VINHOS | Competição e autoconhecimento: um olhar sobre Avaliação Nacional de Vinhos 2016

js5_9702

A vitivinicultura contemporânea brasileira começa na década de 1990. Isso não quer dizer, como muitos querem, que a vitivinicultura de qualidade tenha nascido no Brasil apenas no fim do século passado. Houve produção consistente de uvas viníferas de qualidade e elaboração de vinhos finos há, pelo menos, cem anos – mas isso é assunto para outros textos. Voltemos à contemporaneidade: gostaria de escolher um marco para o renascimento da vitivinicultura de qualidade no Brasil. Não tenho certeza de qual seria a melhor escolha, mas tenho algumas ideias. Poderia ser o Baron de Lantier safra 1991, o primeiro grande vinho dessa Era. Outra possibilidade, a Indicação de Procedência Vale dos Vinhedos, consolidando a atual situação. Dentre outras que me ocorrem, hoje, prefiro destacar a primeira Avaliação Nacional de Vinhos (ANV).

– Veja quais foram os 16 vinhos degustados pelo público na Avaliação Nacional de Vinhos

Desde 1993, a Associação Brasileira de Enologia (ABE) organiza o evento que se tornou o maior evento do vinho brasileiro. Veem-se sorrisos, abraços e frases do tipo “que bom te encontrar aqui”. Misturam-se enólogos, sommeliers, jornalistas, críticos, proprietários de vinícolas, seus filhos, amantes do vinho, autoridades e plebe, somando quase mil pessoas. É claro que os resultados da avaliação são usados posteriormente na guerra de mercado. Os vendedores e marqueteiros precisam ouvir uma lição infantil: isso não é uma competição. Está no nome, é uma avaliação, não uma competição. Avaliam-se os vinhos da safra, para saber como a safra foi e os enólogos aprenderem uns com os outros. Não é por nada que após a ANV, a qualidade dos vinhos brasileiros aumentaram exponencialmente e as medalhas multiplicaram-se nos concursos internacionais.

Na verdade, até se pode considerar a ANV uma disputa. Mas não qualquer uma: aquela em que os competidores sabem o verdadeiro significado de competir: a busca pelo autoconhecimento e pelo aprendizado. “Nunca te orgulhes de haver vencido a um adversário, ao que venceste hoje poderá derrotar-te amanhã. A única vitória que perdura é a que se conquista sobre a própria ignorância.” A frase é do mestre Jigoro Kano (1860-1938), fundador do Judô e representa exatamente o espírito que quem compete deve ter. Por isso, a ANV é muito mais importante do que qualquer concursos. Lá, há um profundo processo de aprendizado com cada safra, no qual se constrói o conhecimento coletivo que eleva o vinho brasileiro como um todo.

Tal processo de aprendizagem é especialmente valioso em anos difíceis como este. A safra 2016 foi desafiadora para os produtores brasileiros, especialmente para os gaúchos. Há produtores que perderam 70 ou até 80% de suas produções de uvas – um prejuízo enorme. Infelizmente, essas perdas não foram só em volumes, houve uma dificuldade maior para a busca da qualidade das uvas e dos vinhos. As uvas que precisam de mais tempo para amadurecerem, as tardias, foram ainda mais complicadas. No entanto, esses 24 anos de ANV não foram em vão, os nossos enólogos estão muito preparados para lidar com as dificuldades de uma safra complicada e nos brindaram com excelentes surpresas que, em breve, estarão no mercado.

Para resumir o evento, vou citar os vinhos que, a meu ver, mais se destacaram:

– Vinho base para espumante (Casa Venturini)
A Casa Venturini é presença contumaz na seleção dos 16 vinhos mais representativos da ANV. Os vinhos base para espumante sempre são os mais desafiadores, pois é difícil prever a qualidade do vinho espumante a partir de sua degustação, que exige muito conhecimento e experiência. Um vinho base para espumante tem que ter um aroma neutro, um toque de maçã verde aparece especialmente nos chardonay, como é o caso desse vinho. Em boca, pouco álcool e muita acidez. Esse foi, certamente, um bom representante da qualidade dos vinhos espumantes brasileiros.

– Chardonnay (Basso Vinhos e Espumantes)
O chardonnay amadurecido em barris de carvalho não é o estilo de vinho que mais agrada o meu gosto pessoal, no entanto, a Basso conseguiu uma excelente integração entre a complexidade da madeira e os aromas varietais da chardonnay. É comum alguns críticos tentarem restringir os seus elogios aos espumantes e vinhos brasileiros leves e frescos. Esse chardonnay encorpado e complexo é uma boa resposta sobre o potencial dos vinhos verde-e-amarelos.

– Sauvignon Blanc (Rasip Agroindustrial)
Um sauvignon blanc ao melhor estilo do Velho Mundo. Um aroma de complexidade floral, com leve toque herbáceo típico da cepa. A sua leveza e extremo frescor em boca me fizeram decidir ter um belo estoque deste vinho para o verão, caso seja lançado ainda neste ano. A minha empolgação foi tanta que lhe atribui a maior nota dentre os dezesseis vinhos degustados no último sábado.

– Tempranillo (Miolo Wine Group Vitivinicultura)
Temprano significa cedo, em espanhol. Tempranillo é uma variedade precoce, e as condições adversas da safra 2016 tornam o cultivo de tais cepas mais conveniente que outras. Um vinho que está ainda em tanques, mas já apresenta uma complexidade surpreendente e um equilíbrio impressionante. O melhor de tudo é que o enólogo Miguel Almeida, responsável pelo vinho, garantiu que será comercializado como varietal a apenas R$ 35,00. Uma excelente relação custo-benefício, como é o caso da maioria dos vinhos brasileiros.

– Cabernet Sauvignon (Guatambu Estância do Vinho)
Desde o seu primeiro vinho, a Guatambu demonstrou grande potencial em seu cabernet sauvingon, uma uva mais tardia, portanto, com ainda mais dificuldades nesta safra. Uma variedade de uva que só demonstra seu melhor potencial quando plenamente madura. A meu ver, o melhor dos tintos selecionados entre os 16 vinhos degustados na ANV, com um excelente potencial de guarda.

– Syrah (Vinícola Ouro Verde)
O único da minha lista que não esteve entre os 16 selecionados e, portanto, não degustado por mim. Destaco a sua presença na lista dos 30% mais representativos da safra 2016, por ser o único representante do nordeste. Uma excelente amostra da diversidade dos vinhos brasileiros e da habilidade de nossos enólogos em expressar qualidade em condições extremas.

Gostou? Deixe um comentário: