VINHOS | Na França, muito mais que uma bebida

Sou uma apaixonada pela França. Já devorei livros de história, fiz aulas de francês, assisti horas de filmes franceses, em busca da essência deste lugar. Como estreante na Cidade Luz, há oito anos atrás, fiz tudo que um turista comum faz. Visitei museus, subi até o topo da Torre Eiffel e da escadaria da Sacre Coer. Agora, de volta a Paris, decidi voltar meu olhar aos que vivem aqui e entender porque eles me fascinam tanto.

O francês, de modo geral, vive num outro ritmo, mesmo numa cidade grande (para os padrões da França). Claro que a carga horária reduzida, de 35 horas semanais, ajuda. Mas aqui eles são menos estressados, e mais interessados nas boas coisas da vida. São o que chamamos de bon vivant. É só caminhar pela cidade para perceber isso. Bares, restaurantes e bistrôs ocupam as calçadas com mesas e cadeiras ao ar livre. Os lugares são disputadíssimos, seja para um rápido café ou uma relaxante taça de vinho ao pé da Notre Dame.

Vinho. Como essa bebida faz parte da vida dessas pessoas. Eles apenas bebem. E ponto. Sem pretensão. Sem dúvida, ou medo de errar. Na carta da maioria das brasseries (restaurantes com ambiente descontraído e requintado que serve pratos simples) não pense em encontrar o nome do rótulo dos vinhos. Muitos só colocam a indicação das regiões em que eles foram feitos. Simples assim. E há ainda a opção do vinho do produtor, é o nosso “vinho da casa”, que leva o nome do restaurante e custa bem mais barato.

O vinho é uma questão cultural por aqui. A bebida é vista como complemento de uma refeição. Comer um sanduíche na rua, enquanto corre para pegar o metrô, não é visto com bons olhos. “Se um parisiense vê alguém passar comendo na rua já vai reclamar. Para eles é inadmissível não se sentar à mesa para fazer uma refeição. E o vinho faz parte desse ritual, é o elemento que reúne a família em volta da mesa”, conta a sommelier brasileira, Marina Giubert, que há 9 anos mora em Paris.

Segundo Marina, que é dona da cave Divvino, nem todo francês é conhecedor do vinho produzido no próprio país, mas aos poucos a situação vai mudando. “Uma vez ouvi de um cliente: estou feliz em estar aqui. Ele me disse que aos vinte anos ficava olhando a vitrine das lojas de vinhos e sonhava com o dia em que poderia entrar numa delas. Estudante e com pouco dinheiro, só conseguia comprar em supermercado. Hoje, aos 30, ele se interessa em saber sobre os vinhos de cada uma das regiões da França e pode comprar em lojas especializadas”, conta ela entusiasmada.

Há vinho para todos os bolsos. Desde os 2 euros (cerca de 7 reais) até os mais famosos e mais caros do mundo. No supermercado os vinhos ocupam destaque em grandes prateleiras, sempre nas áreas mais visíveis. Em alguns, as caixas ficam bem no meio do corredor, na visão de todos que passam. Se você quer algo mais selecionado, garimpado em caves de pequenos produtores, escolha as caves, ou lojas especializadas. Elas estão espalhadas por todos os lugares. Uma das mais antigas (com 193 anos), e que conta com centenas de lojas espalhadas por toda a França, é a loja de vinhos Nicolas. É quase impossível caminhar pela cidade (ou pelo interior do país) sem encontrar uma filial desta loja.

Vinho por aqui não é bicho de sete cabeças. É alimento. E faz parte do dia a dia. Esse é só o primeiro capítulo desta história de amor entre uma brasileira apaixonada por vinhos e um país que respira vinhos. Merci!

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