FLIP | A Festa Literária de Paraty

Por que você escreve? Tem coisa que só sai da gente por escrito. Tatuei um dia antes de embarcar para Flip. Era dia do escritor. A frase é uma lembrança na pele e na alma. No segundo ano na Festa Literária de Paraty vi muito autor tentar responder essa pergunta. Nem todos tinham uma resposta na ponta da língua. Egoísmo, vontade de ser eterno, inquietação e dever foram algumas das respostas. Andei por lá com os olhos marejados muitas vezes. É muito lindo, para quem escreve ou lê, ver uma cidade transbordar palavras. Durante cinco dias tudo é livro. Tudo é literatura. Nem sempre é ficção.

O telão de onde o público podia acompanhar os debates do palco principal

O telão de onde o público podia acompanhar os debates do palco principal

A praça voltou a ser o espaço de encontro. Uniu moradores e visitantes nas discussões e ideias de Lima Barreto, o homenageado. Num programa costurado, amarrado nas questões que fervilham nas conversas dos bares, das universidades e das praças brasileiras. Tão atual e tão presente Lima foi tema até nas mesas em que não era o assunto central. Viam-se mulheres, vozes negras, crianças e índios. Todos em prol da escrita. Das dores do mundo.

Esse ano, a Flip prometeu mudanças. Prometeu uma festa plural. Para as minorias. Com autores menos conhecidos, fora dos padrões comerciais. Cumpriu lindamente. Reuniu 23 mulheres, ante aos 22 homens convidados. Os negros representaram 30%. Diferente do ano passado, quando senti os autores mais descolados das questões atuais do pais, na feira de 2017 não teve uma mesa em que os problemas políticos e financeiros do Brasil não estivessem em discussão. Autores brasileiros e estrangeiros se revezaram nas críticas. Não era pra menos. A escolha do homenageado já mostrava que esta seria uma Flip diferente.

Lima das ruas. Lima contra a corrupção. Lima das minorias. “Ele (Lima Barreto) dá voz aos excluídos e escreve para uma cidade que ama. Escreve pro agora. E mantem viva essa história. A crônica de Lima Barreto surge muito vinculada ao dia-a-dia da cidade. Se a crônica, nos dias de hoje, quiser sobreviver, ela precisa conversar com a cidade e seu dia-a-dia”, disse a escritora e pesquisadora da história de Lima Barreto, Beatriz Resende.

Igreja da Matriz Nossa Senhora dos Remédios

Igreja da Matriz Nossa Senhora dos Remédios

Uma Flip de dentro da Igreja. A estrutura principal, onde aconteciam as mesas, foi montada dentro da Igreja da Matriz Nossa Senhora dos Remédios. Passaram por lá Débora Levy, William Finnegam, Diamela Eltit, Conceição Evaristo, Lilia Moritz, Lázaro Ramos, Marlon James, Pilar Del Rio, Beatriz Resende, Luiz Antonio Simas, Edimilson de Almeida Pereira, Filipe Botelho Corrêa, Sjón, Alberto Musa e Paul Beatty, para citar alguns. Muitos autores riam ao inusitado fato de , pela primeira vez, terem bebido cachaça dentro da igreja. A bebida típica de Paraty está em quase todos os comércios à disposição dos turistas para degustação. É impossível sair de lá sem provar, ao menos, 10 estilos (é isso mesmo!) diferentes da cachaça de alambique.

só algumas...

só algumas…

Mesmo à noite a Flipinha se mantinha à mil

Mesmo à noite a Flipinha se mantinha à mil

De frente à igreja, no meio da praça, está a Flipinha. O “Pés de Livros” chamaram a atenção de crianças e adultos. Livros e mais livros pingavam das árvores como chuva de verão. Bem abaixo dos galhos, confortáveis tapetes cobertos por almofadas recebiam leitores atentos. Quem ainda não tinha intimidade com a leitura contava com a ajuda mediadores. Vi uma criançada vidrada, como se não houvesse mundo ao redor. Submersa no livro.

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Visitar a Flip é fazer um passeio ao passado. As ruas cobertas por um calçamento chamado “Pé de Molete”, foram construídas no século 18 por escravos. As pedras irregulares evitaram, naquela época, que as tropas de mulas carregadas de ouro ou café atolassem nos dias de chuva ou levantassem poeira nos dias de sol. Hoje, o Centro Histórico formado pelo casario com estilo português guardam símbolos da influência maçônica na construção da cidade.

Das sessões de livros aos bares. Calor e uma cervejinha (ou cachaça) para curtir o dia (ou a noite)

Das sessões de livros aos bares. Calor e uma cervejinha (ou cachaça) para curtir o dia (ou a noite)

Os 33 quarteirões, as ruas levemente entortadas, algumas esquinas com três pilares de pedra lavrada e as casas pintadas em branco e azul são referências comprovadas da presença da fraternal sociedade.

Cansados? Não, felizes!

Cansados? Não, felizes!

Caminhando por lá, fomos em busca da programação paralela da feira. Em outros anos, as editoras tinham casas onde recebiam autores para conversas e sessões de autógrafo, mas desta vez, poucas delas, e poderia dizer bem poucas mesmo, estavam por lá, numa casa e com programação própria. A falta de incentivo financeiro afastou muita gente e minguou a programação extra-oficial. Quem manteve fez como resistência e muitos tiraram dinheiro do bolso para manter a programação. O que não tirou o brilho nem a força de quem quer viver de literatura nesse país.

A primeira foto da Flip, no primeiro minuto que pisei nesse lugar mágico

A primeira selfie da Flip, no primeiro minuto que pisei nesse lugar mágico

Vida longa à Flip. E que, ao menos uma vez na vida, todo brasileiro dedique uma semana da sua vida para ir até Paraty ver de perto esta festa. Vale cada centavo investido e cada relaxante muscular que tivemos que tomar para aguentar as longas caminhadas nestas pedras irregulares. 😉 Ano que vem estaremos lá, de novo!

  • A primeira foto da Flip, no primeiro minuto que pisei nesse lugar mágico
  • O telão de onde o público podia acompanhar os debates do palco principal
  • Cansados? Não, felizes!
  • Paraty <3
  • Ah, essa vista <3
  • Mesmo à noite a Flipinha se mantinha à mil
  • Flipinha
  • Leitores por todos os cantos <3
  • Das sessões de livros aos bares. Calor e uma cervejinha (ou cachaça) para curtir o dia (ou a noite)
  • e mais cachaças....
  • Teve sessão de fotos <3
  • Teve vinho, teve muuuita comilança
  • <3
  • Winetruck

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