MENDOZA | PARTE I: 9 dias, 15 vinícolas, 75 vinhos e mais de 4.000 km rodados de carro

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Quando você trabalha com vinho (e ama vinho) nem sempre tirar “férias” quer dizer “deixar de trabalhar”. É o nosso caso. Eu, Lilian Lima, editora de vinhos e gastronomia do As Boas Coisas, sommelier e apaixonada por vinhos e meu namorado, Júlio César Kunz, editor de vinhos e cervejas do As Boas Coisas e diretor da Associação Brasileira de Vinhos (ABS/RS), decidimos juntar férias e trabalho numa semana na Argentina.

O amigo inseparável da viagem: o chimarrão! Na foto já estávamos usando a erva argentina, por isso parece estranho.

O amigo inseparável da viagem: chimarrão! Na foto, já estávamos usando a erva argentina, por isso parece estranho.

Eu visitei Mendoza pela primeira vez no ano passado, durante a vindima. O Júlio já havia estado por lá duas vezes. Então, desta vez, escolhemos duas regiões para conheceremos melhor juntos: Maipú e Luján de Cuyo, as mais tradicionais na produção de vinhos. Hoje, publicamos o primeiro texto desta série. Tem ainda muita coisa bacana pela frente. Acompanhe nossa ida até Mendoza de carro. Sim, fomos dirigindo até lá!

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Ida: Porto Alegre para Mendoza

De Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, há duas opções para chegar até Mendoza, a capital argentina do vinho:  de avião – a Aerolíneas Argentina tem um voo que passa por Buenos Aires e a Gol tem voo direto de São Paulo; ou de carro. Já que estávamos de férias e queríamos fazer da viagem algo bem maior do que apenas conhecer Mendoza, porque não ir de carro, parando pelo caminho e sentindo um pouco da vida argentina?

Antes de pegar a estrada, fique de olho em algumas normas argentinas: os carros precisam de um triângulo adicional, extintor de incêndio, um kit de primeiros socorros e a carta verde – o seguro obrigatório para qualquer veículo que ingresse em países do Mercosul. O objetivo é proteger terceiros afetados por acidentes de trânsito, no período da viagem.

De Porto Alegre a Mendoza são quase 2 mil quilômetros de carro. 24 horas de estrada! Pra isso, dividimos a viagem em dois dias e saímos de casa no sábado, bem cedo. Para deixar a viagem menos cansativa, alternávamos a direção e parávamos a cada duas horas. As paradas serviam para esticar as pernas, ir ao banheiro e recarregar a térmica com água quente. O chimarrão (um hábito aqui no Sul) foi nosso companheiro.

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Antes de cruzar a fronteira é preciso passar pela Imigração. O prédio da Receita Federal do Brasil estava lotado de argentinos. Com a confusão, nos mandaram para a fila errada e meu passaporte (brasileiro) acabou sendo carimbado com a saída do Brasil. Como se eu fosse uma estrangeira saindo do país. Depois do mal entendido fomos para a fila da Imigração argentina.

Me atrapalhei na hora de cruzar a fronteira e quase fomos para o lado errado.

Me atrapalhei na hora de cruzar a fronteira e quase fomos para o lado errado.

Já em território argentino, o que mais chama a atenção são as estradas. Percorremos rodovias duplicadas, bem sinalizadas e com permissão para dirigir até 130 km/h. Uma facilidade da viagem. Fizemos boa parte do trajeto por rodovias estaduais. O Google nos indicava rotas alternativas, passando por dentro de algumas cidades. Se você tem tempo e vontade é uma boa opção, só que muitas vezes pode demorar mais, já que nestes percursos há sinaleiras e a velocidade é reduzida.

Mas cuidado: em alguns pontos da estrada você pode percorrer muitos quilômetros sem encontrar um posto de combustível, então, se previna. A gasolina na Argentina também está bem mais cara que no Brasil: o litro custa entre 19 e 21 pesos, cerca de 5 reais!
Júlio César Kunz: o responsável pelas fotos artísticas da viagem

Júlio César Kunz: o responsável pelas fotos artísticas da viagem

Você vai se acostumar a ver policiais na rua. Passamos por barreiras na entrada de todas as províncias que cruzamos. Foram 6 no total, mais umas 4 barreiras no meio do caminho. Não fomos parados em nenhuma delas na ida. Na maioria das vezes, argentinos precisavam mostrar documentos e o porta-malas dos carros aos guardas. A situação nos deu uma sensação de segurança.

O lado argentino também oferecer uma diversidade de lojinhas com produtos locais. O “el parador” é uma mistura de loja de artesanato, com venda de souvenirs, além de pães, erva-mate, embutidos e conservas. De longe é possível ver as placas, bem chamativas, na beira da estrada. Muitos são temáticos e chamam atenção pelas cores vibrantes da fachada.

Nossa vista no fim de tarde na Argentina <3

Nossa vista do fim de tarde na Argentina <3 (a foto é artística, mas é minha hahaha)

Já era noite quando chegamos a Santa Fé (Capital), uma cidade localizada bem no meio do caminho. Nos hospedamos no Hostal Santa Fé Veracruz, um hotel simples, mas bem localizado, que encontramos pela internet.

Santa Fé estava movimentadíssima.  A noite quente de sábado lotou bares e restaurantes. Decidimos aproveitar a noite na cidade. Por indicação do recepcionista do hotel, fomos jantar no restaurante do Club Social Sírio-Libanês. Petinho do hotel, precisamos andar poucas quadras pra chegar até lá. No caminho a gente se deu conta como é prazeroso caminhar à noite na rua, sem medo (coisa que a gente nunca faz em Porto Alegre, por exemplo, tudo por causa dos assaltos). Eu fiquei impressionada ao ver gente com celular na mão, dento do carro e até em ruas pouco movimentadas e menos iluminadas. É a tal “qualidade de vida” que tanto se fala.

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O Sírio-Libanês estava cheio. Conseguimos uma das poucas mesas que ainda estavam livres. O lugar é frequentado por pessoas de todas as idades, mas as mesas, na maioria, tinham famílias inteiras aproveitando a noite quente para jantar juntos. De cara o Júlio me cutucou: “olha as mesas, quase todas com vinho”. Fazia uns 30 graus, às dez horas da noite, e a maioria bebia tinto. Pra que se importar com o calor se essa é a bebida que mais harmoniza com a especialidade da casa? Os assados argentinos!

Na Argentina, faça como os argentinos: pedimos um Malbec para acompanhar a parrilla. O vinho, de muita qualidade e expressivo, custou apenas 40 reais. Um excelente custo-benefício. Aqui abro um parêntese (Imagina você poder escolher no restaurante, no Brasil, um bom vinho nacional por este preço? É o sonho de todos nós.) Fecha parênteses!

Pedido o vinho, o garçom nos traz a garrafa, abre – sem qualquer cerimônia – coloca na mesa e nos deixa um baldinho de gelo. Os copos? Os mesmos usados para a água. Uma verdadeira aula de como simplificar o consumo de vinho. Bebida barata, do boa qualidade e servida sem frescura.

No cardápio, chorizzo, morcilha, assado de tiras, porco e chinchulin, além de saladas e outros acompanhamentos. Até aí, tudo bem. A surpresa foi quando o Júlio me contou no que era o chinchulin: intestino de gado! Só provei depois que ele insistiu muito. Não é ruim, mas é muito estranho comer sabendo o que é. A experiência no restaurante custou 500 pesos, cerca de 125 reais, para o casal. Incluiu água, vinho e o jantar para os dois. Preço justo e qualidade acima das expectativas.

Na volta para o hotel seguimos nossa caminhada pelas ruas de Santa Fé. Pessoas de todas as idades lotavam as calçadas dos bares bebendo cerveja e vinho. Crianças corriam pelo calçadão enquanto os pais os observavam de longe. Uma total ocupação dos espaços públicos.

A parte triste: não temos fotos da nossa ida a Santa Fé. O cartão de memória da câmera travou. Só conseguimos comprar um novo em Mendoza.

A parte triste: não temos fotos da nossa ida a Santa Fé. O cartão de memória da câmera travou. Só conseguimos comprar um novo em Mendoza.

No domingo, partimos bem cedo para a segunda etapa da nossa viagem. Até Mendoza ainda teríamos cerca de mil quilômetros pela frente. Para entrar no clima argentino, paramos numa lojinha para comprar erva-mate, alfajor e refrigerante de pomelo. A erva, de tão forte, me deu dor de cabeça no primeiro mate (sou muito sensível a ervas amargas), o refrigerante de pomelo – o preferido do Júlio – virou acompanhamento dos nossos lanches no carro e o alfajor era nossa sobremesa. A cada nova província encontrávamos um diferente. Alguns com frutas, outros cobertos por açúcar, mas todos bem diferentes daqueles comprados no Uruguai.

Depois de mais de 15h de viagem, chegamos a Mendoza. A chegada, à noite, foi um pouco complicada, mas logo encontramos nosso o hotel, o Arena Maipú. O resort com cassino, restaurantes e casa de shows fica pertinho da rota do vinho e a quinze minutos da cidade de Mendoza.

Só uma amostra do nosso hotel. Em breve, publicamos uma matéria só dele, com todos os detalhes.

Só uma amostra do nosso hotel. Em breve, publicamos uma matéria só dele, com todos os detalhes.

Cansados da viagem de dois dias e com vontade de conhecer o local, optamos por comer num dos restaurantes do hotel. O escolhido foi o peruano Manos Morenas Cocina. A especialidade da casa são os Ceviches (uma das nossas comidas favoritas <3). Peixe fresco e tempero genuinamente peruano. Acompanhamos os pratos com um vinho branco argentino, o Kilka Salentein Chardonnay 2015. Nada mal para terminar um fim de semana cheio de aventuras. Na segunda-feria, bem cedo começaria nosso roteiro pela estrada do vinho de Mendoza. A viagem foi um convite do Turismo de Mendoza, com apoio das Secretarias de Turismo de Maipú e Luján de Cuyo.

Cordilheira dos Andes: ela teimou em se esconder de nós. Fomos pacientes e conseguimos vê-la algumas vezes durante a semana.

Cordilheira dos Andes: ela teimou em se esconder de nós. Fomos pacientes e conseguimos vê-la algumas vezes durante a semana.

 

 

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