VINHOS | Oregon: Dundee Hills e o Renascimento do Pinot

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A história do Pinot do Oregon e da própria enologia no Vale de Williamette começou em Dundee Hills. Foi lá que o enólogo David Lett introduziu, em 1966, a uva que atualmente melhor representa a região, contrariando as recomendações de seus professores e amigos próximos. Um ato de bravura que lhe rendeu o apelido de “Papa Pinot” e a admiração de todos os demais produtores que seguiram a sua tradição enológica.

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Quando Lett se mudou para Dundee Hills, não havia vinhedos por lá. A região tinha muita terra disponível e os empreendimentos locais eram quase todos rurais e sazonais – desde plantações de pinheiros para o Natal até criações de peru para o Dia de Graças, famoso feriado norte-americano. Isso permitiu que o enólogo escolhesse a dedo o local para iniciar seu ousado projeto, atentando para o microclima, o solo e a altura em relação ao nível do mar. A região também estava isolada das pragas que normalmente afetam os vinhedos, o que lhe permitiu plantar as mudas em pé-franco, sem enxerto. Hoje reconhecida como uma Área Viticultora Americana (AVA) específica, Dundee Hills oferece condições excelentes para o Pinot, razão pela continua sendo considerado, 50 anos após a chegada de Lett, como um dos locais de excelência para a produção de vinhos no Oregon.

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Razões de sobra para o sucesso

Dundee Hills produz vinhos com bom potencial de guarda e excelente estrutura, além de uma complexidade consistente no nariz e em boca. Parte dessa qualidade decorre do clima, relevo e altura semelhantes à Borgonha, mas o que diferencia o local é a sua especificidade de solo. A área possui um substrato basáltico, de origem vulcânica. Pobre em nutrientes (o que é bom para o vinho), esse solo conserva umidade subterrânea ao longo das estações secas, permitindo a produção sem irrigação (a chamada dry-farming) e obrigando a videira a criar raízes mais profundas. No nível superior do solo, uma camada de sedimentos aluviais-argilosos, rica em ferro, contribui para dar tipicidade aos vinhos: eles têm uma nota consistente de cereja vermelha e alcaçuz doce, acompanhada por algo terroso (cogumelos e folhas secas).

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A Eyrie Vineyards, fundada por David Lett e atualmente administrada por seu filho Jason, provou que esses vinhos não se bebem somente jovens. A vinícola ainda possui à venda vinhos dos anos 1980’ e 1990’, em perfeitas condições! Não por acaso, os vinhos deles serão o tema do nosso próximo post! O maior feito de Lett, no entanto, foi mostrar que era possível produzir fora da Borgonha vinhos complexos e típicos, feitos a partir do Pinot Noir. Muitas outras regiões tentaram repetir essa façanha, antes e depois do Oregon, mas até hoje não há outro caso cujo sucesso seja unanimamente aceito.

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Um modelo sustentável

Atualmente, Dundee conta com 41 vinícolas, várias delas com renome internacional. Além disso, a região serve de modelo e inspiração para todo o Vale de Williamette, que conta  com mais de 300 estabelecimentos. Ambas as regiões têm vinícolas familiares e outras mais profissionalizadas, porém em escalas menores do que na Califórnia. Muitos enólogos também buscam aplicar processos de produção sustentáveis, com agricultura orgânica e fermentação sem leveduras industriais. Essas técnicas não são generalizadas, mas existe uma visão geral (e saudável) de que a intervenção em excesso pode atrapalhar o vinho.

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A busca por sustentabilidade vai além de uma ideologia ambiental e afeta as relações de emprego em muitos dos estabelecimentos. As pessoas com quem conversei trabalhavam no mesmo emprego há mais de cinco anos e estavam na indústria do vinho há mais de dez. Todas se mostravam satisfeitas com a possibilidade de crescimento e a qualidade de vida proporcionada pelo trabalho com a viticultura. Quando fiz as mesmas perguntas em salas de degustação de Napa, na Califórnia, não me lembro de ninguém que tenha respondido estar a mais de três anos naquela atividade, nem me recordo de ter observado qualquer tipo parecido de entusiasmo.

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A postura comercial também é afetada por essa lógica. A maioria das vinícolas em Dundee (assim como no restante de Willamette) realiza parte significativa das suas vendas diretamente para os clientes (em alguns casos, até 70% da produção!). Os estabelecimentos preferem vender para o consumidor do que arcar com o encarecimento provocado pelos intermediários – transportadores, distribuidores, revendedores e outros. Por essa mesma razão, elas oferecem uma estrutura de visitas e degustações menos pesada no bolso, para estimular as pessoas a conhecer e comprar localmente.

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Mais vinícolas para conhecer

Outro produtor de destaque e com influência francesa é o Domaine Drouhin,  propriedade instalada por uma tradicional família da Borgonha no final dos anos 1980’. A vinda deles para Dundee serviu como uma espécie de reconhecimento ao potencial local, atraindo ainda mais interesse dos amantes de Pinot mundo afora. Ao lado deles, a família Evenstad construiu o Domaine Serene, atualmente o mais prestigioso produtor local. Eles atingiram tamanho sucesso com seus vinhos que puderam fazer o caminho contrário, adquirindo vários vinhedos na Borgonha. Ambos esses produtores têm obtido uma consistência remarcável na sua qualidade ao longo dos anos.

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Muitos dos produtores que possuem vinhos certificados na região de Dundee Hills também plantam e vinificam em outras áreas, reservando as uvas dessa denominação para suas linhas reserva ou algum vinho de vinhedo específico. Paralelamente, há um movimento capitaneado por produtores como Stoller Vineyards, que investiram em áreas ainda não exploradas das colinas para fomentar a produção de vinhos a preços mais acessíveis. Nas próximas semanas, vocês poderão ler sobre todos esses produtores aqui no As Boas Coisas da Vida.

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alvaro lima, jornalista, movidoavinho

Álvaro Lima é Jornalista e Sommelier WSET nível 3. Ele atua como editor do blog Movido a Vinho e organiza degustações por meio da Confraria Anônima. A coluna é uma extensão do projeto Caminhos do Vinho, que reúne relatos de viagens por vinícolas ao redor do mundo. Com o tempo, esperamos que você possa usar as dicas desta coluna para planejar suas viagens ou escolher um vinho novo para experimentar - explorando regiões diferentes e opções que cabem no seu bolso. Compartilhe suas impressões pelo e-mail alvinho@movidoavinho.com.br

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