VINHOS | Viticultura biodinâmica valoriza terroirs e vinhos

Os fundamentos da  agricultura biodinâmica, propostos por Rudolf Steiner em 1924, durante o curso agrícola que ele ministrou em  Koberwitz/Breslau-Alemanha, para um grupo de agricultores, foi um marco na história da agricultura e evidenciou a necessidade de resgatar aspectos  esquecidos pela modernidade da agricultura daquela época, baseada no uso de adubos químicos solúveis e toda a gama de fungicidas, inseticidas e herbicidas,  para se  produzir alimentos. Que, embora fossem visualmente “bonitos”, tinham e têm ainda hoje menor qualidade nutricional e principalmente baixa vitalidade.

O que a agricultura biodinâmica defende é vivificar o solo, adubar a terra e não adubar as plantas, promover o equilíbrio vital entre as plantas e a pecuária, e usar as relações entre o crescimento das plantas e o cosmo, tratando a propriedade rural como um indivíduo.

No caso da viticultura e da enologia, o uso dos princípios da biodinâmica permitiu produzir uvas  de plantas equilibradas, com mais sabor e com aromas varietais típicos mais evidentes e com uma maior vitalidade. Consegue-se com isso valorizar e expressar de forma evidente cada terroir e os vinhos elaborados com essas uvas e que são fermentados de forma mais natural, ou seja,  com as leveduras autóctones da própria uva, sem a adição de  levedura selecionada e nem de  ativantes  de fermentação e com baixa adição de dióxido de enxofre, apresentam aroma intenso e franco e um sabor equilibrado, persistente e uma característica sensorial diferenciada dos vinhos elaborados com o manejo tradicional.

Mas porque o Brasil só agora começa a produzir vinhos biodinâmicos?

O desconhecimento e a dificuldade em entender inicialmente os fundamentos da Biodinâmica certamente contribuiu muito para isso.  Outro fator importante é, indiscutivelmente, o medo das doenças fúngicas das videiras e a idéia generalizada de que o clima da principal região vitícola brasileira é úmido e que as folhas, inflorescências e os cachos precisam ficar praticamente sempre “cobertos” de fungicidas para que seja possível colher uvas.

Mas a questão fundamental e que diferencia a viticultura biodinâmica é a constante preocupação em “vivificar” o solo,  melhorando a sua vitalidade, fertilidade e características físicas bem como promover o crescimento das plantas com um vigor equilibrado.

Para isso, o viticultor precisa aproveitar os recursos disponíveis naturalmente dentro da propriedade destinando os restos de culturas e principalmente da própria videira como os  galhos de poda e as cascas das uvas, assim como o bagaço oriundo do processo de elaboração dos vinhos para servir, juntamente com uma pequena quantidade de uma fonte de nitrogênio de origem animal (preferencialmente esterco de gado), para a montagem de uma pilha de composto biodinâmico onde ocorrerá um processo natural de fermentação e de humificação e esse composto será utilizado, posteriormente,  no próprio vinhedo para adubar o solo.

A videira que cresce em um solo vivificado e  equilibrado, e onde o viticultor pratica um manejo vitícola específico, fazendo uso  dos preparados chifre esterco (PB500) e chifre sílica (PB501), bem como do uso racional do sulfato de cobre e do enxofre,  tem maior resistência à doenças e pragas, os frutos apresentam uma casca mais espessa, e mais resistente à ruptura. É uma agricultura voltada a prevenção do desequilíbrio e, por consequência, das doenças.

O grande desafio da viticultura brasileira é justamente criar um diferencial próprio, que permita reconhecer os vinhos elaborados em cada região produtora do Brasil, e a biodinâmica é uma ferramenta extremamente potente para se alcançar esse objetivo.  O sucesso, porém, de um projeto de viticultura e de enologia biodinâmica depende do engajamento de toda equipe.

*Jefferson Sancineto Nunes é Eng. Agrônomo e Enólogo.

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