Artes na Universidade Federal do Espírito Santo, José Carlos Vilar de Araujo, e da professora Vera Lucia Colodetti, nosso artista Gustavo Colodetti Vilar se criou no meio da arte, vendo as exposições do pai, fazendo cursos de ourivesaria no verão, curtindo a praia, aprendendo a restaurar barcos, fazendo joias e curtindo a vida.

Mas sendo neto de um ex-cangaceiro, contemporâneo de Lampião, e de um ferreiro, as facas estavam no sangue do menino Gustavo. Então, movido pela curiosidade, nosso artista foi buscar conhecimento. Entre 1998 e 1999 Gustavo fez seu primeiro curso de cutelaria, tendo noções, de desbaste para fazer sua primeira faca. Depois, usando a bigorna do avô ferreiro, que o acompanha até hoje, como um talismã, as primeiras “crias” começam a surgir.

Em 2001, uma grande emoção: expôs com seu idolo e pai na Expo “A Ferro e Fogo”. Seu pai entrou com as esculturas e Gustavo expôs suas facas. O interesse pelas lâminas recheadas de arte só crescia, e no ano seguinte lá se foi o “Capixa”, como era chamado, expor no extinto São Paulo Knife Show – um dos primeiros eventos afiados do Brasil.

Ali conheceu Roberto Gaeta, o primeiro grande cuteleiro brasileiro, Rodrigo Sfreddo, hoje um dos maiores cuteleiros do planeta, o JS Luciano Dorneles, os manos Lalas, Jacinto Ricardo Romano, Jacinto de Melo e outras feras afiadas do Brasil. E ali decidiu que este seria seu futuro!

Não apenas facas, mas arte afiada! Nem poderia ser diferente, por conta da genética, não é? Assim, em 2002, veio com uma mochila para Nova Petrópolis, onde moram os mestres Sfreddo e Dorneles, que nesta época dividiam casa e oficina na linda cidade da Serra Gaúcha, de colonização alemã.

Em Nova Petrópolis, começou a desvendar os mistérios da forja, das facas integrais, um desafio encantador. E voltou para o Espírito Santo como um novo artista, forjador, obstinado por agregar arte ao seu trabalho.

E ai veio o desejo de criar damascos, o grande desafio do cuteleiro, a demonstração de arte, onde o cuteleiro apresenta padrões e nuances, fundindo dois aços, sendo um rico em níquel e criando um terceiro, único, com “desenhos” exclusivos em cada faca. E os criados por G. Vilar são do tipo que encanta, pura arte afiada!

O artista Nelson Felix foi outro que foi cativado pela arte de G. Vilar. O MS (Master Smith, titulo dado pela entidade cuteleira dos EUA) Jerry Fisk o conheceu e o incentivou a fazer o teste de Journey Smith, uma láurea dada aos artistas de reconhecido talento. E nosso amigo, cheio de sonhos e confiante em seu trabalho, se foi aos EUA, sem falar inglês, com mochila, facas, cara e coragem.

Seu teste de dobre e corte foi algo inédito, superando quase tudo que foi visto na ABS (American Blade Society).Porém no segundo teste, o definitivo, o voo atrasou e Gustavo foi punido com a perda do titulo de Journey Smith, o JS.

Gustavo pensou, pensou e concluiu: não deu, então não é pra mim. Mas em 2009 foi procurado por representantes da família real de Abu Dhabi, abaixo apenas de Alá no mundo árabe no quesito respeito. Gustavo foi contratado para ser o cuteleiro oficial da realeza, produzindo arte afiada, facas, espadas, adagas e canivetes que são quase 100% presenteados a outros potentados e chefes de estado que visitam o pais.

A oficina foi planejada por ele, climatizada para amenizar o calor desértico da linda Abu Dhabi, com seus arranha céus e riquezas. Com ele foram a esposa Vera Lucia e os filhos Iris, de 13 anos, e o quase árabe Artur, de 4, plenamente integrados ao arabian way of life, curtindo a linda praia do golfo pérsico na folga semanal, partilhando refeições com amigos e crescendo felizes.

Anualmente expõe suas obras na Feira de Caça e Equitação, importante evento do mundo árabe. Seus empregadores são fascinados por seu trabalho, absorvendo toda a sua produção e sempre incentivando-o a busca por arte, materiais e ferramentas de ponta, numa busca permanente por arte afiada impar.

Em agosto, virá ao Brasil para participar do IV F.A.C.A.S (Feira Anual de Cutelaria Artesanal), de Sorocaba, nos dias 01 e 02. Oportunidade rara de rever este amigo e grande artista!

Até a próxima aventura. E não esqueça: após o uso, lave sua faca de aço carbono com a parte macia da esponja, seque, e, se possível, aplique óleo mineral. Corte carne e vegetais sobre tábua de corte ou de madeira, nunca de vidro, evitando cortar sobre pias de aço, atrito em espetos e pratos de cerâmica, assadeiras de metal, etc. Assim sua faca durará gerações.

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