VIAGENS | A bela e tranquila Assunção

Meu tio Clóvis tinha pouco mais de 30 anos quando comprou uma motocicleta, largou tudo e saiu pela América Latina (como o Che, do filme Diários de Motocicleta). Muito tempo depois, quando atravessava o Paraguai, adoeceu e foi salvo por uma bondosa farmacêutica de Assunção, que o tratou e o acolheu na casa de sua mãe.

A vida de aventureiro do meu tio terminou naquele dia. Pelas próximas quatro décadas, a farmacêutica Ermínia seria sua esposa, amiga e, desconfio, um pouco sua mãe, posto que meu tio continuou, até o fim dos seus dias, agindo como um menino levado…

Nas poucas vezes em que voltou ao Brasil, para rever a família, meu tio falava maravilhas de Assunção. Contra todo nosso preconceituoso ceticismo, afirmava que Assunção era uma das melhores cidades para se viver na América do Sul, a qual, afinal, ele conhecia bem. Antiga, bonita, limpa, tranquila e segura até os anos 1970, era o seu paraíso.

Ai de quem falasse mal de Assunção perto do meu tio – era logo desafiado a conhecer a capital paraguaia e tirar suas próprias conclusões, antes de repetir os clichês maldosos com que os brasileiros costumam brindar o país vizinho.

Foi o que fiz há pouco mais de dez anos. Numa viagem de trabalho, passei um final de semana em Assuncão. E qual não foi minha surpresa quando deparei com uma cidade bonita, muito verde, estendida placidamente às margens do Rio Paraguai, e habitada por uma populacão amável e atenciosa, tal como a descrevia meu tio. O velho Clóvis já não vivia, mas lembrei muito dele e de seus comentários sobre o lugar que escolhera para viver.

No domingo pela manhã, o Centro Histórico, com seus prédios antigos bem cuidados e ruas impecavelmente limpas, estava quase deserto. Era possível passear tranquilamente a pé pelas ruas sem carros. A vista de barcos balançando preguiçosamente no rio, ao pôr do sol, completava o belo cartão postal urbano.

Longe do centro, avenidas largas e arborizadas abrigavam casarões da elite local, alguns com arquitetura antiga bem preservada, contrastando com o estilo modernoso dos novos shoppings centers. Boa comida e cerveja importada sempre bem gelada eram facilmente encontradas em qualquer boteco.

Pobreza? Claro que havia, como em qualquer capital sul-americana, mas nada a que nós brasileiros não estivéssemos bastante familiarizados. A maior dificuldade era entender a língua local: um espanhol mesclado com guarani, falado com muita rapidez. Fora isso, só não gostei do calor. Forte, mesmo nos meses de inverno.

Nunca mais voltei à Assunção. Não faço ideia de como se encontra hoje a capital do Paraguai, depois das tantas crises econômicas e políticas que assolaram a América Latina nas últimas décadas. Mas espero que a cidade ainda guarde um pouco da beleza tranquila que encantou meu tio.

Gostou? Deixe um comentário: