VIAGENS | A Festa da Vindima de Mendoza

Quase todas as regiões vinícolas do mundo comemoram, desde tempos imemorais, a colheita das uvas destinadas à elaboração do vinho. Mas poucas celebrações de vindima, em qualquer país, atingem o nível de grandiosidade da Fiesta Nacional de la Vendímia, realizada todos os anos, no final do verão, em Mendoza, na Argentina. Para os mendocinos, povo que transformou o deserto aos pés da Cordilheira dos Andes em um extenso vinhedo, esta é a maior festa do gênero no planeta. Depois de conhecê-la, é impossível duvidar deles.

Uma longa história

A história das festas argentinas da colheita da uva remonta ao século 17, quando os mendocinos agradeciam a Deus pelas boas safras, que garantiam frutas saudáveis e suculentas para a elaboração dos adocicados vinhos de missa. Já naquela época havia muita música, danças, bebidas e comidas típicas. E a escolha das primeiras “reinas de la vendímia”, realizada entre as jovens agricultoras que colhiam as uvas. Como evento oficial da região, a Fiesta Nacional de la Vendímia está chegando aos 80 anos – nasceu em 1936.

De lá para cá, a celebração só cresceu. Os festejos duram nada menos do que dez dias, com desfiles de carros alegóricos pelas ruas da quarta maior cidade argentina, festivais gastronômicos, visitas a 120 vinícolas (bodegas) regionais, degustações, shows e uma grande festa popular, na qual os mendocinos escolhem a sua Rainha da Vindima – um título tão ou mais importante, para as belas jovens locais, como o de Miss Universo, como me disse um motorista de táxi. O evento é considerado hoje uma das maiores festas populares do mundo, como o Carnaval de Veneza, o Ano Novo Chinês e a Oktoberfest da Alemanha. Digno de uma das mais importantes regiões vinícolas contemporâneas.

A festa da Rainha da Vindima

Neste ano, tive a satisfação de acompanhar a Festa da Vindima de Mendoza, a convite da FeCoVita, a maior federação de cooperativas de vinhos do país. A FeCoVita reúne 29 cooperativas, mais de 5 mil associados, e processa 250 milhões de litros de vinhos por ano – um terço da produção vinícola argentina. Uma potência do setor. Já tinha lido sobre a festa, assistido a vídeos, sabia que se tratava de um grande evento – mas não imaginava que fosse tão espetacular e emocionante ao vivo.

A grande festa da Vindima de Mendoza acontece sempre num final de semana de março. No sábado pela manhã desfilam pelas ruas da Cidade de Mendoza – a histórica capital da Província de Mendoza – milhares de pessoas, a pé, a cavalo, em veículos e carros alegóricos, que distribuem frutos e produtos agrícolas aos espectadores que os aplaudem ao longo de uma extensa avenida. O desfile dura mais de quatro horas.

A apoteose dos festejos ocorre no sábado à noite. É a festa da escolha da Rainha da Vindima. O palco deste magnífico espetáculo é o Teatro Grego Frank Romero Day, um bonito anfiteatro ao ar livre, localizado em um parque da cidade. Mais de 1.500 bailarinos, músicos e técnicos encenam um show grandioso, com cerca de cinco horas de duração (comparável aos espetáculos de abertura de uma Copa do Mundo), para um público estimado em 30 mil pessoas.

Após o show, começa a escolha da Rainha da Vindima. Nesta ano, eram 17 candidatas, indicadas pelos diversos departamentos que compõem a Província de Mendoza. Os fãs clubes das candidatas torcem pelas garotas como se vibrassem com a seleção argentina numa final de Copa do Mundo. É uma festa popular emocionante para um estrangeiro que participa dela pela primeira vez, como eu.

Ao ingressar no Teatro Grego, colorido por bandeiras e bastões iluminados, a vibração da multidão impressiona. O grupo de convidados da FeCoVita, do qual eu fazia parte como único brasileiro, se acomodou em meio à torcida organizada da candidata do Departamento de Junín. Perguntado para quem eu torcia, não tive dúvidas: disse que torceria para a candidata de Junín, claro. O pessoal adorou.

Para minha grata surpresa, depois de um escrutínio cheio de suspense, a vencedora anunciada foi justamente a candidata de Junín –  Rocío Tonini, uma bela morena longilínea de pele clara e olhos verdes. Nos abraçamos e nos cumprimentamos como velhos amigos. Saí do anfiteatro cansado, mas feliz por ter participado da alegria daquela gente calorosa que tão bem me acolheu.

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