VINHOS | Que história é essa de manteiga no vinho?

Com muita frequência, nós, que comentamos vinhos profissionalmente, somos “acusados” de encontrar na bebida aromas e sabores que, no entendimento do público leigo, não poderiam estar ali. “Pimentão verde” em um Cabernet Sauvignon jovem? “Manteiga” em um Chardonnay com passagem por barrica de carvalho? Como podemos sentir esses cheiros em um suco de uva fermentado? O vinho não deveria apresentar apenas aroma e gosto de uva? Não estaríamos “inventando” tudo isso por esnobismo, ou para impressionar nossos amigos? Não seria mais simples classificar os vinhos em “bons” ou “ruins”?

A resposta é: Não! Vamos por partes. Pra começo de conversa, “bom” e “ruim” são conceitos altamente subjetivos. A rigor, nada nos dizem sobre um vinho. O que é bom para uma pessoa pode ser ruim para outra. E vice-versa. Alguém pode  preferir um vinho comum de uva Isabel suave a um Château Petrus de safra especial. E daí? Gosto é gosto. O que isso nos diz sobre cada um desses vinhos? Nadica de nada.

Mas e essa história de “pimentão verde” em Cabernet Sauvignon, e de “manteiga” em Chardonnay? Pode isso? Pode, sim. Explico o porquê. O vinho é composto por mais de 600 substâncias químicas e orgânicas diferentes. Algumas moléculas presentes em frutas, legumes e alimentos de um modo geral também podem fazer parte da composição de alguns vinhos. Assim, por exemplo, a Pirazina, composto orgânico aromático comum no pimentão verde, também pode aparecer no vinho elaborado com a cepa Cabernet Sauvignon – sobretudo se as uvas foram colhidas meio verdes. Do mesmo modo que o Diacetil, encontrado em alguns derivados do leite, como a manteiga, também pode aparecer no vinho Chardonnay – principalmente no que estagiou algum tempo em barricas de carvalho.

Poderíamos, claro, dizer que determinado vinho tem aroma de Pirazina, de Diacetil, ou citar fórmulas químicas complexas para definir os aromas e sabores que percebemos na taça. Mas, convenhamos, a avaliação de um vinho se tornaria algo extremamente técnico e sem graça. Não é muito mais agradável compararmos esses aromas e sabores a cheiros e gostos que conhecemos de outros alimentos, flores ou frutos, ou da natureza?

Chocolate, baunilha, mel, pão, abacaxi, ameixa, goiaba, framboesa, jasmim, couro etc, são alguns dos chamados descritores do vinho, ou seja, referências reais, simples e conhecidas de todos (ligadas à nossa memória), que utilizamos para contar a outras pessoas o que percebemos nos vinhos que degustamos.

O que há de errado nisso? Por que essa prática é vista por muitos como afetação? É só uma maneira simplificada de podermos falar com um pouco mais de precisão sobre a bebida que amamos. Claro que também podemos beber vinho sem tentar identificar os seus aromas e sabores ou sem comentar com ninguém o que percebemos na taça. Podemos, simplesmente, dizer “gostei” ou “não gostei”. Ou não dizer nada.

Mas uma bebida tão complexa, tão rica em aromas e sabores, como o vinho, não merece que a apreciemos com um pouco mais de atenção? Que compartilhemos nossas impressões com nossos companheiros de taças? Eu acho que sim. Desfrutamos mais intensamente daquilo que conhecemos melhor. Imagine passar uma semana em Paris sem nada conhecer da história e da cultura da França. Que graça teria? Com o vinho é a mesma coisa.

Ninguém precisa fazer cursos complicados ou estudar muito para beber vinho apenas por prazer. Mas se estiver um pouco mais informado sobre aquilo que bebe certamente terá muito mais satisfação ao degustar um espumante, um branco ou um tinto. Com alguma leitura, um pouco de observação, treino e boa vontade as nuanças aromáticas e gustativas de um vinho tornam-se facilmente perceptíveis. E passamos de simples bebedores a felizes degustadores.

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