VINHOS | Stoller Family Estate: um produtor com vocação para o desenvolvimento local

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Neste post, vou contar a história da Stoller Family Estate, última vinícola visitada no meu giro por Dundee Hills (mas não se preocupem: semana que vem seguimos norte para a região de Ribbon Ridge). A Stoller se destaca por um aspecto muito importante: ao contrário dos outros estabelecimentos visitados, a vinícola pertence a uma família local, que se encontra na região há várias gerações. Sob a direção de Bill Stoller, eles se dedicam a um projeto duplamente ousado: por um lado, buscam entregar a mesma qualidade dos outros produtores de Dundee a um valor mais acessível, para que seus vinhos possam ser consumidos localmente. Por outro lado, eles almejam patamares elevados de sustentabilidade – não somente nos aspectos ecológicos, mas também em quesitos sociais! Se você já pensou em trabalhar numa vinícola, saiba que eles seriam uma excelente opção 🙂

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Perdoem a nerdice: sou fissurado pelo aspecto cultural do vinho, ou seja, pela forma como essa bebida se relaciona com as pessoas, a terra, a história e o mercado local. Essas relações explicam, por exemplo, por que a maior parte do vinho produzido pelos romanos era branco ou rosé, quando o cultivo da vinha chegou a Portugal e como os portugueses “inventaram” o vinho do Porto. Explica, também, de que forma os três exemplos citados na frase anterior se relacionam (mas isso é tema para um outro post).

O que quero dizer é o seguinte: da chegada de David Lett em 1950’ (pioneiro do Pinot na região) até o estabelecimento da Domaine Drouhin nos anos 1980’ (confirmação de um mercado estável), foram sendo estabelecidas as condições necessárias para que uma primeira geração de produtores locais pudesse surgir. Diferentemente da Borgonha e de certas cidades italianas, em que há produtores estabelecidos há dez ou mais gerações, a viticultura norte-americana ainda é recente. Ela depende de capital e mão de obra vindos de fora. Além disso, os vinhos são produzidos para exportação (ou você acha que a Califórnia seria capaz de consumir os 2,5 bilhões de litros de vinho que produz anualmente?).

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Uma nova proposta

A vinícola Stoller está localizada em uma propriedade de 160 hectares, que pertence à família Stoller desde 1943. Antigamente, a área era usado para criação de perus (uma atividade curiosamente comum na região até os anos 1980’). Embora Bill tenha entrado como investidor no mercado de vinhos ainda nos anos 1980’, foi somente em 1995 que ele plantou em Dundee os primeiros quatro hectares de Chardonnay e quatro de Pinot (com três clones diferentes, para ver como se saíam). O projeto foi viabilizado com a parceria de Harry Peterson-Nedry, fundador da vinícola Chehalem, que trouxe a experiência e o conhecimento técnico necessários.

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Um produtor local já seria um feito. Um produtor com consciência local, então, é algo a ser admirado! De todas as vinícolas que visitei até hoje (mais de 50 em pelo menos sete países diferentes), jamais havia encontrado uma tão dedicada a criar um impacto ambiental e social positivo. A presença de painéis solares é tão extensa que eles alimentam a rede pública com a produção de energia em excesso. Grande parte da sua produção é feita por gravitação, e o uso de qualquer tipo de insumo é controlado para não afetar a fauna e a flora da região. A mais revolucionária das qualificações obtidas, no entanto, é a “B-Corp”, uma certificação equiparada a um “fair trade” interno, destinado a funcionários, fornecedores e outros setores na cadeia produtiva. Ela reflete o pagamento de salários justos e a divisão de lucros entre todas as etapas dessa cadeia. Nas palavras de Bill Stoller: “Eu quero construir um negócio que dure pelo menos 200 anos. Para isso, é preciso cuidar do lugar e das pessoas que trabalham nele.”

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Em busca de uma vocação

A Stoller Family State abriga uma área de produção nova e outra mais antiga (destinada à vinificação dos vinhos de linha reserva), além de um prédio destinado às degustações. A ideia original era produzir 20 mil caixas de vinho por ano, mas como os vinhos caíram no gosto do consumidor local, eles expandiram. Atualmente, a Stoller Family Estate tem 85 hectares de vinhedos plantados e produz cerca de 50 mil caixas de vinho por ano, o que gerou a necessidade da segunda área de processamento (já no limite da sua capacidade). A ideia é não crescer mais por enquanto, mas eles estão considerando a possibilidade de aumentar a área de vinhedos para ter mais opções de uva e assim manter a qualidade em anos mais difíceis.

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Na minha visita, fui recebido pela assessora de imprensa da vinícola, Michelle Kauffmann. Além de conhecer bem os vinhos da Stoller, ela se mostrou uma grande fonte de informações sobre a viticultura do Oregon, tendo trabalhado mais de dez anos na entidade responsável pela divulgação dos vinhos do Vale de Willamette. Nas palavras dela, a Stoller se diferencia por querer produzir grandes vinhos a preços acessíveis. “A busca de qualidade não pode ser uma razão para atingir valores exorbitantes. Bill queria vinhos que os seus amigos pudessem comprar quando visitassem a vinícola, sem ter de se endividar para isso”, resume Michelle.

Degustação agradável e acessível

O prédio de degustações tem uma vista panorâmica dos vinhedos, com várias opções de petiscos e vinho em taça. Também é possível optar pelo flight de degustação, que custa R$ 20 e é isentado na compra de duas garrafas. Há ainda duas opções de visitação com horário fixo, incluindo o tour e a prova de vinhos reserva e safras mais antigas. A primeira alternativa custa 75 dólares e acompanha uma tábua de frios; já a versão de 100 dólares inclui um almoço harmonizado com culinária sazonal e local.

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A área fica aberta de segunda a domingo, das 11h às 17h, e quem quiser trazer a própria comida para um pique-nique no gramado será bem-vindo (o que faz da vinícola a opção mais em conta de almoço que encontrei por lá). A equipe de serviço conta com um dos filhos de Stoller, que atua ali discretamente para se familiarizar com os vinhos e os gostos dos clientes. É preciso mencionar ainda o inestimável apoio de Jaime, cachorro de estimação da vinícola, que recepciona calorosamente os visitantes.

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A proposta dos vinhos fica clara já no Chardonnay e no Riesling de entrada da vinícola que custam cerca de 25 dólares. São brancos algo potentes, mas frescos, com boa qualidade de fruta e um equilíbrio atingido sem uso de madeira. A intenção deles é evitar processos que encareçam esses vinhos para o consumidor final. Na medida em que se sobe de linha, os aumentos de custo são repassados proporcionalmente. O Chardonnay com madeira, por exemplo, custa 35 dólares na vinícola e é um ótimo exemplar a esse preço (rico em frutas tropicais e com bastante corpo).

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O Pinot Noir deles, por sua vez, entrega qualidade e consistência. “Queremos que nossos vinhos tenham personalidade, que eles possam ser resgatados ano após anos”, resume Michelle. O Pinot de entrada, Stoller 2015, mostrava-se equilibrado e muito agradável para beber agora. Ainda que sem potência para guarda, é uma bela opção a 30 dólares. Já o Stoller Reserva 2015, por 20 dólares a mais, entrega toda a complexidade que se espera de um Pinot superior, além das notas típicas de Dundee (como cereja e coca-cola), com potencial de guarda para pelo menos mais cinco anos.

Por último, degustei duas safras do Pinot Helen (2012 e 2014), da linha Legacy. Essa é a linha superior da vinícola, custando 70 dólares a garrafa. Aqui, não se busca apenas qualidade, mas personalidade – os vinhos dessa categoria são produzidos para oferecer uma identidade consistente. “Todos os vinhos dessa linha têm nome de mulheres, e isso ajuda. A ‘Helen’ é muito reservada, quase do velho mundo. Já a ‘Nancy’ é a única filha mulher em meio a quatro filhos homens – por isso ela é forte, se impõe, e ainda assim é feminina”, explica Michelle. Esse esforço se percebe na taça. A Helen é produzida 100% a partir do clone Wädenswil de Pinot, uma variedade bem adaptada ao Oregon (mas menos plantada que a Dijonnais). O resultando é um vinho excelente, com boa intensidade e uma estrutura séria, propícia para a guarda.

Não acabou!
Semana que vem continuaremos a jornada pelo Oregon subindo para a AVA de Ribbon Ridge, micro-região localizada alguns quilômetros em direção a Portland. Curiosamente, a área de Ribbon Ridge foi descoberta por Harry Peterson-Nedry, fundador da Chehalem Wines e sócio de Bill Stoller por quase 24 anos em vários projetos. Recentemente (em fevereiro de 2018) Stoller comprou integralmente a vinícola Chehalem e, com ela, adquiriu os vinhedos mais antigos de Ribbon Ridge.

alvaro lima, jornalista, movidoavinho

Álvaro Lima é Jornalista e Sommelier WSET nível 3. Ele atua como editor do blog Movido a Vinho e organiza degustações por meio da Confraria Anônima. A coluna é uma extensão do projeto Caminhos do Vinho, que reúne relatos de viagens por vinícolas ao redor do mundo. Com o tempo, esperamos que você possa usar as dicas desta coluna para planejar suas viagens ou escolher um vinho novo para experimentar - explorando regiões diferentes e opções que cabem no seu bolso. Compartilhe suas impressões pelo e-mail alvinho@movidoavinho.com.br

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