VIAGENS | Recuerdo de um terremoto no Chile

Conheci lugares lindos em muitos anos de viagens profissionais, mas o Chile me cativou sobretudo pela beleza de suas paisagens. Do deserto de Atacama, no Norte, à região dos Lagos, no Sul, a estreita faixa de terra entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico – “larguíssima”, como dizem os chilenos – é pródiga em cenários naturais deslumbrantes.

Além de bonito, o Chile tem um povo culto e educado, frutas, pescados e vinhos excelentes. A economia é um modelo de sucesso na América Latina há décadas, e a democracia chilena vai muito bem, obrigado. Mas, nenhum país é perfeito: o Chile tem terremotos.

Numa das vezes em que estive no Chile, senti a terra tremer sob meus pés. Um tremor de pequena intensidade, soube depois, mas nem por isso menos perturbador. Isso foi em 2001.

Meu voo entrou no Chile pelo Norte. Sobrevoei o magnífico deserto de Atacama (paisagem que me lembrou a superfície avermelhada de Marte, nas fotos da Nasa) e pousei em Iquique, escala para Santiago. O aeroporto de Iquique fica longe da cidade, de modo que, durante a aproximação, se tem a sensação de que o avião vai pousar na areia do deserto.

Após uma longa espera, voei para Santiago, onde cheguei à noite. Caí na cama e dormi. No café da manhã, as TVs só falavam do terremoto que arrasara parte de Iquique na véspera. Não podia acreditar: eu estivera por cerca de três horas em Iquique justamente naquela tarde (a terra deve ter tremido após minha partida).

Ainda perplexo com as notícias do terremoto, senti uma espécie de tontura, seguida de um pequeno enjoo, enquanto me servia de café. A sensação se repetiu. Perguntei a um funcionário do hotel se ele também sentia algo estranho,  e ele confirmou. Sim, a leve oscilação do prédio era possivelmente uma “réplica” do terremoto de Iquique, que ainda reverberava em Santiago.

Terminei meu café com a estranha sensação de ter experimentado, pela primeira vez na vida (e espero que última), uma manifestação, ainda que muito discreta, da força descomunal das entranhas vivas da Terra. Só voltei a me sentir seguro bem mais tarde, quando entrei em um pequeno café e bebi a primeira taça de um encorpado Cabernet Sauvignon local.

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