VIAGEM | Mendoza além dos vinhos

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PARTE I: NEVE, MUITA NEVE!

Não me pergunte sobre vinhos. Não sei a diferença entre Merlot e Cabernet. Agito circularmente a taça (com pouca destreza, confesso), cheiro, degusto e não consigo achar notas de nada que não seja uva. Me considero uma “enoignorante”. E o que fui fazer em Mendoza? Muitas coisas!

Que Mendoza, na Argentina, é a terra do vinho, todo mundo já sabe. Em uma procurada superficial na internet é bem fácil de achar tudo sobre seus vinhedos, suas bodegas, a maneira como o solo influencia nas notas de sei lá o quê, várias informações técnicas, guias de degustação, tudo que se pode imaginar sobre a maravilhosa gastronomia e harmonização com a bebida que o lugar oferece.

Não me entendam mal, gosto de tomar vinho socialmente, no sentido literal da palavra, pois nunca tive essa capacidade de abrir uma garrafa e degustar um Cabernet sozinha, só pelo prazer de fazer isso. Mas aprecio muito o ato social de beber um vinho, de receber amigos e vê-los chegar com uma garrafa nas mãos, de me deixar levar pelo leve balanço do mundo depois de duas taças do liquido bordô.

Não me julguem: sim, minhas melhores histórias são resultado de acontecimentos que vieram depois de somente duas taças. Meu organismo não precisa de muito para ficar embriagado.

E é claro que visitamos bodegas, degustamos bons vinhos e eu até descobri que gosto mais de Cabernet do que de Merlot, e que meu preferido é Chardonnay. Mas deixo os relatos de experiências enólogas para os outros colunistas desse site.

Depois de muito analisar, decidi meu preferido: Chardonay

Depois de muito analisar, meu preferido: Chardonnay

Bom, mas voltando ao que fui fazer em Mendoza. Essa cidade sempre esteve em meu imaginário desde muito pequena, por ouvir minha avó comentar sobre as histórias que sua sogra contava sobre sua cidade natal, e cresci querendo conhecer esse local de onde se enxerga a Cordilheira dos Andes da varanda de casa.

Surgiu a oportunidade, marcamos a viagem e, como sou a louca dos roteiros, comecei a planejá-la. E como é de costume, sempre buscando a diversidade. Me perguntei: o que há em Mendoza além de vinhos? Então, se você quer fugir do clichê, a cidade pode te surpreender.

Apesar de ser uma pessoa que sofre muito no frio, sempre com os movimentos impedidos por cinco camadas de roupa, adoro neve! Então, a primeira coisa que me atraiu no local foi sua proximidade com Cordilheira dos Andes.

A cordilheira vista do Cerro de la Glória, no Parque San Martin

A cordilheira vista do Cerro de la Glória, no Parque San Martin

Ficamos hospedados em Maipú, na região metropolitana de Mendoza, a uns 30 minutos de carro, e 1h30 de transporte público. É uma cidadezinha com cara de vilarejo rural, onde tudo acontece em volta da praça. E por tudo quero dizer: cinco restaurantes, a prefeitura, o supermercado e pequenos pontos de serviço. Seu diferencial: dezenas de bodegas!

Bodegas são estabelecimentos de fabricação de vinho que disponibilizam visitas guiadas às suas instalações e degustações, além de venda para os fãs de Baco. Mas esse não é um texto sobre vinhos.

Escolhi me hospedar nesse local pelo seu clima bucólico, com estradinhas tomadas de plantações de oliveiras, videiras, bodegas com construções charmosas e clima de interior.

Estradinhas de Maipú

Estradinhas de Maipú (fotos: Juliana Litwinski de Oliveira)

E não poderia esquecer da cordilheira! Enquanto a era contemporânea chegou em Mendoza, e aquela cordilheira que minha bisavó enxergava da varanda de sua casa só pode ser visualizada dos andares altos e terraços dos prédios da cidade, em Maipú eu dava bom dia a essa linda vista todo dia, quando passava pelo portão de entrada da nossa pousada. E isso, já valia a viagem!

Vista de frente da pousada

Vista de frente da pousada

Começamos nossa viagem fazendo um reconhecimento de Maipú, cumprimos o roteiro básico: a primeira bodega de Maipú, a mais antiga ainda em funcionamento, o Museu do Vinho, alguns quilômetros caminhados e pronto: estava vista a cidade.

Primeira Bodega de Maipú

Primeira Bodega de Maipú

No segundo dia, a cereja do bolo, o Tour de Alta Montanha. É um passeio bem famoso que sai da cidade de Mendoza e nos leva para passear na cordilheira. Pegamos a rota 7, em direção ao Chile, depois de uma parada em Uzaplata para alugar botas de neve (que os pão duros aqui sempre se perguntam se vale a pena e depois descobrem que vale a pena alugar, sim) partimos para algumas paradas até chegar a fronteira com o Chile.

E foi um dia de neve! Muita neve! Camadas de um metro de altura se depositavam em cima de telhados, homens abriam caminhos com pás para podermos circular pela feirinha de artesanato e guias e motoristas de van faziam guerrinhas de bolas de neve. Foi o paraíso para uma pessoa apreciadora dos flocos gelados, como eu.

Abrindo caminho na feirinha de artesanato

Abrindo caminho na feirinha de artesanato

Uma das coisas legais da região é que lá é um deserto, então é muito difícil chover ou ficar nublado, o que garante dias muito ensolarados e céu de um azul intenso. Nesse dia, fazia 2°C na cidade e -12°C na montanha, então era importante usar todos artifícios disponíveis, calças e blusas térmicas, meias de lã, protetores de orelhas, casaco que barram o frio… Eu parecia um boneco inflável, com tanta camada de roupa! Mas não passei frio! Segundo o guia, aquele dia estava perfeito, pois não tinha vento. O vento na montanha pode castigar.

Figurino para neve

Figurino para neve

Nossa primeira parada foi a Estação de Esqui de Penitentes, onde pudemos caminhar bastante na neve e subir até um pico com o teleférico. Para mim foi a parada mais legal, além de tirar muitas fotos dos lindos picos da cordilheira, nossa caminhada rendeu boas risadas, pois cada passo na neve pode ser em falso e a gente se pegava soterrado até a cintura.

É nesse momento que um morador de país tropical volta a ser criança e não resiste ao ímpeto de se jogar em morros de neve, empurrar o outro e cair de cara em morrinhos gelados. Ok, de repente eu e meu marido ficamos um pouco exaltados com a experiência. Mas a vida é muito curta para não derrubar a pessoa que se ama de cara em um morrinho de água congelada. 😉

Estação de esqui Penitentes

Estação de esqui Penitentes

Depois partimos para a Puente del Inca, um local cheio de história e fábulas, onde uma formação natural (ou mística, de acordo com as lendas locais) atravessa um riacho de água termal. Na beira desse riacho, existia um hotel com uma capela, que depois de um soterramento, deu lugar a ruínas e uma esquecida capelinha de pedra que completa uma paisagem tranquila.

A Puente e a capelinha sobrevivente da avalanche

A Puente e a capelinha sobrevivente da avalanche

Ali encontramos uma feirinha de artesanato local, onde se pode comprar todo tipo de souvenir. Como sou adepta de comprar souvenires exóticos, que só posso encontrar naquele exato lugar, adorei uns vasinhos de cerâmicas que são imersos na água termal do riacho que passa pela ponte e, após alguns dias, é retirado e fica com a aparência de pedra, devido aos minerais que estão presentes na água. Eles usam essa técnica em várias coisas, como garrafas, bibelôs, canetas…

Vasinho de cerâmica

Vasinho de cerâmica

Depois seguimos para a entrada do Parque Nacional do Aconcágua e pudemos ver o gigante ao longe, com seus quase 6 mil metros de altura (é a maior montanha fora da Ásia), e ouvir o guia falar sobre os corajosos que se aventuram em sua subida. O passeio terminou com um almoço em um restaurante de arquitetura pitoresca e comida sem graça demais para o seu custo (mas que era a única opção em meio ao grande nada gelado) na fronteira entre a Argentina e o Chile.

A comida não era muito boa, mas o lugar era bonitinho

A comida não era muito boa, mas o lugar era bonitinho

O tour incluía uma visita ao Cristo Redentor de los Andes, que não pudemos fazer pois o caminho estava fechado em função da neve. Voltamos para nossa pousada extasiados pelas lindas paisagens de um local tão inóspito.

Plantação de oliveiras

Plantação de oliveiras

Amanhã, Juliana conta a segunda parte dessa viagem no As Boas Coisas da Vida.

Juliana Litwinski de Oliveira é arquiteta e urbanista, bailarina e uma apaixonada por viagens e cultura.
Eu e meu chardonnay

Eu e meu Chardonnay

 

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