VINHOS | Oito gerações de vinhateiros na Champagne

Foto: Lilian Lima

Nossa primeira parada foi a cidade de Verzy. Localizada na Montanha de Reims, é a área mais fria da região, e onde estão nove dos 17 vilarejos classificados grands crus (a elite dos vinhos franceses) na Champagne. Daqui saem os principais rótulos  de marcas famosas como Möet Chandon, Veuve Clicquot, Louis Roederer, Krug, entre outros tantos.

O créateur de bulles (sim, criador de bolhas, como profissão!) François Barbosa nos recebeu com um sorriso largo e um forte aperto de mão. Sempre fui bem recebida na França, mas esta recepção tinha um pouco de Brasil também. Ele é filho de portugueses, já foi comissário de voo, e tem uma estreita relação com o Brasil. Uma parte da família mora em São Paulo, lugar que ele visita com frequência e onde aprendeu a falar português.

Casado com a francesa Virginie Lepreux, largou o céu para viver da terra. Há oito anos, junto com o sogro Jean Paul Lepreux, é o responsável pela produção do Champagne Lepreux Penet. É uma família de vignerons, os vinhateiros são chamados por aqui. Já são oito gerações produzindo Champagne.

As primeiras terras foram compradas ainda durante a revolução Francesa, no fim do século 18. No início, sem possuir máquinas para produzir o Champagne, a família vendia as uvas para as grandes marcas. Após a crise de 1929, e com o desejo de fazer seu próprio vinho, Louis Guibert Penet torna-se um “colhedor-manipulador”, aquele que colhe as uvas e faz o vinho.

O prédio da vinícola preserva a construção original, desde a época em que foi erguido, e aos poucos vai ganhando novas instalações para acomodar as máquinas que preparam a bebida. Caves a 18 metros de profundidade, e temperatura constante de 9 graus, guardam as jóias da família: mais de 250 mil garrafas de Champagne. Antigamente as ruelas subterrâneas interligavam as casas da família Lepreux Penet. Com o passar dos anos, e a divisão das terras após o casamento dos filhos (que recebiam vinhedos como presente de casamento), as passagens foram fechadas.

Hoje François e Virginie, têm oito hectares de parreirais espalhados em Verzy e Verzenay, tudo em áreas grand cru. Boa parte das uvas colhidas são usadas para fazer os rótulos da família e vinte por cento da produção é vendida para as maisons (com são chamadas as grandes marcas). Um negócio que é bom para o grande e o pequeno produtor, já que cada quilo de uva grand cru é vendido por uma média de 7 euros. E um hectare de terras na Champagne pode custar até 2 milhões de euros.

– Nós pequenos produtores, somos donos de 90 por cento das terras aqui da Champagne, mas as maisons são responsáveis por 80 por cento da produção da bebida. Eles precisam de nós, e nós precisamos deles. São as grandes marcas que divulgam nosso Champagne para mundo. – conta François.

Tudo é feito como manda a tradição, mas sem esquecer da tecnologia. As uvas são colhidas manualmente, prensadas em máquinas apenas uma vez, para extrair a leveza do vinho cuvée. A primeira fermentação é feita em tanques de inox. E para facilitar a remuage, técnica que retira os resíduos do fermento do Champagne antes de ser colocada a rolha, a vinícola usa pállets giratórios. Uma máquina que faz em cinco dias o que manualmente levaria ao menos um mês.

Uma técnica antiga na França, feita pelas grandes maisons, e que voltou a ser realizada pelos vinhateiros, é a passagem do vinho base para Champagne por barricas de carvalho. Antes da fermentação, este vinho é colocado em barricas, como os vinhos brancos e tintos feitos no mundo todo. Para o vinhateiro, o contato com a madeira não vai mudar os aromas do vinho, mas a micro-oxigenação dará estrutura e deixará a bebida com bolhas mais finas e elegantes.

A legislação francesa obriga que o Champagne fique pelo menos 18 meses em contato com as leveduras na segunda fermentação. Na Lepreux Penet, as garrafas são guardadas por no mínimo dois anos antes de serem vendidas. Alguns rótulos chegam a ficar até quatro ou cinco anos.

– Essas bebidas tem estrutura para serem guardadas por mais tempo. O Champagne pode ser consumido com até 12 anos de garrafa. A cada ano a bebida vai ganhando complexidade e aromas. – explica François.

Os rótulos da família são basicamente de misturas e monovarietais de duas uvas: Chardonnay e Pinot Noir, as duas castas nobres para a elaboração dos grand cru. “A Chardonnay vai dar aroma à bebida, enquanto a Pinot Noit da estrutura para o Champagne”, explica François.

Agora a família trabalha para levar as garrafas Lepreux Prenet para os Estados Unidos, Japão e Brasil. “Estamos à procura de uma importadora no Brasil. É o mercado que eu mais me interesso, principalmente por falar o português, o que facilita os negócios, e também porque as vendas de Champagne estão crescendo no país de vocês”, conta François empolgado.

Depois deste passeio às caves e vinhedos de um vigneron, decidimos seguir a estrada e conhecer uma maison. Próximo dali, a cerca de 35 quilômetros, fica outra marca que vale uma visita: a Leroy Duval, com produção anual de cera de 5,5 milhões garrafas, com uma planta industrial muito grande, e sobre a qual contaremos todos os detalhes no próximo post. Bonne journée!

 

  • Foto: Lilian Lima
  • Foto: Lilian Lima
  • Foto: Lilian Lima
  • Foto: Lilian Lima
  • Foto: Lilian Lima
  • Foto: Lilian Lima
  • Foto: Lilian Lima
  • Foto: Lilian Lima
  • Foto: Lilian Lima
  • Foto: Lilian Lima
  • Foto: Lilian Lima
  • Foto: Lilian Lima
  • Foto: Lilian Lima

Gostou? Deixe um comentário: