VINHOS | Em defesa dos vinhos ruins

Às vezes tenho a impressão de acordar como Marty McFly, pensando que tudo está normal, mas o mundo ao meu redor está em outra época. Ouço barbaridades medievais; leio notícias do velho oeste americano; recebo anúncios da vinda do messias (ou da sua volta), como no oriente médio antigo; vejo homens comportarem-se como se ainda vivessem nas cavernas; percebo posicionamentos políticos do auge da guerra fria.

Marty McFly

Marty McFly

Por falar em guerra fria, um dos medos mais comuns de quem vivia a paranoia da ameaça comunista é não encontrar variedade de produtos para a sua escolha. Dá para entender, o estilo de vida ocidental exige que tenhamos liberdade e uma das liberdades mais importantes é, justamente, a liberdade de escolhermos o que consumimos. Queremos carros de diferentes cores, bebidas de diferentes gostos e entretenimento com diferentes amores.

Baseando-se nisso, um ocidental jamais se sentiria atraído por, por exemplo, um sanduíche que se pretendesse igual em qualquer parte do mundo, independentemente do país, dos ingredientes ou da cultura local. Seria um absurdo usar roupas com os mesmos cortes e cores que a maioria das outras pessoas. E seria absurdo, simplesmente absurdo, trabalhar seguindo estritamente as instruções de um manual.

Imi é um personagem húngaro, criado num orfanato no interior do país comunista no fim dos anos de chumbo. Ao completar 18 anos, na primeira oportunidade foge do mundo padronizado e rigoroso, imposto pela potência soviética, para buscar os seus sonhos, abrigados no mundo ocidental. Sua primeira impressão ao entrar num supermercado austríaco não poderia ser melhor.

“É impressionante, há 10 diferentes rótulos de água!” – escreveu aos seus amigos, que ainda estão sob os cuidados do orfanato comunista.

Ao, chegar a Londres, encontra emprego na Proper Coffee (café adequado, em tração livre), uma rede de cafeterias que prima pela padronização dos seus cafés, guloseimas e serviços. Estuda atentamente o manual, esforça-se para ser um bom funcionário. Esforça-se a ponto de fazer um cappuccino melhor que seus colegas, melhor que as outras lojas da rede. A gerente da loja, Victoria, chama a sua atenção:

– O café tem de ser igual, não melhor.

Capa do livro "A pirâmide do café"

Capa do livro “A pirâmide do café”

A partir deste momento, o livro de Nicola Lecca traz a reflexão: qual é o ponto de trabalhar tanto, seguir tantas regras se for para consumir as mesmas coisas, cumprir a mesma rotina? O protagonista passa a aprofundar as suas reflexões, conduzindo o leitor para uma busca profunda sobre o que significa viver.

Reflexões que o mundo do vinho também pode despertar. O documentário Mondovino (Jonathan Nossiter, 2004) mostra o enólogo Michel Rolland dizendo “Isso se chama diversidade. É por isso que há tantos vinhos ruins.” Ele tem razão, ao menos em certa medida. Mas a pergunta é: vinho bom para quem?

Sabe aquela pessoa que você acha feia, chata e estúpida? Alguém vai se apaixonar por ela. Se ainda ninguém se apaixonou, ela não encontrou o número de pessoas suficiente. Assim é com os vinhos, com os cafés e com os restaurantes. Cada um deles esperando o bebedor ou o momento certo. Um dia, sem que tu vejas o rótulo, um vinho ruim pode conquistar o teu coração.

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