HOBBIES | O (bom) humor de Rubem Braga

Rubem Braga foi (ainda é, porque depois de sua morte não apareceu ninguém melhor do que ele) o maior cronista brasileiro. Elevou este despretensioso gênero da escrita à categoria de grande literatura. Sua prosa é umas melhores que há em língua portuguesa –  deste e do outro lado do Atlântico. Foi também, talvez, o mais lírico de nossos cronistas. Suas crônicas se confundem com poemas, muitas vezes. Era uma homem sisudo, calado, sério. Mas tinha um senso de humor delicioso. Como se pode ver por algumas destas frases do  Velho Braga (como ele se referia a si mesmo) selecionadas por outro gênio, seu grande amigo Millôr Fernandes.

Quem foi Rubem Braga em 20 pequenas lições

1 – EXCEÇÃO
Há mulheres tão lindas e estranhas que só acontecem pela madrugada em um grande aeroporto internacional.

2 – SILVA
Algumas pessoas importantes usaram e usam o nosso nome. É por engano. Os Silvas somos nós. Não temos a mínima importância. /A família Silva e a família de Tal são a mesma família. / Até as mulheres que não são de família pertencem à família Silva. / Nossa família faz pedra, faz telhas, laça os bois, levanta os prédios, conduz os bondes, o tapete do circo, enche os porões dos navios, dinheiro dos bancos, faz os jornais, serve no Exército e na Marinha. Nossa família é feito Maria Polaca: faz tudo

3 – CALÚNIA
Falar do inferno, por exemplo, é mau. Dante e outros espalharam muitas notícias falsas a respeito, e a pior delas é que para lá vão os culpados.

4 – DEFINIÇÃO
Entendo por vida o fato de um homem viver fumando nos três primeiros bancos e falando ao motorneiro.

5 – ATRAÇÃO
Nunca precisei usar sistematicamente o bonde Praia Vermelha, mas sempre fui simpatizante.

6 – DESENCONTRO
Quando vier a grande hora do nosso destino nós teremos saído há uns cinco minutos para tomar café. Vamos. Vamos tomar um cafezinho.

7 – DISCUSSÃO
Discutir com adjetivos é muito fácil.

8 – EGOCÊNTRICA
Ligue para minha casa, pergunte se eu estou, se não estiver diga que já vou, e se estiver diga para eu não sair.

9 – ESCOLHA
Devo confessar preliminarmente que, entre um conde e um passarinho, prefiro um passarinho. (Motivou o rompimento – empregado e patrão – entre Rubem e Chatô. O conde era o multimilionário Matarazzo)

10 – FRUSTRAÇÃO
Não sou cangaceiro por motivos geográficos e mesmo por causa do meu reumatismo.

11 – FÉ
Glória ao padeiro, que acredita no pão.

12 – INTIMIDADE
A gente sempre sabe, de um casal de amigos, um pouco mais do que cada um dos membros do casal imagina.

13 – MADRUGADA PAULISTANA
Boceja na rua o último cidadão que passou a noite inteira fazendo esforço para ser boêmio.

14 – OUTSIDERS
Eu e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis.

15 – POLIGLOTA
Falo francês como quem cospe pedras.

16 – RISCO
Sempre corro o perigo de cumprimentar efusivamente, quando encontro, de súbito, um desafeto qualquer: Antes de me dar conta de quem se trata, eu o saúdo porque é uma cara conhecida.

17 – TESE
Filosofar é, antes de tudo, cuspir.

18 – TENTAÇÃO
Nesta varanda alta, sobre os veículos e os transeuntes matinais, tenho a vontade insensata de fazer um discurso.

19 – CONTÁGIO
Devia ser com certeza uma dessas doenças que a gente adquire lendo Seleções e tem um nome tão interessante que dá vontade de mandar botar na cartão de visitas.

20 – DIPLOMACIA
Tomei o partido de falar pouco, beber muito e exprimir os tradicionais laços de amizade que ligam Cachoeiro de Itapemirim à Casa Branca.

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