VINHOS | Uma grande noite com a Confraria do Sagu

As confrarias de vinhos se multiplicam pelo Brasil. No Rio Grande do Sul, onde o consumo per capita de vinho é quatro vezes superior à média nacional (8 litros por habitante ao ano contra cerca de 1,8 no país), este fenômeno é mais antigo – sobretudo na Serra Gaúcha. Há confrarias de todos tipos. Algumas, formadas exclusivamente por homens, por mulheres, por categorias profissionais (médicos, advogados, jornalistas…). Outras, que se dedicam, por exemplo, a provar e avaliar apenas um tipo de vinho (espumantes, licorosos, franceses, chilenos, brasileiros…). Eu participo de um confraria, a Bon Vin, bem eclética. Quase todos esses grupos têm em comum o gosto adicional pela gastronomia e pelo convívio social.

Vinho na terra da cerveja

Outro dia, fui convidado pelo jovem empresário do setor automotivo, chef e autor do blog Eu, Gourmet, Emerson Hass, para participar de um dos encontros mensais da Confraria do Sagu, em Santa Cruz do Sul. Cidade próspera e muito bonita do Interior gaúcho, com presença marcante da imigração alemã no Estado, Santa Cruz realiza todos os anos uma das mais famosas Oktoberfest do país. É a terra da cerveja, por excelência. Mas, quem disse que quem gosta de uma loira gelada não pode apreciar um bom vinho?


A Confraria do Sagu

A simpática Confraria do Sagu está aí para demonstrar que, mesmo na terra do chope, o vinho fascina e encanta as pessoas sensíveis à sua história, sua cultura, suas propriedades medicinais e, claro, ao prazer que a bebida proporciona. Dos 12 integrantes da Confraria, pelo menos oito são médicos (há, também, um juiz de direito, e empresários), o que confirma  que o consumo – moderado – de vinho, de fato, faz bem a saúde. Tantos médicos, e centenas de pesquisas científicas pelo mundo afora não podem estar errados.

O encontro se deu na acolhedora residência do confrade Francisco Sandor Hoppe.  Relatei aos amáveis enófilos um pouco das minhas vivências no mundo do vinho, e logo partimos para a degustação da noite. O tema eram os vinhos brasileiros da inesquecível safra 2005. Provamos nove rótulos de tintos gaúchos, às cegas. Todos estavam em excelente forma e foram servidos na temperatura correta, em taças ISO.

Champagne na abertura dos trabalhos

Antes da seqüência de tintos, porém, a “abertura dos trabalhos” (para preparar a boca para o que viria) ocorreu com dois excelentes espumantes, também servidos com rótulos ocultos: um gaúcho Valmarino & Churchil Brut Lote V e um Champagne Gosset Brut Grande Rèserve. Gostei mais do brazuca – simplesmente soberbo. Ainda provaríamos um espumante Guatambu Nature e, ao final da noite, mais um late harvest  Azru Tokaj, além de um espumante Dal Pizzol. A Confraria também me proporcionou a satisfação de degustar uma garrafa do vinho Primeira Viagem, que elaborei com outros colegas no curso Winemaker, da Vinícola Miolo, em 2013.

Os vinhos da noite

Os nove vinhos da noite foram: Valduga Storia, Boscato Merlot Gran Reserva, Valmarino Gran Reserva, Gheller Vitral, Pizzato DNA 99, Miolo Lote 43, Don Laurindo Reserva Família e Décima Gran Reserva. O destaque foi o Décima, elaborado com as uvas  Cabernet Sauvignon, Tannat, Merlot,  Pinotage e Cabernet Franc, pelo enólogo Alejandro Cardozo. Foi considerado o melhor por nove dos 13 participantes da degustação. De fato, foi o que se mostrou mais equilibrado, e o que realmente ganhou mais finesse após nove anos de garrafa. Sem demérito dos demais, que também apresentaram ótimas qualidades no nariz e em boca, um belo vinho!

O jantar

Nossa degustação ocorreu juntamente com um impecável jantar, preparado pela chef Glaura Hoppe, filha de Sandor. O menu teve, de entrada, um mix de folhas verdes escoltado por um delicioso Quiche Lorraine e, como prato principal, um magnífico Cordeiro Patagônico. De sobremesa, pudins de doce de leite espetaculares –  receita de família -, elaborados pela esposa do anfitrião, dona Carmem. Delícias para deixar de lado qualquer dieta e fruir um dos melhores prazeres da vida.

Por que Sagu?

A esta altura, muitos devem estar se perguntando: mas, afinal, porque a Confraria tem o nome de Sagu? Ora, quem já comeu sagu sabe que a popular sobremesa é composta basicamente  por vinho e fécula de mandioca – as “bolinhas”. Bem, como esta e uma confraria de amantes do vinho, formada exclusivamente por homens, talvez não seja necessário explicar a alusão ao sagu, não é mesmo?

Fotos: Emerson Hass e Glaura Hoppe

 

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