VINHOS | De Torino à Puglia em 7 vinhos surpreendentes

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Cheguei a Turim na estação Porta Susa com chuva, frio e previsão de neve para as próximas horas. Torino (em italiano) é uma cidade grande, bonita, histórica, terra de Vittorio Emanuele II, o primeiro rei da Itália, pai da pátria. Com uma arquitetura linda e muita gente jovem, é cheia de vida. Por isso, nas poucas vezes em que estive lá, me perdi um pouco. Dessa vez, não foi diferente, corri de um lado para o outro em busca do ônibus, entrei sem bilhete, saí para comprar um, voltei e ele já tinha partido. Um pouco desiludido, ofegante e irritado, tomei um táxi ao Hotel Glis, onde fiquei hospedado a convite da Fisar Tonino. Chegando ao quarto, um kit caloroso preparado pelo Roberto Rabachino, com uma garrafa de espumante, um guia Slow WIne 2018, revistas Il Sommelier e um carinhoso recado de boas-vindas do professor.

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Naquela noite, degustamos vinhos da Apúlia (sim, em português é assim mesmo), o salto da bota. Uma região que deveria ser mais conhecida no mundo vitivinícola pela sua importância. É berço da uva Itália, aquela maravilha linda e deliciosa com cachos enormes que nos refrescam no verão. É terra de uma uva autóctone que foi elevada à categoria de uva internacional, ao lado de tradicionais uvas francesas. O que os americanos chamam de Zinfandel, é o tradicional Primitivo. Muitas vezes, os vinhos da Puglia são encontrados nas prateleiras de supermercados italianos a preços bastante econômicos, como acontece com grande parte dos vinhos do sul do pais. Devido ao seu alto nível alcoólico, tradicionalmente, vinhos baratos usados por regiões mais prestigiosas para corrigir o nível alcoólico de seus vinhos em certas safras.

Nessa degustação, no entanto, o Prof. Rabachino nos conduziu por um mundo de vinhos diferenciados, vamos a eles.

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1. L’eclettico – Azienda Agricola Paglione – Malvasia/ Bombino Bianco – Safra 2014

Para quem fica com um pé atrás quando encara um vinho laranja, esse caso pode provocar uma surpresa extremamente positiva. A impressão visual é típica desse tipo de vinho: amarelo escuro e bastante turvo. Basta aproximar a taça do nariz para descobrir uma complexidade de frutas num aroma envolvente de pêssego amarelo, damasco e figos. Agitando um pouco, revela-se um delicioso fundo floral e uma complexidade que lembra panetone. É um vinho um pouco quente em boca, mas com excelente acidez. No retro aroma, ainda se descobre toques de frutas vermelhas.

2. Ursa Major – Cantina Santa Barbara – Salento Bianco IGP – Sauvignon Blanc – Safra 2012

O amarelo claro, extremamente claro, desse vinho não deixa perceber que esteve 8 meses em barricas de carvalho e longos 18 meses na garrafa. A mineralidade do primeiro nariz intriga o degustador. Em busca da complexidade, descobre-se um aroma frutado, flores brancas e sobretudo ervas provençais que lembram alfazema e sálvia. Numa degustação às cegas, eu nunca diria que é um Sauvignon Blanc, já que os aromas da família vegetal não se apresentam de forma clássica. A presença do carvalho, muito delicada no nariz, só fica mais evidente na sua maciez em boca e na sensação de baunilha no retro aroma.

3. Tramari – Cantina San Marzano – Rosé di Primitivo – Salento IGP – Safra 2017

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Vinho recém engarrafado, esse rosado de pressurage foi o que mais me agradou da noite. A linda cor de pétalas de rosa já antecipava o que estaria por vir já no primeiro aroma, floral muito nítido de rosas. O bouquet se abre numa deliciosa complexidade para a família dos aromas frutados, com destaque para morango e amoras. O ataque em boca é levemente adocicado e com acidez equilibrada. No retro, uma explosão de frutas vermelhas.

George Clooney

A curiosidade desse vinho é que foi servido no casamento do George Clooney. Isso não muda nada no vinho, mas é mais um história para contar e assunto para desenvolver em torno dessa linda garrafa.

4. Cacc’e Mmitte di Lucera – Azienda Agricola Paglione – Caporale Rosso DOC – Uva di Troia/ Sangiovese/ Bombino Bianco – Safra 2014

No primeiro tinto da noite um corte extremamente interessante de duas uvas autóctones, uma tinta e uma branca, com a sangiovese. A cor, levemente clara, deixa evidente a presença da Sangiovese e de uma uva branca. No primeiro ataque aromático, frutas negras. Agitando-se um pouco o copo, sente-se a ardência do álcool um pouco desequilibrado, mas a evolução é agradável em aromas terciários, especialmente o tabaco. Na boca, há grande equilíbrio com taninos bem redondos, a acidez um pouco baixa nos diz que o vinho deve ser bebido logo. No retro notam-se outras especiarias.

5. Terragnolo -Apollonio Casa Vinicola – Salento Rosso IGP – Negroamaro – Safra 2010

Com vermelho profundo, o primeiro aroma deixa claro que degustamos um vinho fermentado em carvalho. Na sua evolução notam-se frutas vermelhas e um aroma vegetal bastante marcado. O vegetal fica ainda mais evidente do retro aroma, lembrando tomate cereja. Na boca é bastante quente, com taninos e acidez baixa. Não pude deixar de pensar numa boa bistecca fiorentina, num bife ancho, num asado de tira ou num costelão 12 horas.

6. Angelo Primo – Cantine Paradiso – Puglia IGT – Uva di Troia – Safra 2011

Um vinho bom, muito bom. Já apresenta a sua complexidade no primeiro nariz com frutado, floral e especiarias. Um toque de noz moscada é encantador. Os aromas terciários prevalecem, como não poderia deixar de ser num vinho longa passagem por barrica e uma complementação do amadurecimento em tanques de aço inox e na garrafa. Na boca, os taninos já estão bem macios e com uma acidez agradável, excelente para ser bebido de imediato, mas quem prefere vinhos mais envelhecidos pode ainda guardar por um ou dois anos.

7. Divoto – Apollonio Casa Vinicola – Copertino DOC Rosso Riserva – 70% negroamaro/ 30% montepulciano – Safra 2009

São 24 meses em barricas de carvalho e mais 12 meses na garrafa antes de sair da cantina, o que lhe garante uma complexidade aromática impressionante. O primeiro nariz é floral e evolui para especiarias. Apesar de já ter quase 10 anos, ainda há um fundo frutado, com aroma de compotas. Na boca, nota-se um leve desiquilíbrio alcoólico, mas não compromete a sua qualidade. Um vinho de boa qualidade que só peca um pouco no preço elevado – EUR 33,40 na Itália.

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JÚLIO CÉSAR KUNZ:  Poeta e sommelier. Mestre em marketing do vinho, é diretor da Associação Brasileira de Sommeliers – Seção Rio Grande do Sul (ABS-RS), expert no grupo de trabalho de formação da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV – Paris). Escreve sobre vinhos, cervejas e estilo de vida.

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