F1 | Entre a beleza e a velocidade

Ferrari futurista

A Fórmula 1 não é a principal categoria do automobilismo mundial por ter os carros mais bonitos, mas por ter os carros mais velozes e os melhores pilotos. Pilotos mais audazes são encontrados por todos os lados, até na Fórmula Indy. Aliás, pilotos audazes acabam assumindo o papel de ridículo. Os mais ridículos, digo, audazes costumam ser os japoneses: Katayama e Kobayashi são ícones do desastre. Há de se admitir que os latino-americanos estão fazendo um esforço e tanto: Maldonado e Perez fazem cada uma que poderiam pilotar na Fórmula Circo.

Por falar em pilotos audazes, o maior ícone da década de 1980 foi Nigel Mansell, il leone. O red five fazia manobras espetaculares, lutava contra cada curva como se fosse a última de sua vida, arriscando tudo, mesmo quando não fazia o menor sentido arriscar. Não é por nada que perdeu três títulos mundiais – um para Alain Prost, outro para Nelson Piquet e o último para Ayrton Senna. O tri-vice-campeão perdeu, não foram os rivais que ganharam. Perdeu, porque errava feio, errava rude. Perdeu as três vezes tendo o melhor carro. Até que chegou 1992.

Em 1992 a Williams-Renault tinha carros tão melhores que os adversários, mas tão melhores, que até Nigel Mansell conseguiu ser campeão – e, de quebra, o medíocre Ricardo Patrese levou o vice. Com o motor mais potente, com a aerodinâmica perfeita de Adrian Newey, cambio semiautomático, controle de tração, freios ABS e suspensão ativa, os carros da escuderia inglesa eram2 segundos mais rápidos que qualquer oponente. Não dava para se admitir que o campeão do mundo fosse um cabeça oca como Mansell, então, durante 1993, mudaram-se as regras para restringir o uso de auxílios eletrônicos.

Não foi a primeira vez que isso aconteceu na Fórmula 1. Sempre houve regras para frear o avanço tecnológico: na década de 1970, a proibição do carro ventilador; no início de 1980, a do carro asa; no final, o fim da era turbo. Há três razões principais para impedir o avanço desmesurado dos monopostos. O argumento mais concreto é a contenção de custos: quanto mais tecnologia, mais custos; quanto mais custos, mais difícil manter uma equipe de F1; quanto mais difícil de se manter uma equipe F1, menos equipes de F1. Outro argumento válido é a segurança dos pilotos. Mas o que mais importa, aqui, é o terceiro.

A tecnologia não pode evoluir em todo o seu potencial, para evitar que as máquinas sejam mais importantes que as pessoas. Os circuitos ao redor do mundo são como arenas modernas, assim como os romanos não se divertiriam vendo um gladiador fracote matar outro com um tiro de revólver, nós não queremos ver imbecis como o Mansell ganharem de monstros como Senna e Schumacher (como aconteceu em 1992). Acontece que a tecnologia é como um vazamento de água, a gente tapa num lado, ele aparece no outro. Cortaram-se os eletrônicos, evoluiu a aerodinâmica. Cortou-se a aerodinâmica, mais aerodinâmica ainda. E eis que chegamos à década de 2010 – a década dos carros mais feios da história da Fórmula 1.

Até as baratinhas da década de 1950 eram mais bonitas. Até o Tyrrel de 6 rodas tinha mais charme que esses monstrengo de hoje em dia. O Hamilton disse no ano passado que carros vistosos são velozes. Eis o meu problema com os carros de hoje: são lentos demais. Por exemplo, a pole position de Hamilton no GP de Monza de 2014 foi 3 segundos mais lenta que a de Barrichello em 2003. Nós, fãs de Fórmula 1 gostamos de velocidade. O problema não é os carros estarem mais feios e mais silenciosos, o problema é que eles estão mais feios e mais silenciosos para ficarem mais lentos!

Nesse carnaval, a Ferrari apareceu com um design futurista, afirmando que seria necessário mudar poucas das atuais regras. Na boa, não me interessa uma Ferrari mais bonita. Quero ver carros mais velozes e mais competição entre as equipes. Se for para imaginar algo, que seja o que a Red Bull fez em 2011 para o game GranTurismo 6: um protótipo do que seria um F1 sem qualquer regra limitando o seu desenvolvimento, o X1. Na simulação, Vettel completou a sua melhor volta 20 segundos mais rápido que o recorde de Schumacher em Nüburing.

O X1 é mais bonito que a simulação da Ferrari e, certamente, muito mais veloz. E é isso que importa. Afinal, se beleza fosse mais importante que velocidade, deveriam tirar os títulos de Lauda, de Prost e de Fittipaldi.

  • Ferrari futurista
  • Red Bull X1
  • Lauda vencedor
  • Mansell perdendo em 1991

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