VINHOS | O complexo mercado na China

Há muitos anos leciono, como professor universitário na China, análise organoléptica e sensorial de alimentos e vinho numa conhecida universidade de Xangai (Shanghai Jiao Tong University), por isso me permito ilustrar minhas experiências pessoais no mercado de vinhos na China.

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Análise
A análise atual do mercado do vinho na China e sua evolução deve levar em conta a dinâmica do consumo do vinho em direta relação com o consumo de álcool, isso porque, enquanto nos principais países consumidores a concorrência do consumo do vinho na refeição é em direta competição com o consumo de água, a ausência de uma cultura de vinho na China, faz com que a competição seja relacionada ao consumo de outras bebidas alcoólicas.

No mercado chinês, podemos encontrar uma variada presença de vinhos, produzidos seja através da fermentação do mosto de uva, seja através da utilização de outros vegetais, como o arroz (Huang jiu) ou frutas (Quo jiu).

A palavra Vinho não tem uma correspondência semântica tão clara como em nossa sociedade; sobretudo nas províncias do interior da China é necessário especificar o termo “vinho de uva” (pu tão jiu) para conseguir uma correspondência e uma compreensão plena do produto que nós chamamos simplesmente vinho.

Em minha relação farei menção naturalmente ao vinho de uva, mas se faz necessário explicar estas considerações, em função de tornar mais transparentes os termos utilizados no mercado chinês para classificar as diferentes bebidas alcoólicas.

O consumo de vinho neste mercado é em direta competição com o consumo de destilados de arroz, chamados “baijiu” e com o consumo da cerveja. O consumo do vinho, especialmente entre as novas gerações, virou moda, é consumido principalmente em bares, boates e locais noturnos, é associado ao prestigio pessoal e representa um sinal de status elevado, sobretudo em se tratando de vinho importado.

Ultimamente, o vinho é consumido em restaurantes (vinho importado nos restaurantes internacionais, e vinho chinês nos restaurantes típicos da cozinha local). Mesmo em algumas cadeias de supermercados começamos a ver amplos espaços ocupados pelo vinho.china3

Consumo do vinho e saúde
O consumidor chinês cada vez mais associa o consumo do vinho aos benefícios que esta bebida traz para saúde (Paradoxo Francês). Este aspecto é cada vez mais divulgado pela mídia que está, portanto, contribuindo para aumentar o consumo de vinho de massa.

Presença de uma “cultura alcoólica” e ausência de uma cultura de vinho. O consumo de álcool é parte integrante da cultura chinesa, seja porque é considerado uma espécie de remédio para cura de varias patologias, seja porque é hábito social consumir bebidas alcoólicas durante as transações comerciais.

O consumo dos destilados de cereais a elevado teor alcoólico afunda suas raízes na milenar cultura chinesa. Isso se reflete não somente na quantidade de vinho consumida, mas também na modalidade de consumo. De fato, no consumo de destilados, é comum o há bito de beber inteiramente o copo, esvaziando-o de uma única vez (ganbei). Obviamente esta pratica, quando aplicada ao vinho, exclui qualquer tipo de consumo hedonistico. O desenvolvimento da cultura do vinho na China está obviamente no começo e não seria correto compará-la ao dos países produtores do Velho Mundo.

O consumidor
Calcula-se que o número de consumidores de vinho ultrapasse os 15 milhões de pessoas e que este número esteja com tendência crescente. O consumidor médio chinês pertence à classe média alta, com idade entre 30 e 45 anos, e um elevado nível de escolaridade, mora nos centros urbanos e concebe o vinho sobretudo como sinal de status.

Segundo um estudo (wine export China) os critério que determinam a decisão de compra são influenciados principalmente pela marca (44%), pelo gosto pessoal (28%), pelo preço (16%), pela origem do vinho (8%) e pela apresentação da embalagem (4%).

Os preços ficam entorno de US$ 6,00 para o vinho chinês engarrafado e US$ 15,00 a US$ 30,00 para os importados. Estes últimos tem conquistado 80% do mercado do vinho em Xangai, cidade desde sempre sensível às influências dos gostos e das modas ocidentais.

Com relação ao tipo de vinho, o consumidor prefere os mais jovens, fáceis de beber e de preço médio. Não nos esqueçamos de que, segundo as previsões, até o ano de 2014, a China alcançará o 6º lugar entre os maiores mercados do mundo para o consumo de vinho.
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O que beber
Começamos dizendo que a maior dificuldade é a total falta de cultura com relação à analise organoléptica e sensorial. Os gostos na China são cinco: além do amargo, do doce, do ácido e do salgado, encontramos também a sensação dita “Umami”, termo japonês que significa “saboroso”.

Não é absolutamente verdadeiro que o chinês aprecie apenas o vinho tinto (ainda que seja o mais consumido). O vinho branco e os espumantes também estão encontrando o gosto dos consumidores. Denominador comum continua sendo a tendência a consumir vinho que apresenta sensação de suavidade (doçura) bastante acentuada. Nos percursos gustativos didáticos é fácil notar este tipo de predisposição organoléptica.

Número de eventos dedicados ao setor em continuo aumento
O número de eventos e feiras dedicados ao setor está em franco crescimento e estão surgindo progressivamente os tradicionais suportes ao mercado: a imprensa especializada, os enólogos, as degustações, os wine lovers etc. que representam os instrumentos para permitir ao vinho alçar voo em direção a um consumo consciente e consoante a suas propriedades.

Dinâmica do consumo de vinho na China comparado ao consumo mundial
A evolução do consumo do vinho na China representa um aspecto crucial a ser monitorado com atenção, especialmente porque as pequenas mudanças no consumo per capita influem fortemente sobre a média mundial, em função da consistência demográfica do mercado em si.

As dinâmicas do consumo mundial são fortemente influenciadas pela cultura, pelos hábitos das populações e pelo poder aquisitivo; estes fatores amplificam a importância de um atento monitoramento do mercado chinês, em relação às numerosas mudanças que estão sendo enfrentada pela sociedade de lá nesta ultima década.

O consumo per capita está em progressivo aumento, puxado pela economia em crescimento constante e pelo grau de abertura, cada vez mais amplo, na direção do consumo à moda ocidental.

Considerando que o consumo médio per capita / ano de vinho no mundo é de 5 litros e que nos países da Europa Ocidental chega a ser de 16 litros, o consumo per capita / ano na China é realmente irrisório, chegando, de fato, a apenas 0,62 litros, como se cada chinês bebesse duas taças de vinho no espaço de um ano. Vale a pena considerar que este índice expressa o consumo médio per capita / ano de um dos países mais populosos do mundo, cujos habitantes se caracterizam por importantes diferenças em termos econômicos, culturais, sociais e religiosos, por isso mesmo, provavelmente, o índice mesmo deve ser objeto de importante distorção.

Conexões existentes entre fatores demográficos, econômicos e o consumo de vinho
A China é o país mais populoso do mundo, com 1,6 bilhão de pessoas, distribuída de forma desigual em seu vasto território de quase 10.000 km². Existe uma grande irregularidade demográfica na China, com uma concentração elevada na costa leste nas grandes metrópoles e vastas áreas pouco povoadas no interior. O pais é dividido em grande numero de regiões com poucas relações entre si, inclusive do ponto de vista comercial. O mercado apresenta-se, portanto, extremamente fragmentado, não podendo ser tratado como uma única entidade homogênea.

Os mercados mais importantes, incluindo-se ai o mercado do vinho, são três: Pequim, Xangai e Hong Kong, sobretudo por conta do maior poder aquisitivo e de uma elevada aptidão em absorver a influência do estilo de vida ocidental. Alem destes grandes centros urbanos, todos localizados no litoral, o consumo de vinho é quase inexistente. Mesmo assim, pode ser importante e aconselhável monitorar o mercado de cidades como: Tianjin, Qingdao, e Dalian, onde a população de classe média está em franca ascensão e, no médio prazo, a procura potencial pelo vinho poderá se tornar significativa, em consequência do aumento do poder aquisitivo.
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Conclusões
Conquistar o mercado chinês e participar da divisão deste importante bolo comercial, de acordo com minha experiência pessoal de mais de 15 anos de docência na China, é possível – desde que se encontre a forma de satisfazer certas exigências:
– Rótulos coloridos e chamativos
– Vinhos de cores vivas e brilhantes
– Sensações organolépticas de maciez, com ataque na boca bastante suave.
– Preço do vinho de qualidade que, para o consumidor final, não ultrapasse US$ 20,00
– Importante investimento na promoção, participando em feiras e eventos (ir para lá sozinho, sem estruturas organizadas como suporte é um suicídio comercial)
– Estimular a curiosidade do mercado, ciente do fato que um vinho brasileiro na China é uma absoluta novidade e como tal motivo de interesse e curiosidade
– Introduzir o vinho brasileiro nas muitas churrascarias presentes em solo chinês, o consumidor de lá aprecia harmonizar a culinária de um país com vinho da mesma origem.

Acredito, e aqui vou me despedindo, que o vinho brasileiro de qualidade, considerando suas conotações organolépticas, possa tornar-se um dos produtos enológicos de excelência no complexo mercado chinês.

* Por Roberto Rabachino, jornalista e professor Shanghai Jiao Tong University – Shanghai – China

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