VINHOS | Domaine Drouhin: um visionário da Borgonha no Oregon

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Reza a lenda que, em 1961, o produtor francês Robert Drouhin fez uma viagem de carro da Califórnia para Seattle (estado de Washington), atravessando todo o Vale de Willamette. O proprietário da vinícola Joseph Drouhin teria se surpreendido com a semelhança entre o Óregon e a Borgonha, tanto no clima como na vegetação nativa. Ficou plantada uma semente de curiosidade, que germinou por quase 20 anos.

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Em 1979, numa degustação às cegas, ele provou o Pinot Noir da Eyrie Vineyards, resultado do corajoso assentamento de David Lett. O vinho da jovem vinícola ficou em 2º lugar na degustação, ao lado (ou até mesmo acima) de grandes nomes da Borgonha. Os franceses usam a expressão coup de foudre para descrever uma paixão arrebatadora, e foi o que aconteceu com Drouhin. Amor à primeira vista pelo Pinot do Óregon!

Mãos à obra

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A história da viticultura moderna é globalizada. Não apenas o Novo Mundo ganhou espaço no mapa das grandes regiões associadas ao vinho, mas muitos produtores consolidados saíram da Europa em busca de novos “Eldorados” para a fabricação da bebida. É o caso da família Mouton Rothschild, que inventou ícones como o Almaviva no Chile e o Opus One na Califórnia; ou ainda o caso da Chandon, que se instalou no Brasil e na Argentina. Apesar disso, é difícil nomear um produtor da Borgonha que tenha feito esse mesmo caminho. A não ser, é claro, Robert Drouhin.

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Depois de se encantar pelo potencial da região, Joseph iniciou uma série de estudos para implantar sua própria vinícola, a hoje renomada Domaine Drouhin. Como parte do projeto, em 1986 ele mandou a própria filha Véronique para fazer um intercâmbio na região, trabalhando nas colheitas de alguns dos maiores produtores de lá (entre as quais a Eyrie Vineyards). Ainda em 1987 ele comprou suas primeiras terras em Dundee; em 1988, começou a fazer vinho com uvas compradas dos vizinhos; em 1989, inaugurou o primeiro prédio de sua própria vinícola.

Projeto audacioso, resultado surpreendente

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A Borgonha, berço da uva Pinot Noir e de seus mais renomados exemplares, é uma terra de tradições. Os vinhedos são muito concentrados e, em geral, compartilhados entre diferentes produtores, que trabalham familiarmente. A maioria vinifica sem se guiar pelas tendências de mercado. Para eles, fazer vinho é um estilo de vida e um motivo de orgulho. Eles não veem muitas razões para sair de casa. Ao se instalar no Óregon, a família Drouhin trouxe consigo essa mesma visão.

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A densidade e distribuição das plantas é maior do que nos vizinhos, seguindo a tradição da Borgonha (330 plantas por hectar). Também seguindo essa linha, as vinhas foram plantadas naquela que eles consideram a melhor parte das encostas – entre 100 e 250 metros, embora eles tenham adquirido terrenos de até 400 metros de altura. A extensão total da propriedade deles em Dundee é hoje de 100 hectares – sendo que suas escolhas no tocante ao plantio os obrigam a realizar todas as etapas da produção manualmente.

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A vinícola, por sua vez, usa um estilo misto. Por um lado, as escolhas estéticas e até os os materiais usados vieram diretamente da Borgonha. Por outro lado, eles aplicaram modernas tecnologias de gravitação, que reduzem custos e tornam a produção mais ecológica. Para tanto, o prédio foi instalado no topo de uma colina, onde as uvas são recebidas. A partir dali, a cada etapa da produção o vinho desce um andar, até chegar à área de engarrafamento e despacho. Foram necessários mais de 10 anos para que todos os quatro andares ficassem operacionais.

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Véronique ainda é a enóloga responsável, residindo na propriedade entre a colheita e o período de fermentação. No restante do ano, ela conta com a enóloga de produção Erin Bell, que acompanha a vinícola em tempo integral. Para garantir que a produção seja acompanhada de perto pela França, todos os meses eles enviam amostras individuais de cada barrica pelo correio!

Os vinhos que eles produzem não são baratos para o padrão do Oregon, mas entregam muito mais do que custam. As garrafas saem entre U$D 35 e U$D 70 e, sem exagero, incluem alguns dos melhores Pinots e Chardonnays que já provei (vindos do Óregon ou de qualquer outro lugar). São vinhos de uma estrutura firme, porém elegante. Todos os Pinots que provei têm uma fruta jovial, sem ser suculenta ou pesada.

Portas abertas

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A sala de degustação da Domaine Drouhin (tasting room) fica aberta das 11h ás 16h. Eles recebem visitantes de segunda a domingo, e grupos de menos de oito pessoas não precisam fazer reserva. É possível provar todos os vinhos – por um preço. Nossa recomendação, entretanto, é agendar a visita completa com degustação, que eles oferecem todos os dias às 10h da manhã (exceto quartas-feiras).

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Denominada “Alma Francesa, Solo Americano”, a degustação especial compara os melhores vinhos produzidos por eles no Óregon com excelentes Borgonhas franceses de preço semelhante (como Roully e Côte de Beaune). Além de começar mais cedo do que a maioria das atividades no Vale (que geralmente iniciam às 11h ou 12h!), o programa incluir um tour por todo o sistema de gravitação da vinícola. A experiência custa U$D 40 e é orientada pela diretora do Tasting Room, Dara Edrington, podendo ser desfrutada tanto por iniciantes como por iniciados.

alvaro lima, jornalista, movidoavinho

Álvaro Lima é Jornalista e Sommelier WSET nível 3. Ele atua como editor do blog Movido a Vinho e organiza degustações por meio da Confraria Anônima. A coluna é uma extensão do projeto Caminhos do Vinho, que reúne relatos de viagens por vinícolas ao redor do mundo. Com o tempo, esperamos que você possa usar as dicas desta coluna para planejar suas viagens ou escolher um vinho novo para experimentar - explorando regiões diferentes e opções que cabem no seu bolso. Compartilhe suas impressões pelo e-mail alvinho@movidoavinho.com.br

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