DRINKS | Quatro pubs para curtir como um londrino nativo

pub londrino 08

Tem uma coisa que eu tento evitar em viagens: aqueles lugares apinhados de turistas e que todo mundo indica. Exceto os clássicos, é claro. Não é arrogância, não é desprezo pelos roteiros turísticos tradicionais. Mas penso que a gente precisa viver um pouco da realidade local para aprender e aproveitar mais. Eu, que sou apenas uma apreciadora e não uma expert d’As Boas Coisas da Vida, valorizo essas oportunidades.

Foi assim que eu e meu pai decidimos, na última viagem a Londres (Inglaterra), que iríamos a pelo menos um pub por dia indicado por nativos. Eram férias enogastronômicas, mas, na capital do mundo, as cervejas teriam um certo protagonismo, pois depois encararíamos Borgonha (França) e Toscana (Itália), em plena época da vindima.

E nossa pesquisa começou no voo Lisboa-Londres. O Mr. Cristopher Foy, um simpático inglês de sessenta e poucos anos, grande, de bochechas vermelhas e apaixonado pelo Brasil, decidiu puxar conversa. Sim, foi ele quem puxou conversa conosco, o que já me deixou bem à vontade para iniciar o interrogatório sobre os pubs. Casado com uma portuguesa e dono de uma vinícola na região do Douro (Portugal), ele confessou ser um grande apreciador de cervejas, desde que sua esposa não soubesse. Ok! No que depender de nós a Dona Maria da Assunção jamais sonhará com isso, a menos que nos leia.

The Scarsdale Tavern (fotos: Melina Fernandes)

The Scarsdale Tavern (fotos: Melina Fernandes)

Começou indicando um local próximo ao nosso hotel, em Kensington. O The Scarsdale Tavern é, simplesmente, o melhor pub que visitei. A taverna está numa localização considerada reduto francês no século XIX e onde Louis Changeur construiu alojamentos para soldados que lutariam, caso Napoleão invadisse a capital inglesa. Frequentado especialmente por moradores da vizinhança, fica numa das ruas tranquilas da Edwardes Square e o atendimento é muito bom, levando em consideração que você não será atendido na mesa em 99,9% dos pubs londrinos.

Saboreie um dos pratos indicados no grande quadro-negro na parede à esquerda da porta de entrada e peça para o garçon indicar uma cerveja para harmonizar. Aqui cabe interromper a história para explicar a medida deles para cerveja. Os ingleses servem o “pint” (pronuncia-se páint), um copo de 568 ml. Se quiseres menos deves pedir half-pint ou third-pint (meio ou um terço do copo).

Continuando então, na primeira vez que fomos ao The Scarsdale já tínhamos jantado e apenas experimentamos duas cervejas. Eu bebi a London Pride, uma ale clássica da cidade. O pai foi de Frontier, lager e cítrica. Adorei mais a escolha dele do que a minha! Bom, aí descobrimos que nosso favorito faz parte de uma grande rede cervejeira, a Fuller”s, que mantém mais de 400 pubs na Inglaterra. Ok! Nem tão exclusivo assim, mas típico e charmoso.

Porque nem só de cerveja vivem os londrinos... e nós

Porque nem só de cerveja vivem os londrinos… e nós

Decidimos que na noite anterior à nossa partida iríamos jantar lá. E voltamos! Eu pedi um torteloni de porcini e alho, com tomates, manjericão, espinafre e parmesão curado. O pai comeu um salmão assado no papel alumínio com legumes e batatas coradas. Desta vez, harmonizado com vinho, porque não aguentávamos mais beber tanta cerveja. Pedimos um pinot grigio San Valentino. Mas, para não deixar nosso “boteco oficial da família em Londres” sem uma saideira, decidimos experimentar a ceva premiada da casa: uma ale chamada ESB (Extra Special Beer).

Já vi que estou redigindo um tratado, mas vale ir adiante. Afinal, uma das melhores partes de uma viagem é planejá-la.

Bom, o segundo achado foi dica da recepcionista do hotel. Era noite de jogo de futebol pelo campeonato inglês e ela disse para andarmos pelo bairro e entrar naquele que mais tivesse torcedores assistindo à partida. Feito! The Earls Court Tavern estava lotada de londrinos vidrados nos telões e nunca com os copos vazios. A surpresa: saladas deliciosas no cardápio (eu tinha exagerado muito naquele dia) e porções generosas, suficientes para duas pessoas. Nós não sabíamos, pedimos um prato cada e exageramos de novo. Eu bebi uma lager Portobello, também de uma cervejaria de Londres, e o pai pediu a indicação da casa, que foi a 1730, Taylor Walker (rede da qual o pub faz parte).

The Earls Court Tavern

The Earls Court Tavern

Voltando um pouco no tempo, quando fui a Londres com a minha mãe, nosso foco foram pubs antigos, aqueles que nos fizessem experimentar um pouco da atmosfera britânica nos séculos passados. No passeio a Greenwich, escolhemos um com vista para o Tâmisa, que também foi comprado pela rede Taylor Walker. No local, apesar da data de fundação constar 1927, dizem que a taverna funciona desde o século XVI. Foi no The Yacht que experimentei sausage and mash, o tradicional purê de batatas com linguiça. Não lembro que cervejas bebemos, mas eu sempre peço a dica de quem estiver me atendendo ou de algum nativo.

The Yacht

The Yacht

Outro lugar interessante é o The Flask, em Hampstead, um bar charmoso e delícia de caminhar. Em atividade há mais de 200 anos, mantém mobília, obras de arte e clima da era Vitoriana muito bem preservados. Freqüentado pela vizinhança do bairro, difícil escutar qualquer palavra que não seja em inglês bem carregado. Os clientes dizem que o local foi e ainda é ponto de encontro de escritores e intelectuais. Teriam passado pelas mesas de lá Charles Dickens, Arthur Conan Doyle e Mark Twain.

The Flask: ponto de encontro de

The Flask: ponto de encontro de escritores e intelectuais

Uma indicação do Mr. Foy que não tivemos tempo de ir foi o The Horseshoe, em Clerkenwell. Não tem site, mas no Google é possível ver a localização. Outra dica é curtir o fim de tarde no terraço de um dos pubs do Convent Garden e conferir, de camarote, as apresentações de artistas de rua.

A ideia era indicar aqueles locais fora do roteiro turístico. Mas, para quem prefere badalação, eu não poderia deixar de fora o Waxy O’Connor’s. Com 6 andares e 4 pubs diferentes interligados, o estabelecimento é um labirinto que te dá a sensação de estar dentro de uma árvore. A decoração é, no mínimo, inusitada. O público é top, se quiseres ver gente bonita e paquerar. Porém, o atendimento deixa a desejar. Às 18h30, em pleno verão, estavam com a cozinha fechada nos 4 espaços. No balcão, sofri para conseguir atenção do atendente, que não me enxergava no meio daquela galera com estatura acima de 1,70m.

Atravessamos a rua e fomos jantar em outro pub,que não lembro o nome e nem fiz foto porque estava com muita fome. Aliás, sugiro justamente isso: experimentar. Caminhe, entre naquele que te atrair e que fizer te sentires à vontade. Londres oferece pubs para todos os gostos. Cheers!!!

Melina Fernandes e o pai, seu companheiro de viagem

Melina Fernandes e o pai, seu companheiro de viagem

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