VINHOS | Consumidores japoneses de vinho: atentos e exigentes por qualidade e preço

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O pais do Sol Nascente, com um mercado de 127 milhões de habitantes, em 2015 incrementou suas importações de vinho em 2,2% em valores (114 bilhões de Yen) e 3% em volume (185.600 milhões de litros). Neste contexto a Itália detém o terceiro lugar, depois da França e do Chile para os vinhos tranquilos e após França e Espanha para os espumantes. Para as garrafas italianas o Japão é o sexto mercado, depois de Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Suíça e Canadá.

Confusão entre vinho de uva e vinho de fruta

Vinho de arroz

Vinho de arroz

Olhando as estatísticas podemos observar que, no começo da década de ’70, apenas se consumiam 11 milhões de litros. Atenção, no Japão com a palavra vinho não se identifica apenas a bebida obtida da uva, mas da fruta em geral. Até por conta disso é fácil compreender o quanto seja recente a chegada do “vinho de uva” nos hábitos alimentares japoneses.

O incremento no consumo do vinho de uva se deu em 1989, quando as vendas aumentaram até atingir o pico histórico de 298 milhões de litros. Uma quantidade exorbitante devida, no espaço de poucos anos, a diversos fatores entre os quais se destacam por importância: o ingresso naquele país de garrafas de vinho a preços relativamente baratos, o maior conhecimento do vinho por parte dos consumidores adquirida em viagens ao exterior, a crescente ocidentalização do estilo de vida mas, sobretudo, a divulgação, por parte da mídia local, dos efeitos benéficos do resveratrol no vinho tinto.

1988, o ano dourado para o consumo do vinho

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O incremento de venda foi tanto que, para fazer frente à demanda, não foi suficiente a quantidade disponível de vinho italiano, francês ou nacional, daí foi necessário recorrer à importação juntos aos países produtores então denominados de emergentes os quais, justamente por conta desse fato, conquistaram certa notoriedade sobretudo entre os novos consumidores.

Em 1988, por exemplo, as importações de vinho chileno deram um salto de 408% em valor, consolidando-se no tempo graças a excelente relação custo – benefício, tanto que ainda hoje, como disse acima, no caso dos vinhos tranquilos, ultrapassaram a Itália.

No final da década de ’90 as crescentes importações dos negociantes japoneses, provocaram um excesso de estoque com sucessiva retração, na ordem de 50%, comparado ao mítico ano de 1988. O viés de queda nas importações se manteve ao longo dos três sucessivos anos, até inverter a tendência em 2002, quando as importações voltaram a registrar incrementos na ordem de 11,8% em valores.

Em 2015 as importações de vinhos tranquilos (de uva) engarrafados aumentaram de 2,2% em valores alcançando 114 bilhões de Yen, como escrivemos antes, mas a recessão econômica e a tendência deflacionária, penalizaram os vinhos de alta gama, favorecendo aqueles mais econômicos.

Atualmente a escolha dos consumidores premia abundantemente os vinhos tintos (54%), seguidos pelos brancos (37%) e rosés (9%).

A cerveja ainda é a bebida nacional

Japanese beers

O vinho de uva, seja considerado alimento ou bebida, só nestes anos está entusiasmando os japoneses e portanto, embora lentamente, entrando em seus hábitos alimentares, por décadas sempre foi relegado a um mero ingrediente de base para os “vinhos de fruta”, geralmente doces

A pesar disso o consumo de vinho, embora em leve crescimento, continua relativamente baixo, não consegue alcançar os 3 litros/ano per-capite, incluindo nessa conta as bebidas produzidas com fruta diferente da uva. Além disso precisa salientar que os japoneses com relação ao vinho de uva estão se tornando cada vez mais atentos e exigentes, preferindo cada vez mais garrafas de qualidade a preço competitivo.

Os japoneses são grandes bebedores de cerveja que representa 31,4% das bebidas alcoólicas consumidas por lá, se considerarmos a cerveja em seus diversos aspectos e variadas declinações, a porcentagem alcança 50% do consumo.

O 75% do vinho consumido no Japão é importado. E os outros 25% vem de onde? Talvez poucos saibam que também o país do Sol Nascente produz vinho muito embora, como falei no começo do artigo, não atendam ao pé da letra as prescrições tradicionais.

Apostando no vinho nacional

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Certamente poucos de vocês sabem que o Japão também é produtor de vinho. Tudo começou em 1868, quando o governo procurou incentivar a produção para suprir a um período de carência de bebidas alcoólicas obtidas do arroz. Em 1877 foram enviados para França dois enólogos, Ryuken Tsuchiya e Masanari Takano, para aprender as técnicas de cultivo da videira e produção do vinho. De volta para o Japão puseram em pratica as noções adquiridas na primeira vinícola nacional japonesa: a Dainippon Yamanashi Budozake Kaisha.

Ao final de 1800 eram diversas as castas importadas da Europa e dos Estados Unidos, a grande maioria das quais mostrou-se inadequada ao clima e a virulência das pragas locais; assim começaram a selecionar variedades idôneas para aquele território. Entre essas variedades a casta branca de maior sucesso foi a “Muscat Bailey A”, obtida em 1927 por Zenbei Kawakami, enquanto recentemente, para as castas tintas, excelentes resultados foram conseguidos com o Kai Noir e a Koshu, branca, é muito utilizada na produção de vinhos nacionais.

Mesmo no Japão chegaram os varietais internacionais que, como no resto do mundo, se adaptaram bem. Entre os mais difundidos lembramos Merlot, Cabernet Sauvignon e Pinot Noir para os tintos e Chardonnay, Riesling e Semillon para os brancos.

Hoje a produção geral de vinho e, portanto, não apenas o tradicional fermentado do mosto da uva, se dá por 90% em cinco províncias do Japão. A concentração maior da superfície cultivada a videira fica na província de Yamanashi, não muito distante de Tokyo. Ao todo no Japão se contam cerca de oitenta vinícolas.

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rabachinoRoberto Rabachino Dr. PhD. em Ciências da Alimentação e professor universitário em diversas universidades do mundo. Presidente da IWTO com sede em Nova York e da FISAR con sede em PISA. Presidente dos jornalistas italianos do setor agroalimentar (ASA) com sede em Milão. Diretor responsável da revista "Il Sommelier". Em 2016, recebeu pelo Associação Brasileira de Enologia o Troféu Vitis, o mais importante prêmio relacionado ao vinho no Brasil, durante 24ª Avaliação Nacional de Vinhos de Bento Gonçalves. Escreve sobre vinhos.

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