VINHOS | Brick House: uma vinícola francesa no Oregon

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Dizem que, na Borgonha, para reconhecer um produtor de vinhos é preciso olhar para as mãos. São homens ligados à terra, que administram pessoalmente tarefas ligadas à gestão das vinhas, ao cuidado do solo e ao processo de vinificação. Seus dedos ásperos e calosos, frequentemente sujos em tempo de colheita, refletem uma relação apaixonada com a produção de vinho. Considerando esse perfil, a Brick House foi a vinícola mais “francesa” que visitei em Ribbon Ridge, inclusive pelo perfil de fermentação natural (quase selvagem) de seus vinhos.

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A paixão do proprietário Doug Cornell pela viticultura orgânica é contagiante, e transparece em todos os detalhes da vinícola. Embora não tenha formação profissional em enologia, ele comemora ter aprendido muito através da observação, acompanhando as técnicas usadas por produtores de vinhos naturais e biodinâmicos. “Tive de superar o medo de não saber o suficiente. É preciso ter bom senso e, claro, aprender com quem sabe”, conta.

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Doug acredita firmemente que, se o produtor interferir o mínimo possível e simplesmente oferecer as condições necessárias para que a fermentação ocorra naturalmente, uma boa uva resultará em um bom vinho. Simples assim. Claro, para que isso aconteça a natureza precisa agir em todos os níveis: é preciso solo, clima, sol, leveduras e fermentação. E o maior inimigo desse processo é justamente o higienismo e a correção química excessiva de quem pensa a vinícola como um ambiente técnico e esterilizado.

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Ele se orgulha de ter iniciado sua produção em um antigo estábulo de cavalos, e de ter encontrado ali colônias naturais de leveduras que beneficiaram sua produção (há, inclusive, um estudo em andamento sobre as leveduras específicas encontradas em Brick House, algumas das quais ainda não haviam sido identificadas). Mas não se assuste: não estamos falando de uma produção de fundo de quintal. A qualidade dos vinhos dele foi repetidamente comprovada em competições locais e pontuada por revistas especializadas.

História
Doug é um jornalista aposentado que decidiu se dedicar à vinicultura. Numa época em que Ribbon Ridge ainda não havia merecido um nome no mundo do vinho, ele adquiriu a propriedade mais pela fama das montanhas de Chehalem, que abrigam a área. Ao escolher o local exato da vinícola, seu conhecimento sobre produção de vinhos ainda era pequeno, mas ele tinha clareza sobre o projeto. Doug adotou práticas orgânicas já em 1990, ao plantar as primeiras vinhas.

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Desde 1992, a Brick House mantém uma certificação 100% orgânica. Doug mora na propriedade e acompanha de perto todo o processo de produção. Duas sobrinhas suas trabalham na vinícola, ao lado de uma equipe pequena e dedicada: Savanah (responsável pela armazenagem e envelhecimento dos vinhos) e Chloe (ainda aprendiz, mas interessada nos processos da produção).

A altura média da propriedade é de 130 metros, com vinhedos plantados em encostas leves e voltados para lados diferentes. Pela manhã, a área fica recoberta por uma névoa refrescante – mesmo nos dias longos de verão, ao estilo do que ocorre na Borgonha.

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Eles também cuidam da produção de uvas na propriedade dos vizinhos (os Halliday), administrando os vinhedos e vinificando as uvas organicamente. Esse tipo de prática de “boa vizinhança” rendeu a Doug a simpatia e uma opinião positiva de outros produtores da região, embora ele pareça pouco preocupado com a sua imagem – ele quer mesmo saber do resultado dos seus vinhos.

Entendendo o Oregon
Doug encarna a mesma aspiração a uma identidade local que os produtores de pequenas comunidades francesas. Em outras palavras, ele é um entusiasta do local, das particularidades dos vinhos de Willamette e Ribbon Ridge. “Temos muitas semelhanças com o clima da Borgonha, mas não o mesmo solo. Temos os mesmos clones de uva, mas não o mesmo vinho! Nosso vinho é do Oregon!”, exclama.

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Nessa linha, ele se define não como produtor ou proprietário, e sim como vinhateiro. Essa definição, mais usada em Portugal e menos no Brasil, é frequentemente empregada por aquelas pessoas que acreditam que o cuidado com o solo, com a vinha, com a uva e com a produção do vinho não podem ser pensados em separado. Ele acredita nessa continuidade, orgânica, entre a atenção dedicada a videira e o vinho que se bebe à mesa.

“Todo ano aprendo alguma coisa nova. Todo ano, minimizo o dano que posso causar à produção, fazendo erros menores”, resume o vinhateiro. Ele exemplifica esse aprendizado com seus conhecimentos sobre o solo: nas áreas mais ricas em depósitos basálticas (de origem vulcânica), ele foi aprendendo que o solo é mais profundo e retém umidade por mais tempo. O resultado são vinhas mais vigorosas (com maior folhagem) que por consequência vão ocasionar uvas mais ácidas se não forem adequadamente cuidadas.

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Por conta dessa filosofia, Doug prefere se concentrar em uma variedade menor de uvas e rótulos: “Se eu tiver variedades demais, não vou aprender tanto”, reflete. Atualmente, ele produz Pinot Noir, Chardonnay e Gamay (do qual está bastante orgulhoso). O resultado, são vinhos com bastante personalidade, algo potentes e provocantes no perfil aromático

Os vinhos
Gostar dos vinhos da Brick House é tão fácil quanto gostar de Doug. Não são aqueles vinhos intensos estilo “Coca-Cola”, e sim tintos e brancos que parecem convidar à reflexão. Enquanto degustávamos, tive a impressão de que era eu quem estava sendo entrevistado, e que o próprio Doug havia me chamado até ali para saber o que eu achava de seus vinhos. E ele se importa mais com as reações que observa do que com pontuações de revistas.

O Brick House Les Dijonnais 2014 tem visualmente a aparência de um Pinot tradicional. No nariz, algo de alcaçuz remete a Ribbon Ridge, mas predomina o morango, algo de nata e até de abóbora cozida. Em boca, a intensidade surpreende (contrastando com o visual e mais forte que no olfato), acrescentando ao perfil do nariz uma nota especiada intensa de noz-moscada. O final é longo e surpreendentemente agradável. Não à toa, esse vinho mereceu 94 pontos da Wine Spectator na safra 2015, atualmente comercializada.

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O Chardonnay deles é um vinho incrivelmente fácil, com aromas de frutas tropicais (banana e abacaxi), mas sem aquele peso cansativo dos Chardonnays da Califórnia. Como o próprio Doug apontou, seu interesse inicial na vinícola era, justamente, a produção de brancos, que el mais gostava de beber.

O Gamay foi o vinho que mais entusiasmou Doug durante a nossa conversa. É um vinho que todo enólogo se orgulharia de fazer: é fácil, leve e falsamente simples. Um vinho que se bebe com um prazer inocente, sem a necessidade de se fazer qualquer pergunta sobre origem ou estilo. Sim, é possível pensá-lo como um Beaujolais de qualidade, mas ele dispensa esse tipo de comparação. Ele é um “go-to wine” – expressão em inglês que define aqueles vinhos aos quais você pode recorrer sem medo e a qualquer hora, pois eles agradam em qualquer situação.

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Uma grande lição que aprendi sobre o mundo do vinho, anos atrás, é que a qualidade do trabalho de uma vinícola não deve ser medida apenas pelo seu melhor vinho. Às vezes, o melhor critério para avaliar o trabalho de um produtor é o seu vinho de entrada. Lembrando disso, saí da Brick House muito contente com a minha visita, feliz em ver que Ribbon Ridge tem vinhateiros de verdade.

alvaro lima, jornalista, movidoavinho

Álvaro Lima é Jornalista e Sommelier WSET nível 3. Ele atua como editor do blog Movido a Vinho e organiza degustações por meio da Confraria Anônima. A coluna é uma extensão do projeto Caminhos do Vinho, que reúne relatos de viagens por vinícolas ao redor do mundo. Com o tempo, esperamos que você possa usar as dicas desta coluna para planejar suas viagens ou escolher um vinho novo para experimentar - explorando regiões diferentes e opções que cabem no seu bolso. Compartilhe suas impressões pelo e-mail alvinho@movidoavinho.com.br
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