VINHOS | Domaine Serene: uma história de sucesso em família

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OREGON – Quando alguém fala em vinícola familiar, é fácil pensar em pessoas simples e vinhos rústicos. Na verdade, essa expressão remete para uma realidade econômica da viticultura: grandes empreendimentos comerciais só fazem sentido com taxas de lucro mais altas. Em outras palavras, grandes grupos podem até produzir vinhos excelentes (como a Concha y Toro no Chile e seu famoso Don Melchor), mas o grosso de seus esforços ficará concentrado nos seus vinhos de entrada e intermediárias, que lhes dão maior retorno financeiro. É preciso outro tipo de mentalidade para sustentar uma vinícola dedicada exclusivamente a vinhos de excelência – uma mentalidade de família, como é caso da Domaine Serene.

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Depois de passar a vida trabalhando em outra área e juntando dinheiro, o casal Grace e Ken Evenstad decidiu usar suas economias para perseguir o sonho de ter uma vinícola. Em 1989, trocaram o estado de Minnesota pelas colinas de Dundee Hills, onde adquiriram 17 hectares de terra. Amantes da Borgonha e do Pinot Noir, eles decidiram não poupar em nada. Seu objetivo: construir a primeira vinícola de luxo do Oregon. Para quem está acostumado com a expressão “vinícola boutique”, saiba que, neste caso, ela não dá a dimensão correta do esforço empreendido pelo casal.

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Em busca de um ideal

Há uma piada na indústria da uva que pode ser aplicada a casos como o da Domaine Serene: se você quer se tornar um milionário fazendo vinhos, é simples – basta ser um bilionário antes de começar. Esse chiste sintetiza uma verdade que os produtores já conhecem bem – qual seja, a de que buscar a perfeição no vinho não é nem fácil, nem barato.

Ainda em 1990 começaram a produzir com uvas compradas, sem economizar no uso de equipamentos e de mão de obra especializada. Nas suas próprias vinhas, implementaram todos os cuidados imagináveis para se obter uvas da melhor qualidade. O cultivo é feito sem irrigação, com práticas sustentáveis e certificadas. Eles trabalham com baixos rendimentos e com clones diferentes em cada vinhedo. Além disso, a colheita é manual e em cestos pequenos, para preservar as bagas. Esses procedimentos são seguidos em todos os 100 hectares de vinhedos que ele possuem atualmente (30 hectares em Dundee e os demais em outros cinco vinhedos, com destaque para Yamhill-Carlton e Eola-Amity).

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Para garantir a excelência dos vinhos, eles realizam a fermentação das uvas em até 250 microlotes separados. Esse método permite preservar a essência do terroir e garante que cada parcela seja gerenciada de forma ideal, com mais ou menos tempo de barrica. O tratamento diferenciado garante que eles possam produzir mais de um vinho de excelência no assemblage final, conforme as características que eles queiram ressaltar. É importante destacar que estamos falando em assemblage de microlotes da mesma uva, um método custoso que só faz sentido para vinhos premium.

Uma estrutura impecável

O empreendimento da família Evenstad também enfatizou a escolha do local. Eles se espelharam no Domaine Drouhin, adquirindo suas terras numa colina vizinha, com condições de clima, solo e altura virtualmente idênticas. É verdade que os terrenos ainda não estavam tão caro nessa época em Dundee, mas eles escolheram o único lugar onde os preços já haviam começado a disparar.

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Em 1998, deram início ao projeto que centraliza a produção e a recepção dos turistas, tudo com muita elegância e eficiência. A construção ficou pronta em 2001 e segue sendo o empreendimento mais luxuoso da região. Já ao longe é possível avistar a imponente mansão no topo da colina, convidativa apesar da opulência. Ao adentrar, o visitante é surpreendido pela paredes maciças de rocha branca e o pé direito alto. Nada menos do que quatro áreas separadas estão disponíveis para degustação:

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Alguns metros após a entrada, um grande salão se abre para todos os passantes que queiram provar os vinhos (a partir das 11h e até as 16h, é claro). À esquerda, uma área de eventos é fechada para negócios e visitas de compradores. À direita, uma sala luxuosa de degustação fica reservada para os “membros” da vinícola (compradores associados que representam uma parcela grande das vendas). Por último, há um espaço subterrâneo que reúne múltiplas salas de parede rochosa e um amplo salão, onde são acolhidos grupos para degustações fechadas (a partir de oito pessoas). Em qualquer um desses locais, a sensação é de exclusividade e privilégio.

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Encrustada na colina e escondida dos olhos de quem chega, a área de produção da vinícola foi projetada pelo sistema de gravitação. São cinco níveis, que ocupam mais de duas vezes a altura aparente da construção percebida pelos visitantes na fachada da vinícola. É ali que eles concentram toda a elaboração, envelhecimento e engarrafamento dos vinhos, um método que serve tanto para proteger a produção quanto para reduzir custos.

Vinhos feitos de sonho

Todo esse cuidado exterior só faz sentido quando ele também pode ser sentido na taça – o que, para nossa alegria, é verdade no caso dos vinhos da Domaine Serene. Como era de se esperar, eles não têm vinhos “de entrada”, e têm como carro chefe o Chardonnay (melhor vinho branco do mundo para a Wine Spectator em 2016) e o Pinot Noir (melhor Pinot do mundo em 2013 na Wine Spectator e 2016 na Decanter), mas com uma variedade de rótulos que merece ser explorada.

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O primeiro vinho que degustei foi um rosé surpreendente, chamado “r” (em minúscula mesmo). Trata-se de um blend multisafra de Chardonnay barricado e Pinot Noir sem madeira. Eles não dizem a quantidade de anos usados, mas parece que a brincadeira começou na tentativa de criar um vinho base para espumante, que ficou tão bom que eles resolveram comercializar assim mesmo. Considerando seu processo de fabricação, ele tem mais personalidade e parece que encararia alguns anos de guarda muito melhor que um rosé normal. Essas características talvez justifiquem seu preço, de 38 dólares na vinícola.

O Chardonnay, lamento, não pude provar pois estava esgotado! Já os Pinots, provei quatro linhas diferentes, todas muito acima da média e podendo ser caracterizadas como vinhos de qualidade superior.

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O Pinot Noir Yamhill Cuvée 2014, vendido a 48 dólares, é o que mais se aproxima de um primeiro vinho. A principal razão para isso é que se trata de um vinho mais sujeito a variações de clima, localizado em um vinhedo de condições menos ideais. Mesmo em bons anos, ele tem menos estrutura e potencial de guarda que os Pinots de Dundee. Apesar disso, é um vinho saboroso, que entrega muita fruta e se mostra mais pronto para beber que outras das linhas produzidas na Domaine Serene (embora tenha potencial para envelhecer tranquilamente cinco anos ou mais).

O Evenstad Pinot Noir, carro chefe da vinícola, é provavelmente o produto mais famoso deles. Trata-se do vinho premium que tornou eles conhecidos mundo afora, um blend de vinhedos das colinas de Dundee Hills. Provei as safras 2013 (mais comportado, entregando fruta e frescor sem tanta exuberância) e 2014 (forte candidato a ‘melhor Pinot Noir da minha vida”). Ambos são vinhos de muita fruta e estrutura, ainda que o 2014 se mostre mais na taça do que o ano anterior. Preço na vinícola: 70 dólares (e me arrisco a dizer que é uma barganha).

O Jerusalém Hill 2014 foi o vinho que provei na expectativa de entender como eles produzem seus cortes de vinhedos específicos. E que vinho! A explosão de fruta parece casada com notas de levedura e fermentação malolática, resultado de um uso extremamente bem feito da madeira e das técnicas de produção. De tão bem feito, senti que ainda não estava pronto, pois sua acidez alta pedia mais alguns anos de guarda. Por 95 dólares, ele entrega o quanto custa, apesar de passar da faixa de preço que eu indicaria.

Por último, provei o Aspect Pinot Noir 2014. Atenção: esse é um vinho que só pode ser adquirido na própria vinícola (ou no site deles se você for um membros associado). Trata-se de uma proposta de vinho ultra-premium, mais recente adição ao portfólio da Domaine Serene. Informalmente batizado de “vinho do clube”, o blend foi feito para aqueles fãs da vinícola que já conheciam todas as outras linhas deles. Por 125 dólares, eles consideram esse o seu vinho definitivo, com as melhores barricas das melhores parcelas, e um tempo adicional em contato com a madeira. Tomado agora, ele é mais potente que os outros Pinots deles, sem por isso ser melhor. Com o tempo, contudo, esse vinho poderá ter cinco ou dez anos de guarda a mais que as outras linhas do produtor.

Consistência e novos projetos

Todos os Pinot do Domaine Serene parecem tirar sua força de qualidades imateriais. Na taça, eles me levaram a dar voltas ora por um bosque tranquilo, ora por uma cozinha francesa onde alguém estava assando uma torta de cerejas. Se tivesse sido possível provar todos os vinhos deles, acredito que tanto os outros Pinots de parcelas específicas quanto os Chardonnay teriam oferecido experiências semelhantes em termos e qualidade e identidade.

Antes de finalizar este post, uma curiosidade: muitas vinícolas francesas compraram terras mundo afora, mas hoje existe um movimento inverso. O Domaine Serene adquiriu, em abril de 2015, 10 hectares de vinhedos na França, sendo provavelmente o primeiro investidor do Oregon a fazê-lo. Lá na Borgonha, eles vêm usando a mesma lógica para produzir mais de um 1er Cru, com especial sucesso nos brancos. Contrariamente às expectativas de um investimento familiar, a busca dessa vinícola por excelência parece estar, sim, dando um bom retorno financeiro.

alvaro lima, jornalista, movidoavinho

Álvaro Lima é Jornalista e Sommelier WSET nível 3. Ele atua como editor do blog Movido a Vinho e organiza degustações por meio da Confraria Anônima. A coluna é uma extensão do projeto Caminhos do Vinho, que reúne relatos de viagens por vinícolas ao redor do mundo. Com o tempo, esperamos que você possa usar as dicas desta coluna para planejar suas viagens ou escolher um vinho novo para experimentar - explorando regiões diferentes e opções que cabem no seu bolso. Compartilhe suas impressões pelo e-mail alvinho@movidoavinho.com.br

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