VIAGENS | Turista acidental

Por conta do meu ofício, sempre viajei muito. Jornalista, principalmente repórter, tem qualquer coisa de cigano. Vira e mexe está na estrada. Ou acima das nuvens.

Eu passei boa parte da minha vida em quartos de hotel, às vezes muito longe de casa. Há algum tempo me dei ao trabalho de calcular quantas noites teria dormido em hotéis – “estrelados” ou não. Na ocasião, já eram quase três mil noites passadas em camas de aluguel. Algumas, maravilhosas; outras, péssimas. Todo esse vai-e-vem poderia ter feito de mim alguém viciado em viagens – ou avesso a elas. Nem uma, nem outra.

Aindo gosto de viajar. Mas, curiosamente, não gosto de “turismo”. Viagem, para mim, sempre foi algo associado ao trabalho. Se tiver que deixar o conforto de casa, esperar horas por um voo em um aeroporto lotado e percorrer milhares de milhas  apenas para circular por um cartão postal, esse lugar tem de ser muito especial para valer a pena. Não chego ao ponto de concordar com o Millôr Fernandes, que escreveu: “Viajar é coisa de gentinha”. Mas acho que a geração globalizada superestima o valor do turismo.

Talvez o meu problema seja esse: não gosto de me sentir “turista”. Nem de lugares “turísticos”. O turista típico, com uma máquina fotográfica a tiracolo, sempre me pareceu alguém meio bobo, deslocado do seu ambiente e, por isso mesmo, presa fácil de arapucas montadas especialmente para achacar turistas embasbacados. O assédio comercial que cerca o turista incauto me incomoda profundamente.

Em uma cidade desconhecida, a trabalho ou em férias, prefiro me misturar a gente local. Comer o que eles comem. Frequentar os lugares em que eles se divertem. Fazer o que fazem os “nativos”. Parecer, enfim, um deles. Não é fácil bancar o camaleão em “ecossistemas” tão diversos do meu – mas tento. E acho que consegui isso em lugares tão diferentes entre si como Jerusalém, Zurique, Buenos Aires, Paris ou Cuiabá.

O segredo? Nada de mais. Talvez alguma discrição no jeito de vestir, de falar em público, de agir. Nada de bermudões, camisas coloridas, chapéus exóticos, tralha eletrônica e, principalmente, “programas obrigatórios” em bando. Se o momento exige um registro para a posteridade, a câmera do celular é suficiente. Sacolas de compras, nem pensar. Aliás, para que carregar bugigangas se, com a globalização, a gente encontra os mesmos produtos no shopping perto de casa?

Colegas devem me achar pão-duro, porque não compro nada em viagem (a não ser as indefectíveis lembrancinhas para os familiares). Admito: sou um viajante chato, que não se deslumbra com o que vê; que implica com isso e aquilo, e que só começa a curtir pra valer a viagem depois que regressa. O poeta uruguaio Mario Benedetti resumiu magnificamente essa minha idiossincrasia nos seguintes versos: “Viajo como los nómades / pero con una diferencia / carezco totalmente de vocación viajera”.

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