VINHOS | Minha modesta contribuição à Vindima 2015

A vindima movimenta, colore e enche de sons e aromas agradáveis a Serra Gaúcha. Pelas estradinhas vicinais da região, é grande a movimentação de caminhões e carretas puxadas por tratores nesta época do ano. Os veículos chegam às vinícolas abarrotados de caixas de uvas, descarregam sua preciosa carga, e voltam aos vinhedos para buscar mais frutas. O cheiro de uva doce perfuma os vales e o alto dos morros. É uma corrida contra o tempo (as uvas maduras precisam ser colhidas antes que os pássaros as devorem) e contra a meteorologia (a chuva pode “aguar” as bagas e arruinar os vinhos).

A colheita da safra 2015 está adiantada na Serra Gaúcha. A vindima começou em dezembro – um pouco mais cedo nesta safra. As uvas brancas, como a Chardonnay, e agora também as tintas de ciclo mais curto, como a Pinot Noir, são as primeiras a desembarcar nas cantinas. Elas serão usadas para a elaboração dos espumantes – hoje, o produto mais famoso da região. Até março, quando sáo colhidas as uvas tintas de ciclo mais longo, como a Cabernet Sauvignon, esse vaivém de veículos e essa faina incessante devem movimentar as centenas de cantinas das pequenas comunidades serranas – e atrair milhares de turistas à região.

Colheita noturna na Larentis

Neste fim de semana, dei minha modesta contribuição à vindima da safra 2015. Participei de duas “colheitas” de uvas. A primeira, uma incomum colheita noturna, na pequena vinícola Larentis, encarapitada no alto do Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves. A família Larentis, tendo à frente o jovem enólogo André, organiza colheitas à noite para turistas nos seus vinhedos. É uma atração turística, claro, mas as uvas colhidas pelos visitantes são realmente utilizadas na vinificação de sua pequena mas diferenciada gama de vinhos boutique, que inclui monovarietais de Pinotage, Marselan ou Malbec, castas ainda pouco cultivadas na Serra.

Fomos recepcionados pela família, com espumantes e canapés, ao pôr do sol. Logo em seguida, veio uma degustação de alguns de seus principais rótulos – gostei, particularmente, do Marselan, mais sedoso e amável do que alguns similares, um tanto rústicos, que provei na Serra. André me disse que o segredo desta maciez é a uva colhida um pouco mais tarde, quase sobremadura.

Após a degustação, ganhamos avental, tesoura e uma lanterna que se prende a testa (como as usadas pelos mineiros) e lá fomos nós para um vinhedo de Merlot, colher os cachos maduros e delicados da casta emblemática do Vale dos Vinhedos. Em pouco mais de meia hora de “trabalho”, enchemos algumas caixas de uvas. Uma brincadeira divertida, em que adultos viram crianças, mas também uma experiência inesquecível para quem gosta de vinhos.

A colheita noturna da Larentis termina com uma rodada de pães caseiros, queijos, salames e copas, regada a mais espumantes, e um prato quente. À pergunta que todos fazem – por que colher à noite? -, o enólogo André responde, bem humorado:
– As uvas têm de ser colhidas nas horas mais frescas do dia. Normalmente, colhemos bem cedo, ao nascer do sol. Mas não vamos tirar os turistas da cama às cinco da manhã para colher uvas, não é?

Colheita simbólica no Vinhedo do Mundo

A minha segunda colheita do final de semana foi na vinícola Dal Pizzol, localizada na Rota das Cantinas Históricas, no distrito de Faria Lemos, em Bento Gonçalves. A colheita no Vinhedo do Mundo é um evento enocultural realizado anualmente pela família Dal Pizzol. Tradicionalmente, a cantina convida jornalistas, artistas, políticos, enófilos e autoridades para realizarem a colheita simbólica (um cacho por pessoa) no Vinhedo do Mundo, uma fantástica coleção de videiras da vinícola.

Em menos de 1 hectare, a Dal Pizzol cultiva mais de 400 espécies diferentes de videiras de cinco continentes e mais de 30 países, algumas muito raras ou desconhecidas por aqui. O Vinhedo do Mundo serve de atração turística para os amantes do vinho e também de local de estudos para pesquisadores e alunos de cursos de Enologia.

Antes da colheita, participei de uma deliciosa degustação às cegas (literalmente, com vendas negras nos olhos), conduzida pela enóloga Simara Trojan, em que nossos cinco sentidos são exigidos ao máximo. Outra experiência inesquecível.

Grupo de convidados reunido, o enólogo-chefe da casa, Dirceu Scottá, chama um a um, e indica a variedade que cada participante deve colher. Desta vez, fui incumbido de colher um cacho de Merlot – uma de minhas cepas preferidas. A equipe da Dal Pizzol também fornece avental, chapéu e tesoura para o “vindimeiro”. Com mais de cem castas de uvas diferentes colhidas no Vinhedo do Mundo, a Dal Pizzol elabora um assemblage muito especial, o Vinum Mundi, hoje um item disputado por colecionadores. Um almoço italiano impecável, cujo ponto alto é um xixo à moda do Vêneto, escoltado por diversos vinhos da cantina, completa o programa. Voltei para casa exausto, mas saciado e feliz.

  • Vinhedo do Mundo, Vinícola Dal Pizzol
  • Vinhedo do Mundo, Vinícola Dal Pizzol
  • Vinhedo do Mundo, Vinícola Dal Pizzol
  • Vinhedo do Mundo, Vinícola Dal Pizzol
  • Vinhedo do Mundo, Vinícola Dal Pizzol
  • Vinhedo do Mundo, Vinícola Dal Pizzol
  • Vinhedo do Mundo, Vinícola Dal Pizzol
  • Vinhedo do Mundo, Vinícola Dal Pizzol
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  • Vinhedo do Mundo, Vinícola Dal Pizzol
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