DIA DA MULHER | Moscatel e vinho rosé não me representam

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O mundo do vinho é machista e dominado por homens. São poucas as mulheres que se aventuram neste meio. As que tentam, precisam ter força e muito estômago para ouvir piadinhas maldosas e raivosas.

Cheguei até aqui meio sem querer, quase por tabela. Não bebia vinho, não tinha a mínima noção da diferença entre chardonnay e pinot noir. Por insistência de um amigo e colega de trabalho, homem, porém sensível ao mundo feminino, Irineu Guarnier Filho, me apaixonei pelo vinho. Foi um caminho sem volta. E de cara me perguntei: onde estão as mulheres do mundo do vinho? A resposta viria tempos depois, sentida na própria pele.

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Desde as primeiras taças em degustações, já se passaram quatro anos. Fiz vários cursos sobre vinhos no Brasil e um em Paris, na minha última viagem. Me formei sommelière pela Associação Brasileira de Sommeliers, viajei por quase todas as regiões vinícolas brasileiras – além da Argentina, Uruguai e França -, acumulo livros e revistas sobre o assunto, além de muitos rótulos degustados.

Minha paixão e conhecimento sobre vinhos me levou a ser convidada como jurada de dois importantes concursos – Concurso do Espumante Brasileiro e Brazil Wine Challange. Recebi convites para visitar dezenas de vinícolas e foi indicada como a única finalista brasileira de um importante concurso internacional de conteúdo digital sobre vinhos – Born Digital Awards, promovido pelo Wine in Moderation, na Europa.

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Mesmo assim, sempre ouvi comentários sobre minha capacidade. Homens que, incomodados com a presença feminina, diminuíam as mulheres que buscavam um espaço neste círculo. Depois de participar de um desses concursos cheguei a ouvir de um colega “mas porque eles te escolheram como jurada?”. Outros homens também se mostraram desconfortáveis por eu ter sido escolhida. Num destes concursos, por exemplo, dos 58 jurados, apenas 13 eram mulheres. Em alguns momentos me senti preenchendo cotas.

Para mostrar que era capaz, redobrei as horas de estudo e passei a me defender. Da observação das minhas amigas – sempre apavoradas na hora de escolher um vinho – surgiu um curso voltado exclusivamente para mulheres. Vi muitas delas entrarem na minha casa acanhadas, se desculpando “eu não entendo nada de vinho” e saindo, ao final do curso, confiantes, prontas para pegar a carta na próxima ida ao restaurante. Presenciei a alegria delas ao ouvir que eram capaz de escolher o vinho e sugerir uma harmonização sem medo. Algo tão simples, mas com um significado tão profundo. Ouvi da jornalista Carol Anchieta e passei a repetir: “o empoderamento passa pelo vinho“.

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Nos descrevem sempre como seres sensíveis, delicados, quase infantis. Como sobreviveríamos a tudo isso com tanta fragilidade? Primeiro dizemos ao mundo, “sim, somos mulheres e bebemos”. Depois, lutamos ao tentar passar pelo mar masculino que cerca o vinho. No restaurante, quantos garçons entregam a carta de vinhos para as mulheres? Não somos frágeis. Não gostamos apenas de vinho docinho e moscatel. Vinho rosé não nos representa. Não nos encantamos apenas com espumantes. Não precisamos que ninguém escolha nosso vinho.

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