VINHOS | Eyrie Vineyards: o primeiro Pinot do Oregon

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A vinícola Eyrie (pronuncia-se “Áirui”) é um marco em Dundee Hills, apesar da sua aparente simplicidade em face a alguns concorrentes mais luxuosos. Oficialmente, David Lett foi o terceiro produtor a se instalar no Oregon, em 1966 – mas ninguém parece lembrar quem foram os dois primeiros. Afinal, ele foi responsável por descobrir o potencial do Pinot Noir para a região do Vale de Williamette, dando início ao cultivo dessa uva no Norte dos Estados Unidos.

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Depois de se formar pela universidade UC Davis e passar um tempo morando na Borgonha, ele desenvolveu tamanho amor pelo Pinot Noir que voltou aos Estados Unidos decidido a fazer essa uva prosperar na América. Essa jornada o levou a uma busca prolongada, que culminou em Dundee Hills, no coração do Vale do Willamette. Foi ali que ele se instalou e começou o seu projeto ousado, em meio a plantações de pinheiros e criações de peru, confiante de que havia encontrado clima e solo ideais para produzir seu vinho.

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O jovem enólogo se aventurou em uma área rural sem tradição vitivinícola. A região tinha muita terra disponível, mas com relevo acidentado e baixíssima urbanização (condições que dificultavam a produção, além de encarecer a iniciativa). Além disso, não havia nenhuma estrutura para quem quisesse fazer vinhos: faltavam a mão de obra qualificada, o acesso a insumos e o mercado consumidor – nada que o desmotivasse.

Um sonho ousado

Acompanhado por sua noiva, Lett construiu sua vinícola do zero, passo a passo, erros e acertos. Ele levou anos preparando a terra e cuidando das primeiras mudas – afinal, as videiras levam até cinco anos para atingir capacidade comercial de produção. Trouxe equipamentos de fora, mas nada de máquinas pesadas ou leveduras industrializadas: ele investiu em técnicas artesanais, ao estilo do que tinha visto na Borgonha e que vinha sendo feito por lá nos últimos 500 anos. Escolheu uma colina com inclinação para o Sul (seguindo o padrão dos melhores vinhedos da França) e nomeou sua vinícola em homenagem a um ninho que as águias estavam construindo na sua propriedade (“Eyrie”).

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A primeira safra comercial foi engarrafada em 1970. Já nos primeiros anos os vinhos da Eyrie Vineyards entusiasmaram uma primeira geração de pequenos produtores que começaram a comprar terras nas redondezas. No final dessa década, algumas de suas garrafas causaram estarrecimento em competições internacionais e surpreenderam até grandes produtores da Borgonha. Com isso, estava feita a fama do novo “Eldorado” do Pinot Noir. Ao longo dos anos 1990’ e 2000’, o número de produtores inspirados pela Eyrie só aumentou – rendendo a Lett o apelido de “Papa Pinot”.

A produção hoje

Existe uma frase divertida, atribuída à Veuve Clicquot (a viúva que empresta seu nome à famosa champanhe), que teria dito o seguinte: “Produzir vinhos é fácil; o difícil são os primeiros 150 anos”. Lett trilhou esse caminho em um tempo muito menor – mas que coincidiu em boa parte com a duração de sua própria vida. Ele faleceu em 2008, poucos meses depois de seu filho Jason assumiu a direção da vinícola e o trabalho de enólogo.

A chegada de Jason ao comando da Eyrie Vineyards não significou uma mudança de rumos, embora tenha marcado um momento novo para a vinícola. Eles não precisam mais provar a qualidade do seu Pinot, nem tem intenção de mudar sua filosofia. O resultado é uma busca pela essência do que o Pinot pode oferecer em Dundee, por meio da recusa de tendências passageiras de mercado, o que torna a visita imperdível.

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Uma das provas dessa continuidade foi o esforço de Jason para salvar o legado de seu pai. Ao falecer, David Lett deixou seis mil caixas de seus melhores vinhos guardadas! Ele se recusou a colocar esses produtos no mercado, pois achava que as garrafas não estavam prontas e que somente com a passagem do tempo ele conseguiria provar o verdadeiro potencial de seus vinhos. Jason herdou essas caixas e um desafio inesperado: embora os vinhos estivessem excelentes, ele descobriu que as rolhas usadas pelo seu pai não eram de qualidade suficiente para tanta guarda. Para que o vinho chegasse ao consumidor final, era necessário trocar as rolhas, garrafa por garrafa, e eliminar as garrafas com problema de vedação.

Jason precisou desenvolver uma técnica nova para salvar parte esse vinho. Injetando gás inerte dentro da garrafa (argonio) por meio de uma agulha, ele tira a rolha de dentro para fora, evitando que ela se esfarele. Várias garrafas de uma mesma safra são então analisadas, para remover amostras contaminadas. O vinho que estiver impecável é misturado e re-engarrafado.

Na taça

A técnica desenvolvida por Jason Lett é menos uma iniciativa comercial e mais um projeto de resgate histórico. O processo encarece (e bastante) as garrafas antigas comercializadas, mas garante que 100% delas esteja em condições ideais ao sair da vinícola. Além disso, sempre há pelo menos uma garrafa de safra antiga na sala de degustações, disponível por um valor simbólico. Provei a safra 1991 do Pinot Reserva – 26 anos e impecável!!! No mercado, a garrafa sai por 275 dólares, mas a degustação completa, incluindo este vinho e outros seis produtos de safras atuais, custou apenas 20 dólares. O valor da degustação é isentado em caso de compras a partir de 75 dólares.

Os vinhos mais jovens produzidos pela Eyrie não devem ser menosprezados. Eles são certificados como orgânicos e têm um elegância francesa. O Pinot Blanc e o Pinot Gris, de estilo alsaciano, me agradaram mais do que eu esperava. Ambos frescos e complexos ao mesmo tempo, mas de estilos distintos: algo oxidativo no caso do Pinot Blanc (nozes e notas lácteas) e muito fresco no caso do Pinot Gris (pomelo e pera com algo herbáceo).

Na sequência me encantei com os Pinots da casa: o “Pinot de entrada”, rotulado como “Willamette Valley” está bem acima de vários “reserva” produzido no Oregon. É um blend de vinhedos, leve na cor, mas com boa presença e complexidade no nariz e em boca. O segundo vinho da casa, o Pinot Outcrop, é mais herbáceo e menos maduro, um estilo um pouco duro, embora intenso (deve melhorar com a guarda). O Pinot Original Vines, feito com os vinhedos plantados por Lett há 50 anos, oferece tudo que eu espero de um Borgonha, com mais intensidade: fruta, jovialidade, complexidade, estrutura para guarda. Ainda novo, mas já excelente!

Por que visitar?

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Minha visita à Eyrie Vineyards não foi agendada. Peguei o carro, dirigi até lá e fui direto para a sala de degustações. Fui muito bem atendido e recebi todas as explicações que pedi sobre os vinhos, ao lado de mais quatro pessoas que chegaram quase na mesma hora. Além disso, os vinhos são acima da média e o preço é justo.

O local é pequeno, sem grandes luxos, mas acolhedor. Fica no centro da cidade de McMinnville, assim como toda a parte de produção da vinícola (que, por ser a mais antiga da região, foi instalada antes do crescimento da área urbana). Pedi gentilmente para dar uma espiada na parte de produção, pois não tinha me identificado como jornalista. A funcionária me acompanhou até onde o próprio Jason Lett estava e perguntou se ele tinha um minuto. Ele respondeu que sim e me acompanhou, ele mesmo, para fazer um tour das cubas de fermentação.

Nunca paro de me surpreender com o bom humor dos enólogos. Jason era um com um misto de entusiasmo e timidez, pois achava que a “casa estava bagunçada” em época de colheita. Mesmo assim, gastou uns bons vinte minutos comigo, me mostrando tudo que pode antes de voltar para a produção.

Na minha opinião, qualquer vinícola capaz de receber a gente assim merece uma visita. Fica nítido que eles não estão lá para promover uma iniciativa turística, mas eles sabem falar a língua do consumidor, dedicando tempo às pessoas que querem saber mais sobre eles. Fiquei honrado em poder conversar pessoalmente com o Jason, e sei que ele vai ter um minuto para vocês também, se ele estiver por lá quando visitarem.

Não paramos por aí:
O próximo texto será dedicado ao Domaine Drouhin, propriedade que pertence a uma famosa família de produtores da Borgonha. Se eles acreditam no potencial dos vinhos que produzem em Oregon, quem se atreve a dizer o contrário? A visão deles para Dundee Hills levou à construção de uma vinícola maior e mais moderna do que as que eles têm na França, e com uma estrutura fabulosa para receber os turistas.

alvaro lima, jornalista, movidoavinho

Álvaro Lima é Jornalista e Sommelier WSET nível 3. Ele atua como editor do blog Movido a Vinho e organiza degustações por meio da Confraria Anônima. A coluna é uma extensão do projeto Caminhos do Vinho, que reúne relatos de viagens por vinícolas ao redor do mundo. Com o tempo, esperamos que você possa usar as dicas desta coluna para planejar suas viagens ou escolher um vinho novo para experimentar - explorando regiões diferentes e opções que cabem no seu bolso. Compartilhe suas impressões pelo e-mail alvinho@movidoavinho.com.br

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