VINHOS | Os vinhos de autor da Chehalem Vineyards

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O que mais gosto ao escrever sobre vinícolas – em comparação a escrever sobre vinhos – é que tenho a possibilidade de conversar com algumas das pessoas por trás da produção. Minha visita à Chehalem Winery foi uma experiência desse tipo. Tive o prazer de conhecer Harry Peterson-Nedry, fundador da Chehalem, que há poucas semanas entregou a direção da vinícola ao seu amigo e antigo sócio Bill Stoller. Na nossa conversa, pude perceber que mesmo o crescimento do projeto não havia mudado a sua filosofia original – de buscar em cada vinho a melhor representação possível da identidade de seus vinhedos.

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O primeiro vinhedo da Chehalem foi também o primeiro vinhedo da colina de Ribbon Ridge, plantado em 1982. Na época, entretanto, Ribbon Ridge estava longe de ser considerada uma AVA, reconhecimento obtido somente em julho de 2005. Curiosamente, o nome Chehalem é uma referência à montanhas que cercam a região e também o nome da AVA mais ampla onde a vinícola está inserida (e onde outros de seus vinhedos mais recentes estão plantados). Essa divisão é semelhante à que acontece em alguns lugares da Europa. Por exemplo: as uvas de Montalcino, na Itália, podem ser usadas para fazer um Brunello, exclusividade da região; ou destinadas à produção de um Chianti, denominação de origem mais ampla e mais simples. Na prática, poucas vinícolas usariam suas uvas na segunda variedade de vinho, que tem um valor de mercado bem inferior. Algo parecido ocorre hoje com Ribbon Ridge e a AVA de Chehalem.

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Identidade

Antes que essa distinção estivesse estabelecida, Harry percebeu que estava diante de um local de grande potencial. Formado em química e interessado na produção de Willamette, ele notou as particularidades do solo e plantou as primeiras uvas da colina. Ele optou pelo sistema de pé franco (sem enxerto, pois não havia indícios de filoxera na época) e batizou aquele vinhedo de Ridgecrest (nome que pode ser livremente traduzido como emblema no topo da colina).

Em Ribbon Ridge, a camada de solo sedimentar marinho é mais funda do que em todo o restante de Willamette. Por essa razão, as uvas são algo mais intensas e concentradas do que em outras áreas do Oregon (até um pouco mais escuras). Conforme as vinhas amadurecem, essas características ficam ainda mais fáceis de perceber, gerando vinhos aptos ao envelhecimento.

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Os rótulos produzidos em Ribbon Ridge têm perfil aromático particular, puxando para frutas negras e coca-cola (sim, esse é um descritor bastante usado pelos produtores locais). Apesar disso, os aromas se oferecem de forma mais contida no nariz do que em boca (se comparados a outras AVAs do Oregon), onde a estrutura rapidamente nos convence da qualidade dos vinhos e do potencial de guarda. Com o tempo, eles produzem os aromas clássicos e elegantes de um Pinot envelhecido – cogumelos, notas florais e bosque.

Autoria

São essas características intrínsecas a Ribbon Ridge que Harry aprendeu a reconhecer nos 36 anos de convívio com seu vinhedo, e são elas que a Chehalem Vineyards busca valorizar nos vinhos que fabrica: “Nosso trabalho como produtores é simplesmente minimizar os problemas e maximizar as qualidades de cada safra”, resume. Em anos quentes, o Pinot de Ribbon Ridge pode facilmente chegar a 14% de álcool, porém com estrutura para sustentar essa quantidade de álcool e sem perder a elegância dos aromas. Em anos mais frios, os vinhos retém um pouco mais de acidez e perdem até 2% de álcool, mas mantém o mesmo perfil aromático.

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Quando o antigo sócio Bill Stoller comprou em fevereiro de 2018 a totalidade da vinícola, ele optou por manter a mesma linha da produção. Atualmente, a elaboração dos vinhos está a cargo da filha de Harry, Wynne Peterson-Nerdy. Ninguém sabe bem por quê, mas há uma geração de excelentes enólogas mulheres no Oregon, e estamos diante de uma delas. Depois de trabalhar em vinícolas da Nova Zelândia, Borgonha e Califórnia, Wynne voltou para a Chehalem em 2009. Ela trabalhou como assistente até 2012, quando assumiu oficialmente a produção na vinícola.

Na linha estabelecida pelo pai e mantida por Bill, a enóloga está fazendo vinhos com grande intensidade de fruta, porém sem excessos de madeira ou intervenção. Eles optam por fazer a fermentação natural do Pinot (sem uso de leveduras comerciais), o que valoriza o aparecimentos de aromas particulares de cada vinhedo. Para reter também o perfil aromático das uvas, eles realizam ainda um um período de maceração a frio – de 5 a 12 dias – antes de prensar e fermentar. Se Harry foi o primeiro a acreditar na identidade dos vinhedos de Ribbon Ridge, sua filha vem buscando apresentá-los em toda a sua elegância – e há quem diga que as enólogas mulheres são mais habilidosas para atingir esse objetivo.

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Vinhos e visitação

A Chehalem tem uma sala de degustações na cidade de Newberg, perto de Ribbon Ridge. Lá, é possível provar as linhas atualmente comercializadas pela vinícola. O flight básico custa 20 dólares por pessoa, e para grupos a partir de seis será oferecido de forma reservada com acompanhamento de um dos funcionários do local. Já a vinícola, fica localizada na estrada que liga Newberg a Portland. A visitação é possível com hora marcada, e custa de 40 dólares (visita + degustação de safras atuais) ou 60 dólares por pessoa (visita + degustação de safras atuais e antigas). Minha dica aqui é a experiência completa: vários especialistas, como Hugh Johnson, citam os vinhos deles como alguns dos mais longevos de Ribbon Ridge!

Dave Rice, responsável pela recepção dos turistas e visitantes na vinícola, é uma pessoa daquelas que faz você se sentir em casa. Meu plano original era fazer a degustação das safras antigas e tinha horário marcado na vinícola pela manhã. No entanto, tive um problema de transporte que me atrasou bastante (e inclusive me obrigou a cancelar outras duas visitas). Dave foi gentil em reorganizar as coisas para me acolher mesmo com a mudança de programação. Simpático e acolhedor, foi ele quem me recebeu e que me contou um pouco sobre o solo e a proposta da Chehalem.

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Ficamos pouco tempo na vinícola até Harry se juntar a nós. Aproveitamos que o dia estava bonito e fomos visitar os vinhedos que a Chehalem tem em Ribbon Ridge – eu, Harry, Dave e Michelle Kaufmann, assessora de imprensa do grupo. Foi lá que provei os vinhos: num clima de pique-nique, sob a sombra das árvores que cercam Wind Ridge, segundo vinhedo da Chehalem em Ribbon Ridge, plantado em 2003.

Eles produzem diversas variedades de brancos em Ribbon Ridge, como Riesling, Pinot Gris e Grüner Veltliner, comercializados em garrafas estilo Alsácia (mais longas). São vinhos de estilo mais europeu, não tão alcoólicos ou pesados, mas com boa presença aromática, estrutura equilibrada e alguma complexidade. Para isso, as vinhas são plantadas nas parte menos inclinadas e mais baixas dos vinhedos (que pegam menos sol). Gostei do Riesling Wind Ridge 2014, a um só tempo leve e com notas de mel e petróleo, que inclusive gostaria de ter tomado mais velho!

Os Pinots de Ribbon Ridge (que eu realmente estava curioso para provar) têm todos uma nota consistente de alcaçuz e farmácia, muito agradável. Mas digo “os Pinots” porque estamos falando de uma vinícola dedicada em buscar a identidade de seus vinhedos – ou seja, eles fazem pelo menos três linhas todos os anos em Ribbon Ridge: tanto o Wind Ridge quanto o Ridgecrest têm seu próprio rótulo. Além disso, eles têm um blend superior dos dois vinhedos, rotulado como Chehalem Reserve.

O Pinot Noir Wind Ridge 2014, degustado diante do vinhedo do qual as uvas foram tiradas [foto que abre o post], é um vinho que se oferece mais, com uma fruta vermelha tostada em boca, acompanhada da nota de alcaçuz. Ele reflete o perfil de Ribbon Ridge com fruta e leveza (talvez por serem vinhas mais novas), e está pronto para beber agora.

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Outra excelente opção para entender a AVA de Ribbon Ridge é o Chehalem Reserve Pinot Noir 2014. Feito a partir de uma seleção de barricas , ele parece um pouco mais sisudo, com uma mistura de frutas negras e vermelhas, igualmente acompanhadas de um toque tostado e alcaçuz. É um vinho que pode ser bebido agora, mas que ainda não está dando tudo de si. Pode ser envelhecido sem medo por pelo menos mais cinco anos para se mostrar bem.

Detalhe interessante: todos os vinhos da vinícola são atualmente engarrafados com tampa de rosca (screw-cap)! Até mesmo o ícone da Chehalem (Statement, que não provamos), usa esse tipo de fechamento. Ao contrário do que muita gente supõe, esse método permite que as pessoas possam guardar o vinho por mais tempo, desde que a abrigo da luz e do calor. Não acredita? Então compre uma garrafa com eles e deixe para abrir daqui a dez anos!

Até a próxima semana!

alvaro lima, jornalista, movidoavinho

Álvaro Lima é Jornalista e Sommelier WSET nível 3. Ele atua como editor do blog Movido a Vinho e organiza degustações por meio da Confraria Anônima. A coluna é uma extensão do projeto Caminhos do Vinho, que reúne relatos de viagens por vinícolas ao redor do mundo. Com o tempo, esperamos que você possa usar as dicas desta coluna para planejar suas viagens ou escolher um vinho novo para experimentar - explorando regiões diferentes e opções que cabem no seu bolso. Compartilhe suas impressões pelo e-mail alvinho@movidoavinho.com.br

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