VIAGENS | A arte de compactar dos japoneses

Viajar para o Japão é entrar em outra dimensão, onde o andamento do tempo muda, às vezes ficando mais devagar, noutras mais rápido. Mas é também entrar em outra dimensão física, já que falta espaço para tanta gente. Como abrigar mais de 13 milhões de pessoas numa mesma cidade, caso de Tóquio?

Por isso, um dos primeiros choques que se leva ao chegar no Japão é entrar no quarto do hotel. A não ser que você tenha investido pesado em hospedagem, é bem provável que você passe sua estadia tendo que escolher entre abrir a mala e deitar na cama.

Vontade de... sair correndo, né? (fotos: Juliana Litwinski de Oliveira)Vontade de… sair correndo, né? (fotos: Juliana Litwinski de Oliveira)

É bem provável também que você se depare, repetidas vezes, com algo que eu apelidei de cápsula de banheiro. É que os banheiros lá ficam numa espécie de caixa pré-moldada de fibra, de menos de dois metros quadrados. E são tão pequenos que a câmera não encontra ângulo para tirar a foto!

Esticar as pernas na banheira nem pensar! (foto: reprodução internet)

Esticar as pernas na banheira nem pensar!

Nem tudo coube na foto, mas além da banheira, onde mal cabe um japonês, tem uma cuba (que fica abaixo desse espelhinho), que se divide entre torneira e ducha pro banho. Ou seja, ou se toma banho ou se escova os dentes! As duas coisas ao mesmo tempo, nem pensar! O vaso ficou de fora da foto, mas tem (ufa!). E o pior é que encontrei esse mesmo módulo de fibra que eles chamam de banheiro em todas as hospedagens que fiquei no Japão! Imagino que se repliquem com exaustão por todo país…

Entre os deslumbramentos de qualquer viajante ao desbravar as ruas de uma cidade desconhecida, meu olhar treinado ia compreendendo que não só as moradias, mas tudo em Tóquio se empilhava. Edificações que, à primeira vista, se pensava ser uma única residência eram moradia de três famílias.

E o medo de estacionar o carro quase raspando o teto?  (fotos: Juliana Litwinski de Oliveira)

E o medo de estacionar o carro quase raspando o teto?

O Japão é um país de excessos. Excessos e contrastes. Excesso de gente, de quarteirão cheio de edifícios de 80 andares… E contrastes, porque, no meio deles, há bolhas verdes, onde o tempo parece parar.

Tóquio e seus constrastes

Tóquio e seus constrastes

E, nesses locais, onde os minutos parecem horas, somos transportados para a era dos samurais, com lindas árvores de sakura (cerejeira) e com árvores ornamentais, podadas como bonsais gigantes.

As sakuras e os bonsais

As sakuras (cerejeiras) e as ávores podadas tipo bonsais

Chegando em Hakone, que fica a 30 minutos de trem bala da capital japonesa, à beira do monte Fuji, o tempo volta a parar. Quem opta pela tradicional hospedagem japonesa, em ryokans com onsens (que são hotéis com serviço de banhos com águas termais), é recebido por uma senhora vestida com as roupas tradicionais, que lhe serve chá e explica várias coisas em japonês. (Caso você não entenda, basta fazer várias reverências e finalizar com um arigatô, para que ela vá embora e lhe entregue um roupão e um kit para usar no banho.)

Quarto de Hakone. Bem melhor que o de Tóquio, né?!

Quarto de Hakone. Melhor que o de Tóquio!

Se ignorarmos a cápsula de banheiro (de novo ela!), a impressão que se tem é de ter sido transportado para outra era, tomando um chá verde com a linda vista do lago Ashi – e, se você tiver sorte, com o monte Fuji ao fundo.

Lago Ashi, em Hakone

Lago Ashi, em Hakone

Vendo ou não o tímido monte Fuji, que quase sempre está encoberto, a atmosfera de Hakone faz valer a visita, pelo choque que se tem ao sair da exagerada Tóquio para essa linda cidadezinha entre montanhas, onde tudo, menos a 7eleven (loja de conveniência), fecha às 17h.

Chegando em Quioto, voltamos à aura cosmopolita, mas bem menos carregada. Parece que os japoneses de lá são mais felizes, sorriem mais, interagem mais – na medida do possível para um japonês.

Kiyomizu-Dera Kyoto, templo budista de Quioto

Kiyomizu-Dera Kyoto, templo budista de Quioto

Alugar um apartamento na cidade é ter a verdadeira experiência de um morador de Quioto. Começando por tentar achar o edifício e descobrir que o sistema de endereços japonês não é por ruas e números, como o nosso, e sim por bairros e nomes de prédios! Depois de caminhar mais de 30 minutos com uma foto da fachada na mão, vocês começa a se perguntar como um povo que desenvolve um sistema tão complexo de metrô faz essa bagunça com a localização das casas.

Ao achar, finalmente, o edifício você leva o segundo choque: o apartamento tem apenas 15m², o tamanho de um quarto brasileiro. E lá está ela de novo: a nossa já conhecida cápsula de banheiro – dessa vez, com cozinha acoplada a ela (!). Cozinha, aliás, que se resume a uma boca de fogão à gás, acima de um frigobar, e a uma pia com um armário de uma porta suspenso.

Dá ou não dá vontade de virar um chef?

Dá ou não dá vontade de virar um chef?

E o micro-ondas? Esse se localiza em cima de uma pequena mesa que, por sua vez, é o único móvel do apartamento além de um beliche e de um mini aparador para a TV de 22”. As roupas podem ficar em um armário de uma porta embutido, ao lado da cozinha.

Passado o primeiro choque (e depois de se tomar a decisão de passar na loja de conveniências da esquina para comprar algo que possa ser preparado em tão diminuta cozinha), a primeira pergunta que se faz é: do que mais eu preciso? E a resposta é: nada!

Se eu acho que japoneses que moram nesses micro-apartamentos têm qualidade de vida? Acho que não! Mas o fato é que eles conseguiram se adaptar à demanda da tão alta densidade populacional. Tudo é compactado: as moradias, o deslocamento, as refeições e até as relações. Tudo é facilitado, pensado, coordenado para tomar o menor tempo, ocasionar o menor prejuízo e manter um grande organismo funcionando.

Tóquio, o grande organismo japonês

Tóquio, o grande organismo japonês

Os japoneses se viram como podem: acordam, tomam banho em uma caixa ridiculamente pequena, saem, tomam café da manhã em uma loja de conveniência, entram em um metrô, saem em uma estação do tamanho de um shopping, trabalham, no horário do almoço escolhem entre uma infinidade de restaurantes que servem basicamente os mesmos pratos, desfrutam de um momento de tranquilidade em um parque lindamente arborizado, saem do trabalho tarde, se espremem em um vagão de metrô lotado, pegam um jantar artificial em uma loja de conveniência, e estão de volta às suas casas de 15m².

É claro que estou generalizando, mas, para mim, essas mini casas refletem o jeito de viver da maioria dos japoneses nas grandes metrópoles, a maneira como interagem com outros indivíduos, os valores culturais que carregam… É impossível fazer comparações com nossa sociedade e com a nossa cultura, tamanhas variáveis envolvidas. Só cabe a nós observar e refletir sobre esse país tão fascinante que é o Japão.

* Juliana é arquiteta e urbanista, bailarina e uma apaixonada por viagens e cultura.

  • Bairro Akihabara, Tóquio
  • Museu Nacional de Tóquio
  • Edo Open Air Architecture Museum
  • A autora, Juliana Litwinski de Oliveira

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