VINHOS | Com Coca-Cola, sucos ou gelo?!

Chandon

O tema deste post é delicado. Polêmico, até. As reações vão do escárnio à indignação. Por isso, todo cuidado ao abordá-lo é pouco. Mas, se o objetivo é dessacralizar a imagem do vinho para torná-lo uma bebida popular, de amplo consumo, não há porque não enfrentarmos este desafio de peito aberto. A questão é: o vinho pode ser misturado com outras bebidas, como sucos ou refrigerantes, por exemplo? Ou bebido com gelo, como o uísque? Eu avisei que o assunto é polêmico…

Há algum tempo, causou revolta entre os enófilos do mundo a notícia (nunca confirmada, diga-se) de que a cantora Madonna e seus amigos bebiam Petrus antigos “cortados” com Coca-Cola no La Tour D’Argent, em Paris. David Ridgway, chef-sommelier do famoso restaurante (que possui uma adega com mais de 400 mil garrafas) negou, tempos depois, que alguma vez tivesse servido vinho com refrigerante à diva pop. Disse mais: o templo sagrado da gastronomia francesa nem serve Coca-Cola.

Ok, se Madonna não faz isso, sabe-se que muitos chineses nouveau-riches, que compram Bordeaux caríssmos para impressionar seus compatriotas, adicionam Coca-Cola a esses vinhos para torná-los mais palatáveis ao seu gosto infantil. E dai? Eles têm dinheiro para joga fora? Ou, como reza o dito popular, gosto é gosto e ninguém tem nada com isso?

A verdade é que o vinho nem sempre foi consumido puro. Os gregos antigos, por exemplo, o bebiam misturado com mel, ervas, especiarias e até com a água salgada do mar. Tempos atrás, fez muito sucesso no Brasil um mix de vinho e sucos de frutas, comercializado pela vinícola gaúcha Aurora com o nome de Keep Cooler. Coquetéis de espumantes com sucos, frutas e outras bebidas são muito apreciados atualmente nas baladas das grandes capitais.

Em Portugal, a moda é beber Portonic, um refrescante drinque que mescla o tradicionalíssimo Vinho do Porto (na versão branco) com água tônica, gelo, uma rodela de limão ou lima e uma folha de hortelã. O pessoal jovem adora.

Os espanhóis bebem muito vinho com Coca-Cola. Eles têm até um nome para o inusitado drinque: Calimocho. Os portugueses chamam este improvável blend de Traçadinho.

Muita gente bebe vinho desta maneira em todo o mundo – menos os franceses, claro. Mas a tradicional Casa Moët & Chandon lançou um Champagne, o Impérial Ice, para ser bebido com gelo. Tudo isso tem turbinado as vendas de vinhos pelo mundo.

Então, quer dizer que o vinho pode ser misturado com outras bebidas, como fazemos com a vodca, com o uísque, com a cachaça, e até com a cerveja? Claro que sim. Vinho é uma bebida como outra qualquer. Antes de mais nada, deve dar prazer a quem o bebe. Se este prazer vem de suas qualidades intrínsecas, da sua pureza original, por assim dizer, excelente!

Mas, se alguém decide, digamos, “customizá-lo”, para bebê-lo do jeito que mais lhe agrada, qual o problema? Minha manicure, por exemplo, me contou que bebe vinho batizado com água e duas gotinhas de adoçante, porque é assim que ela gosta. Ela está errada? Claro que não. Não existe “certo” ou “errado” quando falamos de gosto pessoal. Ninguém pode ser condenado pelo “crime” de beber vinho do jeito que gosta.

Pra finalizar, conto uma historinha: muito anos atrás, quando me iniciava no mundo de Baco, fui surpreendido pela lição de um expert em vinhos, autor de vários livros sobre o assunto. Era uma noite quente de verão, bebíamos um Chardonnay jovem, à beira da piscina de sua casa. Como o vinho não estava bem gelado, nosso anfitrião não teve dúvida: colocou uma pedrinha de gelo na taça.

Enófilo de primeira viagem, perplexo com aquela atitude, eu o questionei se o gelo não iria arruinar o vinho. Sabem o que ele me respondeu? “Mais de 80% do vinho é água; se adicionarmos algumas gotas a mais de água ao vinho, isso não fará a menor diferença…” Desde aquela noite, aprendi que as regras do mundo do vinho podem ser flexibilizadas sempre que necessário. O importante é beber vinho com prazer.

  • Porto

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