CRÔNICA | Sobre trabalho e valor

Afresco do Aldo Locatelli (prefeitura da Caxias do Sul, RS)

Nova pátria brasileira, afresco de Aldo Locatelli para a Prefeitura de Caxias do Sul (RS)

Não faz muito tempo, fui ao velório da mãe de duas amigas que, apesar do longo tempo que não as via, eram muito próximas. De maneira quase paradoxal, nunca havia visto a sua mãe, nem mesmo um aceno, sequer tinha visto alguma foto sua. Mas fui lá, dar um abraço e me restringir ao mínimo de palavras. O velório é o primeiro passo de um doloroso e, às vezes, longo processo de cicatrização da perda de um ente querido. Os rituais de velório, cremação ou enterro têm por objetivo encher de significado o momento mais temido de nossas vidas. Quando perdemos alguém – ou mesmo algo – a vida parece perder o sentido. Entretanto, a verdade é o oposto disso: a morte dá significado às nossas vidas miseráveis.

Seria melhor dizer que a consciência da morte move a nossa existência vazia de sentido. Somos atirados ao mundo, nos alimentamos e crescemos até o ponto em que nos damos conta de que havia mundo antes de estarmos nele e que, um dia, o deixaremos. É normal termos medo, horror, pânico do dia de nossa passagem. Mas medo de quê, cara-pálida? Há mais de dois mil anos, Epicuro nos ensinou que não devemos temer a morte, afinal, “quando estou, ela não está; quando ela está, eu já não sou”. Se é sensato não temer a morte, por que a tememos? Porque somos insensatos, óbvio. Há, porém, algo além de nossa insensatez, há um medo que tem sentido lógico, racional: tememos que a nossa existência não tenha significado algum.

De alguma maneira, queremos superar a morte, certa. As religiões argumentam, cada uma à sua maneira, que este mundo é ilusório e que, na verdade, somos eternos – para o bem e para o mal. A medicina busca frenética e ilusoriamente o elixir da vida eterna. Ninguém, porém, tem provas consistentes da eternidade de nossas almas, nem da existência de Matusalém. A única coisa que temos certeza que ultrapassa a vida humana são as obras. Não é por nada que a arte tem um poder tão grande, sendo, inclusive, um caminho para a cura psicanalítica. Nos últimos tempos, infelizmente, as obras realmente valorizadas – ao menos em vida – nos dando a ilusão de ser uma porta para a eternidade são os frutos de nosso trabalho. E trabalhar para que o nosso nome não se esgote com a nossa existência é muito trabalhoso.

Aliás, nós, que fomos criados e estamos imersos numa cultura latina, temos grande dificuldade em lidar com o trabalho. Não é para menos, a origem da maldita palavra vem de um instrumento de tortura medieval trippalium, formado por três pontas e do qual – graças aos deuses e à falta de museólogos – já não se tem desenho nem amostra. Todos os latinos vemos o trabalho de forma negativa: trabajo, travail. Mesmo lavoro, em italiano, vem do latim labor, que quer dizer, literalmente, fadiga. Talvez isso ajude a explicar o nosso enorme apreço pelo ócio improdutivo.

Os nórdicos , campeões deste mundo trabalhoso – e da Copa 2014 –, usam work, wörk, etc., cuja origem é woelk (feito, pronto). Certamente uma origem muito mais positiva que tortura ou fadiga. Mas hoje, somos obrigados a trabalhar – desculpem a redundância – com sacrifício. Grande sacrifício e o resultado do sacrifício é medido pelo cansaço que carregamos nos nossos corpos e espíritos. Se trabalho é sacrifício, para provar que trabalhamos, temos de reclamar constantemente de nosso cansaço. E há categorias de atividades que simplesmente ficam de fora: música, por exemplo. Músicos, escritores, pintores e outros vagabundos, sabidamente, não trabalham. Não importa o quão pouco durmam e o quanto produzam – parece não haver sacrifício nas suas criações.

Atividades intelectuais, decididamente, não são trabalho sob esse ponto de vistas. Publicitários, marqueteiros e jornalistas, por exemplo, não trabalham. Daqueles que têm esse tipo de atividade, só se salvam os homens de negócios. Mas para isso, têm de declarar no próprio nome que negam o seu ócio – homens que negam o ócio. Eles são os mais hábeis em transformar o seu ócio em dinheiro – e, por óbvio, têm dificuldade de fazer o contrário – quando fazem, tendem a fazê-lo de alguma maneira brega e ridícula. Tudo bem, isso não vem ao caso. O que interessa é que hoje acreditamos que vale a pena gastar a nossa saúde e encurtar as nossas vidas por conta trabalho e temos a mais absoluta certeza de que isso vai nos garantir a eternidade.

Mas não, isso não é verdade. Só a produção original tem alguma chance de ultrapassar a nossa existência mundana. Estamos aqui para produzir a beleza e a grandeza, não para reproduzir a mediocridade e a baixeza. Se conseguirmos fazer do nosso ofício, arte, talvez possamos trabalhar sem sofrimento e transformar todas nossas atividades em frutos do mais belo de nossa existência. Ouçamos Nieztsche: “Temos a arte para não morrer da verdade.”

Feliz dia do trabalhador, artista do cotidiano.

 

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