CUTELARIA | Roberto Gaeta: um pioneiro

Queridos amigos e leitores amantes da boa cutelaria artesanal, mais uma vez os convido à uma aventura afiada.

Depois de falarmos dos grandes expoentes contemporâneos, de homenagear a mulher e de apresentar um hermano, é dada a hora de entender como chegamos a este momento no mercado afiado, no qual temos agora: três artistas entre os melhores do mundo (um gaúcho e dois paulistas) na categoria MS (Master Smith) e outros vários na categoria Journeyman Smith.

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Cuteleiros brasileiros têm encantado o mundo com a sua arte afiada. Mas como isso começou? Quem abriu o caminho entre as pedras para os seguintes trilharem esta trilha de sucesso? Vou te contar agora! Vem comigo?

Roberto Gaeta nasceu em São Paulo, em 15 de janeiro de 1936.

O menino Roberto gostava de caçar, de pescar, de carros que via nas agências e revistas da época. De 1957 até 1987, atuou profissionalmente como dono de uma oficina mecânica. Na metade dos anos 60, Roberto começa a fazer suas facas. Ao longo de sua caminhada, as facas o tornaram conhecido mundo afora, amigo e referência de grandes cuteleiros internacionais, mesmo depois entregar a derradeira faca, há 16 anos.

Na oficina, usando rebolo, esmeril e lima, as primeiras facas foram nascendo e sendo presenteadas aos amigos. Sortudos, não? Bob, sou seu amigo, viu?

Na metade dos anos 70, em viagem aos EUA, percebeu que os cuteleiros profissionais timbravam as suas facas. Então adotou o procedimento, criando sua primeira marca e a faca inicial virou presente ao amigo Folger!

Amigos como o lendário Bob Loveless, na época um iniciante, o conduziram a usar materiais desconhecidos no Brasil, como aços inox, 440C, chifres selecionados de cervo, impala, antílope, micarta, peles exóticas para confeccionar bainhas, níquel, bem como polidores e ferramentas, o que o distanciou muito dos demais artistas nacionais.

Seu sucesso nos EUA foi tão intenso que, até 1983, a maior parte de suas obras eram vendidas fora do Brasil. Naquela época, as facas eram coadjuvantes nos Gun Shows americanos, expostas como um acessório.

No inicio dos anos 80, o filme “Rambo” o inspirou a criar uma faca no mesmo estilo, seu modelo Águia. Foi tamanho o sucesso de pedidos, que é considerada por muitos a mais funcional entre todas as criadas. As grandes bowies, ícones norte-americanas, também o representam.

Em 1974, o querido amigo Laercio Gazinhato trouxe dos EUA uma Bowie Smith & Wesson e lhe encomendou uma releitura. E o gosto pelas bowies tomou conta de nosso Bob!

Esta peça o inspirou a criar a Bowie Wilkinson, uma das mais lindas facas já executadas no Brasil. Somente deste modelo, foram mais de 20 confeccionadas.

Nosso Papa se contentou com isso? Claro que não!

Seu estilo de trabalho predominante era o desbaste ou stock removal, no qual não ocorre o forjamento. No entanto, o primeiro damasco feito no Brasil é de sua autoria, obtido pelo método de forjamento, a partir de dois aços, criando um terceiro, lindo e único.

Foram 5 ou 6 peças com as lâminas em damasco, que marcam a apresentação deste aço, hoje febre em todas as feiras de cutelaria, seja no Brasil ou no exterior.

A primeira peça não o agradou. Já a segunda recebeu dicas preciosas do amigo Schweitzer, resolvendo problemas de caldeamento, ou seja, a união ou fusão entre dois aços carbono, o que “enferruja”, na linguagem popular.

A partir de 1987, tornou-se cuteleiro full time com grande sucesso e peças disputadas por colecionadores dos 4 cantos do mundo. Sabemos de colecionadores com 50 facas de sua marca na prateleira.

A partir de 1985, passa a usar sua mais famosa marca, a triangular, com as 2 águias, desejadas por qualquer colecionador de bom senso e gosto. Foi presença marcante nos Blade Shows dos EUA entre 1985 e 1995 com imenso sucesso.

Matérias com nosso “Papa” foram destaque em vários jornais, revistas como Veja, 4 Rodas, Playboy e, também, bons livros editados sobre o tema. Durante a carreira, dois queridos amigos foram seus ajudantes e merecem o crédito. Manoel e Hermógenes, muito obrigado!

E assim, até o ano de 2002, suas peças podiam ser encomendadas para ele mesmo. A partir de 2002, dedica-se a sua franquia de agência dos correios na Vila Inah em São Paulo/SP.

Sua presença é muito aguardada em eventos de cutelaria, em especial no Salão Paulista de Cutelaria, onde o prêmio aos vencedores das várias categorias leva seu nome e, também, onde tenho o prazer de ser o Mestre de Cerimonias.

Os novos cuteleiros anseiam por sua visita em suas mesas para receber sugestões, críticas e elogios com avidez. Rara oportunidade!

Privo de sua amizade há algumas décadas, o que é motivo de orgulho e desta singela homenagem a este espetacular artista muito à frente de seu tempo, que segue sendo objeto de desejo de colecionadores que garimpam suas obras mundo afora.

Ele também é o marido da dona Kazuko, pai de Luiz e Karla e, além disso, vovô de Mariana, Tatiana e Sofia.

Roberto Gaeta (esq), Roberto Vianna e Laercio Gazinhato

Roberto Gaeta (esq), Roberto Vianna e Laercio Gazinhato

Agradeço aos colecionadores que enviaram fotos de suas peças, ao próprio Gaeta pela entrevista concedida, ao amigo Laercio Gazinhato, que me muniu de dados, e ao portal “As Boas Coisas da Vida“, que sempre prestigia estas linhas afiadas.

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