VINHOS | Um italiano apaixonado por Mendoza

Há exatos 20 anos, o jovem empreendedor italiano Antonio Morescalchi e o vinicultor Alberto Antonini, ambos da Toscana, adquiriram 206 hectares de terras no distrito de Luján de Cuyo, na província argentina de Mendoza, para realizarem o sonho de produzir vinhos de terroir no Novo Mundo. Vinhos que expressassem as caraterísticas únicas de solos e clima daquele excepcional região vinícola, aos pés da Cordilheira dos Andes.

A casta escolhida para o projeto Alto Las Hormigas foi a francesa Malbec, extremamente bem adaptada ao terroir desértico mendocino, formado por solos aluviais e com forte presença de calcário em sua composição, a 800 metros de altitude. Logo juntaram-se ao projeto o vinicultor italiano Attillio Pagli, o enólogo Leo Erazo e o especialista chileno em terroir Pedro Parra. A Malbec não era ainda a uva emblemática de Mendoza, embora já se elaborassem bons vinhos com a cepa de Cahors.

Hoje, a bodega Altos Las Hormigas (o nome deriva da luta que os fundadores tiveram para aprender a conviver com as colônias de formigas que habitavam o lugar, sem precisar exterminá-las com venenos) aposta na produção orgânica e biodinâmica, e em vinhos menos alcóolicos e menos barricados, com ênfase na mineralidade extraída dos solos calcários de Luján de Cuyo e Vale de Uco, para onde se expandiu. Em sua excelente gama de produtos, destacam-se também rótulos mais simples, com ótima relação qualidade-preço.

Antonio Moreschalchi esteve há pouco em Porto Alegre, a convite da Sommelier Vinhos, loja que comercializa seus rótulos no mercado gaúcho. Em um almoço no restaurante Família Facin, nos subterrâneos do Shopping Total, conversei longamente com Morescalchi sobre vinhos de terroir, Malbec, tipos de solos, e sobre o novo estilo de vinhos que começa a sair de Mendoza, mais leve e elegante do que o dos pesados vinhos tradicionais da região (geralmente superextraídos, muito alcóolicos, e com madeira em excesso). A seguir, um resumo de nossa conversa.

Terroir
Antonio Morescalchi é apaixonado pelos vinhos de terroir. Ele diz que é o terroir que faz o vinho – não o enólogo. O enólogo apenas ajuda o vinho a nascer. É “um servo”. Ele não curte os chamados “autores” de vinhos, que moldam o vinho ao seu gosto. “Vinhos de autor são para enólogos com muito ego”. O enólogo, diz ele, não deve ser um “rockstar”. Para ele, rockstar é o terroir.

Mineralidade
Antonio Morescalchi acredita que o terroir de um vinho se revela, principalmente, em boca, e não no olfato. Para ele, nada é mais importante do que a mineralidade – essa tensão que atravessa a boca como um trem em alta velocidade, mas diferente da acidez. A mineralidade resulta, principalmente, de solos calcários, bastante comuns em Luján de Cuyo e Vale de Uco. “Aroma se pode fabricar”, diz o italiano, “mas a mineralidade não: ou sai do lugar ou não existe”.

Boca
Para Morescalchi, mais importante do que o nariz, é a boca de um vinho. Os grandes vinhos, diz, têm boca. O nariz é importante em vinhos de até cem dólares. Acima deste valor, é a boca que define um grande vinho.

Estilos
O vinhateiro italiano desaprova vinhos que tentam copiar o estilo de outras regiões. “Todo o mundo tenta fazer Bordeaux, mas não se pode replicar os vinhos de Bordeaux em outro lugares”. Um escultor pode gostar muito de Michelangelo, mas não deve imitá-lo. Rodin gostava de Michelangelo, mas esculpia como Rodin, não como Michelangelo, compara.

Carvalho
Morescalchi diz que utiliza barricas de carvalho para afinar seus vinhos, mas geralmente já usadas, e mesmo assim partes dos volumes, e por pouco tempo. “O objetivo não é mostrar o carvalho”, ensina.

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