LIVROS | Escritores reclusos e esquisitões

Um jovem aspirante a escritor me perguntou certa vez o que deveria fazer para ser cortejado pela imprensa e se tornar rico e famoso. Respondi-lhe:

– Esnobe os jornalistas. Ignore-os. Recuse-se a dar entrevistas ou a posar para fotos e você será assediado por eles pelo resto da vida.

Era uma brincadeira, claro, mas o rapaz levou a sério a minha resposta. E me disse:

– Já sei como ficar famoso: vou ser um novo J.D.Salinger.

Jerome David Salinger, ou apenas J.D. Salinger, que morreu há alguns anos, aos 91 anos,  ficou subitamente famoso quando lançou o romance O Apanhador no Campo de Centeio, em 1951, que narra com originalidade e franqueza as estripulias (sexuais, inclusive) de um adolescente rebelde, Holden Caulfield. Mas se transformou em mito da cena literária mundial desde que se tornou totalmente recluso.

Nas últimas décadas de vida, vivendo à margem da vida literária norte-americana, completamente isolado de tudo em sua casa de Cornish, New Hampshire, dizia-se que ainda escrevia – só para si mesmo. Era perseguido pela imprensa, mas resistiu bravamente ao assédio da fama. Hoje, editores americanos caçam pelo país o que seriam cinco romances inéditos do grande escritor – que ninguém sabe se realmente existem.

Numa época em que as pessoas expõem sua intimidade na internet e fazem qualquer coisa para aparecer na TV, a história de J.D. Salinger é um alento para quem ainda acredita em privacidade. E que a obra literária é mais importante do que seu autor.

No Brasil, três grandes escritores contemporâneos, Raduan Nassar, Rubem Fonseca e Dalton Trevisan também optaram pela reclusão. Não dão entrevistas, não se deixam fotografar e, no caso de Nassar, nem publica. São considerados, até mesmo pelos seus fãs, “esquisitões”.  Mas todos são adorados pela “mídia.”

Vai ver aquele jovem aspirante a escritor estava certo quando me disse que teria de ser um novo J.D. Salinger para conquistar a celebridade.

Gostou? Deixe um comentário: