MENDOZA | PARTE II: Uma vinícola para se apaixonar

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Depois da primeira noite de sono no Esplendor Maipú, eu e a Lilian acordamos cansados e quase atrasados. O café-da-manhã era completo como se espera de um serviço continental, com um toque anglo-saxão proporcionado pelos ovos mexidos e salsichas. Mas o que nos fez investir mais tempo na primeira refeição do dia foram as especialidades argentinas. Dentre as maravilhosas frutas cultivadas em solo mendocino, que já nos davam um indicativo da qualidade das uvas e dos vinhos, o pomelo (toranja) foi sagrado ao longo de toda a semana. Medias lunas cobertas com uma generosa camada de doce de leite encerraram a primeira experiência gastronômica do dia.

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Esplendor Maipú, localizado dentro da Arena Maipú: completo reúne cassino, restaurantes, hotel, lojas e supermercado.

Esplendor Maipú, localizado dentro da Arena Maipú: complexo reúne cassino, restaurantes, hotel, lojas e supermercado.

Eram 8h45min, ainda não estávamos atrasados para a visita inaugural desta viagem, marcada para 9h00min. Quem já leu o texto da Lilian sabe que o cartão de memória da máquina fotográfica fez beiço depois de Santa Fé e tirou uma folga, precisávamos providenciar um novo para registrarmos as vinícolas, os vinhos e os detalhes importantes ou simplesmente bonitos do passeio. Por sorte, há uma grande loja de uma rede de supermercados no complexo e não foi difícil encontrar a solução para as fotos. Difícil foi o atendimento, que demorou mais de meia hora, que somada a um (nem tão) pequeno erro de trajeto fez que chegássemos às 10h na Bodega Cecchin.

Pomelo e media lunas, nossos queridinhos <3

Pomelo e medias lunas, nossos queridinhos <3

Alberto Cecchin nos recebeu com um sorriso sereno, minimizou o nosso atraso dizendo que sempre tem coisas a fazer e que tinha aproveitado bem aquele tempo. Sem maiores cerimônias nos levou ao vinhedo onde explicou com detalhes a composição do solo, a sua microfauna, o cultivo orgânico e a condução dos vinhedos, e os pessegueiros e oliveiras que os permeiam.

O vinhedo e os pessegueiros

O vinhedo e os pessegueiros

Questionamos se aquelas árvores não atrapalhavam a produção de uvas. “Trocamos 5 ou 6kg de uvas por 50kg de pêssegos”, que são compartilhados com amigos, em vez de serem processados ou vendidos. Aí temos mais uma pista de como Alberto vê o mundo.

Compramos uma caixa deste Malbec. Metade vamos guardar na adega para ver como evolui.

Compramos uma caixa deste Malbec. Metade vamos guardar na adega para ver como evolui.

Conduziu-os de volta à vinícola contando que aqueles vinhedos foram implantados em 1923 e que os oliveiras já têm mais de 70 anos. Com um tom levemente misterioso, mas franco, desvelou as camadas de histórias guardadas nas paredes da vinícola construída em 1895, com tijolos assentados em barro; nas piletas (grandes tanques) de concreto, mostrando de forma encantadora o seu ponto de vista sobre o vinho, sobre o terroir de Maipú, sobre a gastronomia e sobre a vida.

– “Eu não como um alimento que não estraga.”

Alberto nos mostra o solo da bodega. Ali esta o segredo de seus vinhos.

Alberto nos mostra o solo da bodega. Ali esta o segredo de seus vinhos.

Com essa frase, convidou-nos a sentar e nos fez degustar os seus vinhos mais básicos. Todos são orgânicos, mas ele não faz questão de destacar a informação todos os rótulos por não acreditar que deva ser uma questão de comunicação, mas de filosofia de elaboração. Nos contou que não houve processo de conversão de vinhedos ditos convencionais para orgânicos, pois seu pai nunca acreditou nos vendedores de produtos químicos, preferindo o cultivo tradicional, herdado dos imigrantes italianos no fim do século 19. Defendeu la cuna del vino – o berço do vinho argentino, como é conhecida a região – dizendo que não há problema algum com vinhos alcoólicos e frutados.

* Nos próximos textos, entrarei em detalhes sobre as regiões de Maipú e Luján de Cuyo, e sobre a tendência dos vinhos mais elegantes do Vale do Uco.

Alberto disse duas coisas com as quais não se poderia concordar mais. Primeiramente, que quem não elabora bons vinhos em Mendoza deveria mudar de profissão. O clima está longe de ser um problema, pois a insolação abundante no período de maturação, combinada com invernos suficientemente rigorosos, propicia sanidade e níveis qualitativos invejáveis nas uvas produzidas na região. É verdade que granizo e chuvas em excesso para os padrões da região podem prejudicar a produtividade de certas safras, como foi o caso da colheita de 2016, mas os efeitos qualitativos estão longe de serem críticos. O segundo ponto é: com um clima semidesértico, sobram razões para fazer um mínimo esforço do cultivo orgânico.

Há vida embaixo na terra. Pequenos insetos são responsáveis por levar oxigênio à planta.

Há vida embaixo na terra. Pequenos insetos são responsáveis por levar oxigênio à planta.

Ao iniciarmos a degustação, já estávamos atrasados para a próxima visita, mas não tínhamos vontade de deixar aquela vinícola maravilhosa. Muito menos queríamos interromper aquele papo agradabilíssimo ou negar a degustação de mais um vinho. Pedimos a gentileza de informar os nossos próximos anfitriões sobre o nosso atrase e, assim, mantermos a nossa consciência um pouco mais livre da culpa. Comentei que assim não arruinaríamos a fama brasileira. Lilian riu e confidenciou que não estava disposta a sair de lá naquele momento. Foi quando o Alberto voltou do telefonema e fez um convite:

– “Querem entrar em outro mundo?”

Cave: o esconderijo dos grandes vinhos da vinícola.

Cave: o esconderijo dos grandes vinhos da vinícola.

Foi então que nos apresentou o seu malbec biodinâmico, um vinhos sem sulfito (conservante usado comumente e permitido inclusive em vinhos orgânicos) do qual nos falava desde o início da visita. Confesso que estava cético em relação a esse vinho. Além de fazerem um controle de microrganismos, o sulfito é um poderoso antioxidante. Eu jurava que degustaríamos um vinho com características ruins de oxidação no aroma, tons alaranjados, baseado na degustação dos seus outros vinhos com baixa acidez – a acidez é um elemento também importante para a conservação dos vinhos. Eis que o Malbec sem sulfito 2016 nos brindou uma coloração bordô brilhante, com reflexos lilases e um aroma extremamente frutado, com toque floral e um fundo mentolado típico da malbec.

Entre garrafas empoeiradas e sem rótulos.

Entre garrafas empoeiradas e sem rótulos.

Mas a visita a esse outro mundo apenas começava naquela taça, que levamos conosco enquanto descíamos as escadas para a adega. Um ambiente naturalmente mantido a 17C por conta da terra, enquanto a temperatura ambiente na superfície passava dos 30C. Lá, ele abriu uma garrafa do mesmo vinho: um malbec, sem sulfito da safra 2005. Pensei comigo mesmo que a história era muito boa para um vinho com menos de um ano, mas que não nos convenceria com um vinho de 12 anos. Eis que a complexidade nos surpreendeu, nada de oxidação, ao contrário, uma evolução como a que se deve esperar de grande s vinhos, com notas de couro, mantendo fruta madura e uma evolução de compotas.

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Realmente entramos em outro mundo. Depois de um Graciano 2007 em garrafa magnum  e um corte de Malbec com Cabernet Sauvignon safra 2006, um Syrah sem sulfito safra 1999 foi a cereja do bolo. Além de excepcional, pode ainda ser guardado por mais alguns anos. Insistimos para comprar ao menos uma garrafa desse vinho, o favorito da Lilian, mas não foi possível. Ele disse que tinha aquelas poucas garradas guardadas para mostrar para as pessoas que é possível envelhecer bem um vinho sem sulfito se ele for bem elaborado e que deveríamos comprar garrafas de vinho novo e guardarmos, se quisermos experimentar a evolução.

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Nos pedimos com uma taça de espumante moscatel método ancestral. Queríamos ter passado o dia lá. Queríamos ter voltado mais vezes. Não pudemos. Mas voltaremos e nos próximos textos da série, contaremos mais por que não conseguimos voltar à apaixonante Bodega Cecchin.

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