VINHOS | Bye bye, California. Hello, Oregon State!

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Olá, amigos, seguimos hoje nossa viagem pelos vinhos do Oregon. Quem chegou aqui agora, sugerimos a leitura do primeiro post 😉 para saber como nossa aventura começa. 

Responsável por mais de 90% da produção de vinhos dos Estados Unidos, a Califórnia é vítima do próprio sucesso. O estado se aprofundou num estilo favorecido pelo clima quente, com bebidas intensas e amadeiradas, muitas vezes algo cansativas. A fama da Califórnia também elevou o preço dos seus vinhos no mercado internacional, assim como o custo do turismo na região. Na fronteira norte da Califórnia, o estado do Oregon parece ter escapado dessas tendências.

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A latitude mais elevada no Oregon é responsável por temperaturas médias mais frias ao longo do ano, dificultando a produção das mesmas variedades de uva bordalesas que são plantadas na Califórnia (como Cabernet e Merlot). O relevo acidentado, por sua vez, é pouco propício à agricultura mecanizada e à produção industrial aplicada no estado vizinho. Por essas razões, a viticultura local demorou um pouco mais para se estabelecer e encontrar uma vocação.

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Foi apenas em 1966 que o pioneiro David Lett introduziu o Pinot Noir em uma região hoje conhecida como o coração da Área Viticultora Americana (AVA) de Willamette Valley. Nos 50 anos que transcorreram desde então, os desafios do clima e do solo favoreceram estruturas de negócio familiares, mais modestas do que na Califórnia. Até hoje, a maioria das vinícolas existentes ainda é de médio e pequeno porte. “Cerca de 70% das vinícolas do Oregon produzem até 5 mil caixas de vinho por ano”, conta Michelle Kaufmann, que foi assessora de imprensa do Vale do Willamette por meia década antes de ser contratada por uma vinícola local.

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Willamette e o segredo dos solos

O Vale de Willamette concentra 75% dos vinhedos e quase 90% da produção de Pinot do Oregon. Ele se estende do norte ao centro do estado, entre dois marcos geográficos relevantes: a oeste, junto ao mar, a cadeia montanhosa conhecida como “Coastal Range”, que protege a região da influência marítima excessiva. A leste, para dentro do continente, outra cadeia de montanhas mais altas, a “Cascade Mountains”, que impede o efeito conhecido como “continentalidade” (evitando temperaturas altas demais e preservando alguma umidade nos períodos em que as videiras precisam). Para o turista, esses acidentes de relevo também representam belas paisagens e colinas verdejantes, que podem ser observadas por todo o Vale e tornam a visita ainda mais interessante.

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Lett estava convencido de que o clima e a latitude de Willamette eram ideais para a produção de Pinot, e dedicou sua vida a prová-lo. O que tornou o Vale de Willamette único, entretanto, foram os últimos 30 milhões de anos de evolução geológica, em que uma intensa ação das placas tectônicas produziu diferentes tipos de solo na região. Há algumas áreas basálticas expostas (solos vulcânicos, que compõem a camada mais profunda do solo), mas a maior parte das vinhas famosas de Pinot está plantada em áreas recobertas por sedimentos diversos: aluviais-argilosos (caso de Dundee Hills), oceânicos (Ribbon Ridge) ou de Loess (partículas finas de terra carregadas pelo vento, em locais como Chehalem).

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Essa diversidade favorece a diferenciação entre os vinhedos e é responsável pela existência de várias sub-AVAs famosas (são seis no Norte do Vale). Embora muito próximas entre si, as duas regiões que visitamos em Wilamette produzem estilos de vinho nitidamente diferentes. Ribbon Ridge é responsável por rótulos intensos e profundos, mas sisudos se comparados ao restante de Willamette. Mesmo em anos quentes, as notas de frutas e flores são menos efusivas e parecem estar se guardando (ainda fechadas) para dali a alguns anos. Já em Dundee Hills há uma presença quase exagerada dessas notas convidativas. Rosas, frutas vermelhas e especiarias doces aparecem em profusão e tornam os vinhos mais sedutores, mesmo quando jovens. Apesar disso, são vinhos que já provaram ser capazes de sobreviver à prova do tempo.

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Diversidade no Oregon

Além do Pinot, há produtores fazendo sucesso em todo o vale de Willamette com a produção de Chardonnay, Pinot Gris e Pinot Blanc. Uvas como Riesling e Gewustraminer, adaptadas a essa latitude na Alemanha, perdem algo da complexidade e ficam um pouco alcóolicas nesta região. Apesar disso, ainda há bons exemplares, assim como um ou outro vinho de colheita tardia mais interessante. Os mais curiosos podem até encontrar exemplares de vinho laranja, com os quais alguns produtores de Willamette vêm experimentando.

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O Oregon conta com outras áreas de produção de vinho, mas elas ainda não conseguem competir em qualidade com Willamette. No nordeste do Estado, há uvas sendo plantadas para vinificação em Washington State, nas proximidades do Rio Columbia. Nessa parte, o clima é mais seco e continental, mudando as uvas plantadas e o estilo dos vinhos. Ao Sul, imediatamente abaixo do Vale de Willamette, há outra AVA grande chamada Southern Oregon (com as suas subdivisões), porém ali o Pinot não amadurece tão bem, nem as variedades californianas parecem ter se adaptado.

Na nossa próxima postagem, vamos falar um pouco mais de Dundee Hills e nos aprofundar no estilo de vinho produzido ali. Você vai entender melhor por quê esses Pinots se diferenciam daqueles plantados na Borgonha (França) e qual a razão para eles estarem se consolidando como alguns dos melhores Pinots do mundo.

alvaro lima, jornalista, movidoavinho

Álvaro Lima é Jornalista e Sommelier WSET nível 3. Ele atua como editor do blog Movido a Vinho e organiza degustações por meio da Confraria Anônima. A coluna é uma extensão do projeto Caminhos do Vinho, que reúne relatos de viagens por vinícolas ao redor do mundo. Com o tempo, esperamos que você possa usar as dicas desta coluna para planejar suas viagens ou escolher um vinho novo para experimentar - explorando regiões diferentes e opções que cabem no seu bolso. Compartilhe suas impressões pelo e-mail alvinho@movidoavinho.com.br

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