GASTRÔ | Almoço e janta by Jamie Oliver

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Sempre que assisto aos programas do Jamie Oliver eu salivo. Sim, literalmente, salivo! Não consigo não ficar imaginando os aromas e sabores daqueles pratos. Ele cozinha de um jeito simples, com ingredientes regionais, da horta. E os combina de uma forma que surpreende. Aguça minha curiosidade.

Nas últimas férias, eu e o pai passamos quase uma semana em Londres, Inglaterra. Uma das metas (tenho metas em viagens, não me julguem!) era ir a um de seus restaurantes e experimentar os pratos criados por ele.

O professor de tênis do pai nos indicou o Fifteen, unidade do programa de aprendizagem para jovens em situação de vulnerabilidade e que tenham sido presos, que é mantido pelo Jamie. Melhor, ele que ensina essa gurizada a cozinhar. Entrei no site e tinha que reservar. Sem vagas para o período que estaríamos lá. Paciência! Tínhamos que ir em outro.

Num dia em que estávamos mais livres, fomos passear no mercado de Covent Garden. Passava um pouco da hora do almoço e vi a cantina na área central, da rede Union Jacks. Ao lado escrito by Jamie Oliver. Entrei no google e descobri que ele comprou quatro restaurantes da rede, fechou três e concentrou as atividades neste. Boa oportunidade de cumprir a meta. Não tinha fila, logo nos passaram numa mesa.

Jamie Oliver

Jamie Oliver no Covent Garden

Decidimos que não beberíamos tão cedo, então eu pedi um chá gelado e meu pai uma água. Vamos aos pratos! Eu pedi um cordeiro assado, que vinha acompanhado de um purê de uma raiz, semelhante ao nabo, mas muito suave, abobrinha italiana e salada de ervilhas, rabanete, agrião e hortelã. A combinação de sabores foi surpreendente.

Cordeiro assado

Eis o prato! (fotos: Melina Fernandes)

O pai pediu um salmão grelhado com ervas e molho de limão acompanhado de salada verde. Desta vez, sem sobremesa. Tomamos um café da manhã reforçado e não estávamos com muita fome. Valor pago foi de lanche: 15 pounds por cabeça (cerca de 85 reais).

Só que não foi bem como queríamos uma refeição by Jamie. A meta era escolher o restaurante, sentar para comer com calma, todas as etapas, beber um vinho. Então, um dia antes de partir, decidimos ir até o Fifteen para jantar. Assim, sem reserva.

(E aqui uma pausa no assunto principal porque eu preciso confessar uma coisa: eu tenho muita sorte em viagens. Por isso, mesmo quando é para dar errado, eu insisto… e dá certo. Por exemplo, em 2008, eu e a mãe tínhamos decidido que conheceríamos o Teatro alla Scala, em Milão, e pagaríamos para fazer a visita guiada. Todas os ingressos esgotados e, outro porém, que iríamos em temporada de um festival, portanto horários reduzidos para visita pois a prioridade eram os ensaios. Poderíamos conhecer o museu deles, com entrada franca. Nos perdemos numa das saídas e acabamos numa galeria, atrás dos camarotes. Ficamos uma hora espiando um ensaio maravilhoso. Quando fomos descobertas, o simpático funcionário do teatro nos levou para um mini tour particular contando a história e nos apresentando as dependências de uma das mais famosas casas de ópera do mundo.

Outra, eu conheci o Papa João Paulo II e acompanhei uma missa histórica dele por acaso. Em 2004, devido aos atentados de Atocha, em Madrid, o santo padre quebrou o protocolo para fazer a Audiência Papal na Piazza San Pietro, no Vaticano, em homenagem às vítimas fora da tradicional quarta-feira.

Vi Obama duas vezes na mesma viagem, por acaso, a 200 metros de distância. Eu estava em NY quando mataram Bin Laden e o Ground Zero virou, além de palco de festa, a maior redação de jornalismo da face da terra. Quais as probabilidades? Moral da história, nunca desista. Quer conhecer, quer ver, vá! Se der com a cara na porta, pelo menos tentou.)

Bom, tudo isso para dizer que chegamos ao Fifteen e a moça na porta perguntou: vocês têm reserva? Eu já engatei uma justificativa dizendo que tentamos há meses e não conseguimos, mas queríamos muito conhecer, que sou fã do Jamie e que tínhamos ido do Brasil até lá só para isso. Ela riu e disse que iria montar uma mesa ao lado da cozinha, justificando que ficaria um pouco desconfortável, porque era local de passagem dos garçons e não tinha muito espaço. Pode ser!

Fifteen

Fifteen

A mesa era ao lado da produção das sobremesas e acompanhamos o passo a passo daquelas delícias. Viram, como mesmo sem reserva quando você tem um objetivo a coisa conspira a favor? O nosso lugar era o melhor e foi improvisado especialmente para nós.

Mal sentamos e o Almir, o brasileiro que coordena o programa Fifteen e amigo pessoal do Jamie, veio conversar conosco. Ele e o Alex nos deram todas as dicas, do vinho aos pratos que pedimos, e acertaram em cheio o nosso estômago. O menu é sazonal, portanto não é fácil encontrar os mesmos pratos.

Tomamos um vinho branco, o Château Beaumont Les Pierrières, das Côtes de Bordeaux. De entrada, presunto defumado com ervas e lascas de cenoura colorida.

Olha que lindeza de prato!

Olha que lindeza de prato!

Para matar mesmo a fome, o pai pediu um peixe grelhado, com batatas no molho de menta, e uma espécie de sorvete salgado de trufas brancas com caviar.

Peixe e sorvete... combina? No Jamie Oliver sim!

Peixe e sorvete… combina? No Jamie Oliver sim!

Eu pedi tortellinis recheados com queijo pecorino e agrião. Demais!

Os tortellinis

Os tortellinis

Para finalizar, uma sobremesa totalmente diferente do que já experimentei. Uma bola de sorvete de cream cheese, sobre uma base crocante de amêndoas, framboesas e com uma invenção da casa, de autoria de um dos aprendizes. Ele esqueceu a beterraba cozinhando e formou uma casquinha doce e suave no fundo da panela. Eu não gosto de beterraba, mas a tal da casquinha é divina e virou marca de algumas sobremesas da casa.

Sorvete de cream cheese!

Sorvete de cream cheese!

Encerrada a refeição, o Almir nos convidou para conhecer a cozinha e nos explicar o programa. Uma cortesia com poucos. Nos explicou que 90% dos aprendizes seguem trabalhando com gastronomia, porém, quando se formam, precisam buscar oportunidades fora, se desafiar. Depois de um tempo podem retornar a casa. São 15 alunos por turma, de até 25 anos.

O próprio Almir é o responsável por recrutá-los e se responsabiliza, perante o Judiciário, pela “liberdade provisória e assistida”. Seria como uma medida sócio-educativa que dá muito certo. Ele nos contou que Jamie pensa em desenvolver algo parecido nos morros cariocas. Espero que consiga!

Jamie Oliver ensina gastronomia para jovens em situação de vulnerabilidade

Jamie Oliver ensina gastronomia para jovens em situação precária

Eu disse que amo gastronomia, que adoro preparar receitinhas diferentes e inventar na cozinha e perguntei se existe algum curso ou aulas do Jamie para grandinhos e não vulneráveis. O Almir me convidou para passar uns dias lá, quando voltar com mais tempo. Certamente eu irei. Mais uma meta!

Fomos embora felizes da vida, satisfeitos, caminhando pela rua tarde da noite e pensando como momentos valem mais do que qualquer bem material. Eu e o pai chegamos à conclusão de que foi um dos melhores jantares das nossas vidas. E custou o mesmo que um bom jantar em Porto Alegre. Nothing else to say!

  • Vinho no Fifteen
  • Chocolate é a resposta, independente da pergunta ;)

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